Beijo do gordo

Conheça ou relembre a trajetória de Jô Soares

Reveja alguns dos momentos mais memoráveis da trajetória do artista na televisão, no teatro, no cinema e até na pintura

Artista múltiplo, Jô Soares colecionava passagens e experiências por várias linguagens. Foi um craque do humor na televisão e no teatro, um apreciador e profundo conhecedor de música, especialmente de jazz, escreveu roteiros e romances (oito no total), atuou em filmes, pintou e fez algumas das melhores entrevistas realizadas na televisão brasileira. Para fechar, evocou essas experiências com maestria em dois volumes de uma autobiografia inevitável para quem quiser saber o que se passou na cena cultural brasileira nos últimos 60 anos.

José Eugênio Soares nasceu no Rio de Janeiro, em 16 de janeiro de 1938, filho do empresário paraibano Orlando Heitor Soares e da dona de casa Mercedes Leal Soares. Passou a infância na cidade até se mudar para a Suíça, aos 14 anos. Em razão de problemas financeiros, a família voltou ao Brasil quando Jô completaria 17. De volta à terra natal, Jô se envolveu com teatro, passou a andar com artistas como o carnavalesco Clóvis Bornay e o diretor Daniel Filho e decidiu se aventurar na arte, à qual se entregou por inteiro. Antes de se tornar conhecido pelos papéis em programas como Família trapo, Viva o gordo e Faça humor não faça guerra, Jô fez muitos bicos, inclusive em estacionamento de supermercado com sequências de esquetes de humor.

O humorista era também escritor. Publicou textos em revistas como Manchete e Veja e em jornais como O Globo e Folha de S.Paulo, mas também assinou romances. Entre eles está o best-sellers O Xangô de Baker Street (1995), adaptado para o cinema em 2001, mas a estreia foi com O astronauta sem regime, de 1983. Em 1998, publicaria ainda O homem que matou Getúlio Vargas, e, mais tarde, em 2005, Assassinatos na Academia de Letras. As esganadas foi a última ficção, publicada em 2011. O jejum da escrita seria quebrado mais duas vezes com a autobiografia O livro do Jô, lançada em dois volumes entre 2017 e 2018. Um ano antes de contar a própria história, Jô foi recebido como membro da Academia Paulista de Letras.

A carreira menos badalada do humorista foi na pintura. Ele se envolveu com artes plásticas ainda novo, nos anos 1960, influenciado por José Roberto Aguilar. Em 1986, expôs na Galeria de Ipanema, no Rio de Janeiro. Seis anos depois aposentou os pincéis por conta de um acidente de moto, que limitou os movimentos nos braços. Voltou em 2004, com ajuda dos computadores. Ele fazia desenhos que escaneava e manipulava pelo computador. Chegou a expor uma segunda vez em São Paulo. Quadro de luz era uma reunião de imagens que tratavam do cinema noir, histórias em quadrinhos e teatro, um trabalho cheio de referências da pop art, estilo preferido de Jô.

Globo/ Rogério Lorenzoni - Jô Soares grava a última temporada do seu programa na Globo Imagem: TV Globo/ Rogério Lorenzoni
Rede Globo/Divulgação - 15/04/1983. Crédito: Rede Globo/Divulgação. Ator, diretor e apresentador Jô Soares, no programa Viva o Gordo. Caption
Rede Globo/Divulgação - Norminha
Arquivo CB/Divulgação - Jô Soares no programa Viva o gordo
CEDOC/ TV Globo - Jô Soares em Faça humor não faça guerra
CEDOC/ TV Globo - Jô Soares de Punk Frutuoso
CEDOC/ TV Globo - Jô Soares na pele de Zé da Galera: personagem futebolístico
CEDOC/ TV Globo - Jô Soares como Capitão Gay
CEDOC/ TV Globo - Jô Soares como Vovó Nanan

Críticas veladas

Na televisão, explorou os mais diversos caminhos e deu vida a mais de 200 personagens. As figuras apresentadas no programa Viva o gordo!, como Capitão Gay, um super-herói gay que fazia críticas veladas à ditadura, Zé da Galera, que ligava para Telê Santana pedindo mudanças nas convocações, e Reizinho, um monarca sempre com problemas no reino, se destacaram nos anos 1980. Mas a carreira artística no cinema teve início muito antes, com Rei do movimento, de 1954, De pernas pro ar, em 1957, Pé na tábua, em 1958. Jô se destacaria na telona em longas como O homem do Sputnik (1959), Vai que é mole (1960), Pluft, o fantasminha (1962), A dona da história (2004), As aventuras de Agamenon, o repórter (2012) e Giovanni Improtta (2013).

O humorista fazia sucesso nas telas, mas tinha o coração nos palcos. Atuou em adaptações de O auto da compadecida e Oscar, nos anos 1960, e em espetáculos próprios como Ame um gordo antes que acabe (1976), Viva o gordo e abaixo o regime! (1978), Um gordoidão no país da inflação (1983), O gordo ao vivo (1988), Um gordo em concerto (1994) e Na mira do gordo (2007). Como diretor, também tem carreira extensa, com montagens como Os sete gatinhos, de Nelson Rodrigues, Romeu & Julieta e Ricardo III, de William Shakespeare, Frankenstein, de Eduardo Manet, e Três dias de chuva, último espetáculo que dirigiu, em 2013.

Foi na televisão que Jô coroou a própria trajetória, não apenas por ter interpretado o reizinho. Em Viva o gordo, deu vida a 22 personagens humorísticos diferentes. O talento era completo: se o artista se destacava em frente às câmeras, também era notável atrás das lentes. Jô se destacou como redator do programa Família trapo, ao lado de Carlos Alberto de Nóbrega, na TV Record, na qual também ganhou visibilidade com o personagem Gordon. Na década de 1970, chegou à Globo a convite José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni (ex-diretor geral da emissora). Lá, passou a integrar o elenco de humorísticos como Faça humor, não faça guerra, Satiricom, Planeta dos homens e Praça da alegria, até chegar ao título que o consagrou.

Na carreira de apresentador, Jô deu nova cara ao formato dos programas de entrevista. O primeiro vislumbre de Jô Soares como entrevistador foi em 1973, no Globo gente, mas foi com o Jô Soares Onze e Meia, a partir de 1988, que a caminhada pelo universo das entrevistas deslanchou: foram 11 anos no ar no SBT. No ano 2000, ele voltou para a Globo para fazer o Programa do Jô, o talk-show mais importante da televisão brasileira. Foram mais de 14 mil entrevistas em 16 anos no ar. Em dezembro de 2016, Jô se aposentou das telas deixando um vasto legado e terminando o último programa com a frase: "A todo esse pessoal, meu eterno beijo do Gordo".

Personagens de destaque

Reizinho: Um dos aclamados 22 personagens de um dos programas mais marcantes de Jô, era um monarca indeciso que dava nos nervos da própria corte com a falta conclusão sobre os problemas do
futuro do próprio reino 

Capitão Gay: Um super-herói vestido de rosa que defendia a cidade do crime. O herói tinha até um próprio jingle que acabou sendo gravado em um compacto e vendido nas lojas de discos. Acompanhado do ajudante Carlos Sueli (Eliezer Motta), o Capitão fazia o público rir, enquanto transmitia um discurso velado contra a ditadura militar, que assolava o Brasil na época.

Zé da Galera: Torcedor fanático da seleção brasileira, ligava para Tele Santana pedindo alterações nas escalações doo time e convocação de outros jogadores.

Norminha: Uma das várias mulheres interpretadas pelo artista, Norminha era uma cantora hippie que buscava a fama a todo custo. O lema dela era “Paz, amor, som e Norminha”, enquanto fazia o número quatro com os dedos.

Vovó Naná: Era uma velha corcunda e meio surda que sonhava com uma vaga na televisão. Jô abordou o etarismo ao sugerir uma personagem idosa como destaque TV.