A necessidade de integrar conhecimento técnico, ação política e participação social está no centro da atuação do Instituto das Cidades, que tem ganhado espaço no debate sobre desenvolvimento urbano no país. A proposta da instituição é transformar diagnósticos sobre os principais problemas das cidades brasileiras em políticas públicas concretas, com foco na redução das desigualdades e na melhoria da qualidade de vida.
Segundo a diretora executiva, Beatriz Nóbrega, a missão da entidade é funcionar como uma ponte entre especialistas, sociedade civil e poder público. “Uma cidade bem planejada não é um luxo, é um direito”, afirma. Em um país onde mais de 87% da população vive em áreas urbanas — cerca de 190 milhões de pessoas —, ela avalia que o planejamento das cidades impacta diretamente aspectos básicos do cotidiano, como mobilidade, acesso à água e condições de moradia.
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Apesar dessa centralidade, o tema historicamente ocupou posição secundária na agenda pública. Para enfrentar esse cenário, o Instituto atua em áreas como habitação, saneamento, transporte, infraestrutura, economia circular e governança, além de manter comitês técnicos permanentes e participar diretamente do debate legislativo no Congresso Nacional.
Desigualdade urbana no centro do problema
Na avaliação da instituição, os principais desafios urbanos — mobilidade precária, moradia mal localizada, falta de saneamento e planejamento insuficiente — estão interligados e se manifestam de forma desigual entre a população.
A mobilidade, por exemplo, impacta diretamente o tempo e a qualidade de vida dos trabalhadores. Enquanto parte da população consegue chegar ao trabalho em poucos minutos, outra parcela enfrenta longas jornadas diárias em transportes públicos e trânsito intenso. A moradia distante dos centros urbanos agrava esse cenário, ampliando o custo de acesso a serviços básicos.
O saneamento básico expõe um dos contrastes mais críticos: enquanto alguns têm acesso pleno a água tratada e esgoto, outros convivem com condições precárias que afetam diretamente saúde e dignidade. Já o planejamento urbano deficiente contribui para a concentração de riscos em áreas vulneráveis, como regiões sujeitas a enchentes e calor extremo.
Para o Instituto, o núcleo desses problemas está na governança urbana. A falta de coordenação entre União, estados, municípios e demais atores faz com que políticas públicas avancem de forma fragmentada, reduzindo sua efetividade e ampliando desigualdades.
Crescimento urbano sem planejamento
Para a diretora, um dos principais desafios estruturais do país é a velocidade da urbanização sem o devido planejamento. O Brasil passou, em poucas décadas, de um país rural para majoritariamente urbano, sem que políticas públicas acompanhassem esse ritmo.
O resultado é um cenário de desigualdade no acesso a serviços básicos e oportunidades. “As cidades ainda distribuem de forma desigual aquilo que deveria ser mais democrático: tempo, infraestrutura, segurança e dignidade”, resume.
Nesse contexto, o Instituto das Cidades defende que o debate sobre produtividade e qualidade de vida no país não pode ignorar o papel do ambiente urbano. Para a entidade, parte significativa do desgaste cotidiano da população está relacionada não apenas ao trabalho, mas às condições das cidades onde vivem.
