Pela primeira vez em quase 400 anos, uma mulher foi indicada ao posto de general. O nome escolhido pelo Alto-Comando da Força, em votação secreta, é o da coronel médica Cláudia Lima Gusmão Cacho, de 57 anos. A promoção ao posto de General de Brigada, prevista para contar a partir de 31 de março, ainda depende de decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A indicação não surge de forma repentina. Ela é resultado de uma trajetória construída desde 1996, quando Cláudia ingressou na instituição como oficial temporária, no então 42º Batalhão de Infantaria Motorizada, em Goiânia (GO). Dois anos depois, consolidou o vínculo com a carreira militar ao concluir o Curso de Formação de Oficiais Médicos da Escola de Saúde do Exército.
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Natural de Recife e formada em medicina pela Universidade de Pernambuco (UPE), com residência em pediatria no Instituto Materno Infantil de Pernambuco (IMIP), a coronel desenvolveu a carreira voltada à saúde operacional e hospitalar. Ao longo de quase três décadas, ocupou funções técnicas e estratégicas que a colocaram no centro das decisões da área médica da Força.
Passou por cargos de assessoramento e chefia, como o Escalão de Saúde do Comando da 1ª Região Militar, no Rio de Janeiro, e a subdireção de Legislação e Perícias Médicas da Diretoria de Saúde. Também chefiou a Divisão de Perícias Médicas da Inspetoria de Saúde do Comando Militar do Nordeste e atuou como adjunta da Inspetoria de Saúde do Comando da 9ª Região Militar.
No comando direto de unidades, esteve à frente do Hospital de Guarnição de Natal e do Hospital Militar de Área de Campo Grande, duas estruturas relevantes na rede hospitalar do Exército. Mais recentemente, exerceu a função de subdiretora técnica do Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro.
A formação militar acompanhou a ascensão profissional. Concluiu o Curso de Aperfeiçoamento na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, em 2007, e o Curso de Comando e Estado-Maior de Serviços na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, em 2013 — etapas exigidas para funções de maior responsabilidade.
Entre as condecorações recebidas estão a Medalha Militar de Prata, a Medalha do Pacificador, a Medalha Marechal Hermes de Bronze com uma Coroa, a Medalha Marechal Osório – O Legendário, a Ordem do Mérito Militar no grau de oficial e o Distintivo de Comando Dourado.
Casada com o general de divisão Jorge Augusto Ribeiro Cacho e mãe de duas filhas, Cláudia construiu sua carreira em um período em que a presença feminina ainda se consolidava nos quadros permanentes da instituição — algo que só passou a ocorrer na década de 1990.
A indicação ao generalato ocorre em meio a uma ampliação gradual do espaço ocupado por mulheres no Exército. Em 1992, 52 ingressaram no Quadro Complementar de Oficiais por concurso público. A partir de 1997, passaram a ser formadas também pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) e pela Escola de Saúde do Exército. Desde 2016, o ingresso feminino alcançou a linha de ensino militar bélico, com vagas nos Cursos de Formação de Sargentos e na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx).
Em 2025, a instituição promoveu mulheres pela primeira vez à graduação de subtenente. No mesmo ano, mais de 33 mil mulheres se alistaram para o Serviço Militar, e 1.010 devem ser incorporadas em março de 2026.
