INSEGURANÇA ALIMENTAR

Representante da FAO: 'Fragilidades dos sistemas alimentares estão expostas'

Ao Correio, Rafael Zavala, representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), destacou o impacto da insegurança alimentar no Brasil e no mundo

A constatação de que mais de 60 milhões — quase uma a cada três pessoas — de brasileiros enfrentaram algum tipo de insegurança alimentar mostra o desafio que o mundo enfrenta no combate à fome. Os dados do relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), divulgados nesta quinta-feira (7/7), destacam o crescimento do problema nos continentes e o impacto da pandemia de covid-19.

Ao Correio, o representante da FAO no Brasil, Rafael Zavala, destacou como os números são preocupantes e as sugestões para avançar nas políticas públicas de combate à insegurança alimentar. “Estamos vivendo um momento ímpar da história, onde todas as fragilidades dos nossos sistemas alimentares estão expostas, o que pode inclusive ser uma oportunidade de enxergar as lacunas e traçar novas rotas para a erradicação da fome em todo o mundo.”, afirmou.

Confira os principais trechos da entrevista

Quais são os dados de destaque do relatório?

Os dados publicados no relatório mostram uma realidade mundial bastante desconcertante. Os desafios para acabar com a fome e a má nutrição continuam crescendo, e grande parte dos países ainda não conseguiu se recuperar da crise de saúde e econômica derivada da pandemia de covid-19. O número de pessoas com fome em todo o mundo cresceu desde o início da pandemia, e em 2021, estima-se que entre 702 e 828 bilhões de pessoas viviam com fome. Além disso, as projeções são de que cerca de 670 milhões de pessoas ainda enfrentarão fome em 2030, o mesmo número de 2015, quando a Agenda 2030 foi lançada.

Evidências mais recentes disponíveis também sugerem que o número de pessoas incapazes de pagar uma dieta saudável em todo o mundo aumentou para quase 3,1 bilhões em 2021, o que reflete o impacto do aumento dos preços dos alimentos durante a pandemia.

Quando olhamos os dados específicos do Brasil, notamos que houve um aumento da prevalência de insegurança alimentar grave (fome) de 1,9% –3,9 milhões– entre 2014 e 2016 para 7,3% –15,4 milhões– entre 2019 e 2021. É importante destacar que a diferença de dados entre a FAO e a VIGISAN acontece porque usamos metodologias que usam pontos de corte diferentes, mas a tendência dos dados aponta para o mesmo lugar: o aumento da fome no país.

Os números são preocupantes?

Os números preocupam, porque a tendência é que eles sejam ainda piores no futuro. Existem quatro causas principais da fome: conflitos armados, choques climáticos, choques econômicos e choques sanitários, e atualmente estamos vivendo o que a FAO chama de “tempestade perfeita” para a segurança alimentar, pois estes quatro fatores estão acontecendo ao mesmo tempo em alguns lugares do mundo.

Ainda sofremos os impactos da pandemia, e se somaram a eles o aumento da inflação e dos preços dos alimentos, a guerra da Rússia contra a Ucrânia –e o aumento dos preços de energia, petróleo, gás e fertilizantes–, além das mudanças climáticas, que provocam grandes secas e inundações.

Quais são as políticas públicas que podem realmente garantir a efetivação do direito humano à alimentação?

A primeira coisa que precisamos reforçar é que no Brasil a fome não acontece por falta de alimentos, mas sim por falta de renda para adquiri-los. Ou seja, não é um problema derivado da produção, mas sim da pobreza (e desigualdade). Por outro lado, sob a perspectiva da produção agrícola, existe o desafio de produzir alimentos saudáveis a um custo mais baixo.

O auxílio emergencial entregue pelo governo brasileiro em 2021, em decorrência da covid-19, foi sem dúvida, uma ajuda importante às famílias que tiveram seus rendimentos comprometidos pelas medidas de prevenção, mas só isso não é suficiente. Programas como o Auxílio Brasil precisam ser ampliados, pois aumentam a capacidade das famílias de adquirir alimentos e ajudam a reduzir o problema da fome.

Outras experiências a nível estadual e municipal também merecem estaque, pois promovem sistemas agroalimentares de circuito curto. Tive a oportunidade de conhecer alguns desses programas que possuem um grande compromisso com a luta contra a fome e a insegurança alimentar, como os restaurantes comunitários do Distrito Federal, a estratégia de distribuição de cestas básicas para as famílias durante o período de isolamento da covid-19 em São José do Rio Preto (SP) e o programa Prato Feito Carioca, que faz parte da Rede de Segurança Alimentar e Nutricional no município do Rio de Janeiro (RJ).

Por fim, podemos ainda mencionar os programas de alimentação escolar nesse rol de políticas, pois eles oferecem regularmente alimentos para cerca de 20% das populações de seus países e reduzem a pressão da insegurança alimentar, o que foi particularmente observado no período da pandemia. Além disso, fomentam a economia local com compras públicas dos agricultores familiares do entorno das escolas, atuando contra a fome de maneira transversal e gerando benefícios para todos os envolvidos nesta ampla cadeia.

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) tem sido realmente uma ferramenta poderosa aí para mitigar o avanço da insegurança alimentar?

Sem dúvida. Os programas de alimentação escolar são uma importante política social porque garantem a alimentação para os estudantes, apoiam a construção de ambientes escolares saudáveis, melhoram a qualidade da educação, garantem o direito humano à alimentação e ajudam a atingir diferentes Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) é o maior programa desse tipo na região da América Latina e do Caribe, e é considerado uma referência regional e mundial. Todos os dias letivos, os 41 milhões de estudantes brasileiros têm acesso a alimentos frescos, saudáveis e nutritivos, boa parte deles adquiridos da agricultura familiar local. Além disso, esses programas implementam ações de educação alimentar e nutricional, que são muito importantes para fomentar hábitos de consumo saudáveis e sustentáveis nas novas gerações.

O quanto o Brasil avançou em políticas públicas? Podemos dizer que enfraquecemos ou evoluímos nessa questão?

O Brasil tem boas experiências de políticas públicas que podem ser ampliadas, e venho há algum tempo dizendo que o Brasil tem as ferramentas e conhecimento para caminhar rumo ao cumprimento das metas do ODS 2 (fim da fome). Estamos vivendo um momento ímpar da história, onde todas as fragilidades dos nossos sistemas alimentares estão expostas, o que pode inclusive ser uma oportunidade de enxergar as lacunas e traçar novas rotas para a erradicação da fome em todo o mundo.

Reconstruir as economias e buscar a recuperação dos empregos e da renda das pessoas é uma questão prioritária para a segurança alimentar. No entanto, também enfrentamos desafios como a necessidade de garantir alimentos suficientes para uma população mundial em crescimento, proteger a subsistência e o bem-estar dos agricultores e preservar o potencial de desenvolvimento para as gerações futuras.
O que fazer para a segurança alimentar voltar a ser prioridade no mundo?

A nível global, o relatório da FAO sugere que, se os governos redirecionarem os recursos para priorizar os consumidores de alimentos e incentivarem a produção, o fornecimento e o consumo sustentáveis de alimentos nutritivos, eles ajudarão a tornar alimentações saudáveis menos dispendiosas e mais acessíveis para todos.

Além disso, em todos os contextos, as reformas para redirecionar o apoio à alimentação e à agricultura também devem ser acompanhadas por políticas que promovam mudanças no comportamento do consumidor, juntamente com políticas de proteção das populações vulneráveis para mitigar possíveis impactos dessas reformas a estas populações. Por fim, essas reformas devem ser multissetoriais, abrangendo políticas de saúde, meio ambiente, transporte e energia. Só será possível acabar com a fome se transformarmos nossos sistemas alimentares para que eles proporcionem melhor nutrição, melhor produção, melhor ambiente e melhor qualidade de vida, sem deixar ninguém para trás.

E a alimentação escolar?

É muito importante investir na alimentação escolar para essa e para as futuras gerações. Além de garantir comida saudável e nutritiva aos estudantes, ao vincular a compra de alimentos da agricultura familiar, o programa de alimentação escolar promove renda e desenvolvimento dos agricultores locais. É fundamental para a transformação dos sistemas alimentares garantirmos a construção de circuitos curtos de produção e de consumo.

Muitas vezes, agricultores e agricultoras familiares integram as populações mais vulneráveis de seus países. Gerar oportunidades de renda e de trabalho, com programas de compras públicas, ajuda a inserir essas pessoas na economia formal. Por fim, ao fomentar hábitos sustentáveis nos estudantes e no entorno escolar, a alimentação escolar contribui para construir uma geração mais saudável, que fará escolhas de consumo mais conscientes e está mais apta a entender as consequências nutricionais e ambientais de sua alimentação.

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