O luto pela perda da filha num crime que chocou o país — o assassinato de Isabella Nardoni, pelo pai, Alexandre Nardoni, e pela madrasta, Ana Carolina Jatobá, há exatos 18 anos —, levou Ana Carolina Oliveira a buscar a cura na fé e em sua rede de apoio. Também mãe de Miguel, de nove anos, e Maria Fernanda, de seis, que não conheceram a irmã, ela encarou novamente a maternidade e se tornou a vereadora mais votada da cidade de São Paulo na última eleição municipal. Ao Podcast do Correio, a vereadora conversou com as jornalistas Adriana Bernardes e Mariana Niederauer sobre a atuação política e o processo de luto que precisou viver após o assassinato de Isabella, em 2008, aos cinco anos. A seguir os principais trechos da entrevista.
Nesse processo da Isabella, quando foi que você percebeu que sua dor tinha se tornado um propósito maior na vida?
Em 2023, quando saiu o documentário, com a história dela, o nome da Isabella voltou a tomar essa proporção ainda mais gigantesca. As pessoas queriam saber, depois de todos esses anos que eu não falava. Foi entrevista atrás de entrevista. Quando abri uma rede, as pessoas começaram a me procurar. Gravava um vídeo falando alguma coisa e as pessoas falavam: "Nossa, eu precisava escutar isso hoje!" "Nossa, que bom saber que você está bem". E aquilo, aos poucos, foi se encaixando e se transformando. Então, comecei a entender que o nome dela, no dia 29 de março de 2008, tinha se tornado algo maior, que nem mesmo podia imaginar. Foi algo como: "Você me representa, você dá a voz". E surgi para ser essa voz que, hoje, representa tantas famílias, tantas mulheres, tantas crianças. Não fui eu quem foi ao encontro dessa história; essa história é que veio ao meu encontro. E aqui estou hoje.
E de que forma você acha que esse seu relato ajuda a cativar as pessoas para que se consiga cuidar melhor das crianças?
Acho que o principal ponto de tudo que trago, de tudo que eu falo, é a verdade. Posso falar sobre os meus sentimentos, sobre o que vivi, sobre o que passei. Quantas famílias não passam diariamente a mesma coisa? A diferença é que meu caso teve repercussão. Então, preciso dar voz ao meu caso, preciso contar meu caso, preciso de justiça — e as pessoas encontraram em mim, talvez, essa fonte. E elas sabem que sou como elas, não sou diferente. Passo perrengue como elas, passei uma dor como elas, falo como elas. Falo realmente o que sinto e o que está dentro de mim. Então, acho que, diante da sociedade que a gente tem vivido hoje, com essa falta de empatia, as pessoas se conectam e falam: "Poxa, vejo que aqui é algo muito próximo do que vivo". Acho que é isso que gera uma conexão.
Que tipo de ajuda você buscou para viver e sair desse luto? Se é que uma mãe um dia sai do luto da perda de um filho...
O luto se transforma. Você tem que entender o que você passou e o que você quer com aquilo. Existe uma gama de opções do que você pode fazer com aquilo que te aconteceu. Para mim, não era opcional. Precisava lutar por justiça. Mas meu pilar, minha base, foi minha conexão com Deus, que acho que nunca me abandonou e é fundamental para toda e qualquer situação que a gente passe na vida. A minha estrutura familiar e a base que os meus pais e minha família me deram foram cruciais para conseguir não me sentir sozinha e me sentir acolhida. Meus amigos também foram fundamentais — e muita terapia.
A Isabella foi vítima de um crime dentro da casa da pessoa que deveria estar cuidando dela. Foi feita justiça?
Costumo dizer que a justiça é relativa. Porque se a gente pegar tudo que vivemos hoje em termos de crime e acontecimentos, sim, a Justiça foi feita. Eles foram condenados — ele a 32 e ela, a 26 anos de prisão. Mas estão soltos — ela, 15 anos depois, e ele, 16 anos depois. Então, é relativo. Tudo que aconteceu com minha filha, a forma como aconteceu, o crime que aconteceu, cometido por quem deveria zelar e proteger a vida dela… Porque quando falamos sobre pai e mãe, o primeiro termo que vem à nossa cabeça é sobre proteção e cuidado. Isso também tem se perdido. Foi feita a justiça dos homens, a justiça que está lá na lei. Eles foram soltos conforme está na lei. Mas, aí, te pergunto: isso é justo? Isso é justiça? Ter que estar aqui, depois de 18 anos, falando com vocês, relembrando, me emocionando? Acabei de sair de uma palestra em que saí extremamente emocionada. (Domingo) fez 18 anos que minha filha se foi. Foi um dia devastador para mim, também por coisas que aconteceram dentro da minha casa, por situações que meus filhos vivem hoje por causa de uma irmã que nem conheceram. Você vê que levo o amor para dentro da minha casa, levo a presença da minha filha e tenho que me emocionar enquanto tem gente que está só vivendo e se protegendo. O que é justiça?
Por que escolheu entrar para a vida pública?
Nunca tive pretensão na vida política. Até que recebi o convite da Renata Abreu, do Podemos, e de outros partidos também, para me filiar e vir candidata a vereadora. Não fui eu que fui atrás da política, foi a política que veio até mim. Então, quando uma pessoa me falou assim — "Olha, essa cadeira está aqui, ela pode ser ocupada por você que tem propósito, força e sabe o que quer, ou por uma pessoa que vai ocupar e fazer o que você não quer" —, falei: "Opa, isso faz sentido". Em abril, me filiei, em agosto comecei a campanha, em outubro era a mais votada na cidade, com 129.563 votos.
Sobre a pauta de violência contra a mulher, onde o Estado e a sociedade estão falhando?
Começa na educação. Precisamos trabalhar a informação, a conscientização. Existem muitas leis. O que acho é que os Poderes não conversam. Vi um caso: 35 medidas protetivas, o cara jogou fogo no carro dela e o filho filmou. Alguém está falhando. O sistema está esperando essa mulher virar uma estatística. Não é falta de lei, é falta de cumprimento. É falta de esses homens entenderem que o que vão fazer tem consequências.
Qual mensagem gostaria de deixar para famílias que tiverem filhos vítimas da violência?
Estou em um outro lugar de cura, 18 anos depois. O que acho extremamente importante para essas mães, para essas famílias, é saber entender o próprio processo de luto. Muitas pessoas ficam nessa busca por justiça e, às vezes, não é só a justiça que vai transformar a vida delas, porque, repito, a justiça é extremamente relativa. Então, naquele momento, me senti grata e honrada por ter a justiça, e depois tudo mudou de novo. A pessoa deve entender seu processo de luto, buscar ajuda se necessário, se fortalecer na sua rede de apoio, ter muito apego e entender que Deus, às vezes, só não fez a história do jeito que você queria. Então, não se entregue. Sou a prova viva de que a gente consegue.
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