Combate ao racismo: qual o papel das empresas?

Apenas no Distrito Federal, em 2022, foram realizadas 641 denúncias por discriminação de raça ou cor. Iniciativas de grandes marcas, como do Grupo Carrefour Brasil, podem auxiliar no combate dessa realidade

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postado em 07/12/2023 11:08
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Matéria escrita por Gabriella Collodetti, jornalista do CB Brands - Estúdio de Conteúdo do Correio Braziliense

Em julho deste ano, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) indicou que, em 2022, os registros de racismo cresceram no Brasil. De acordo com o levantamento, foram 2.458 ocorrências de crimes resultantes do preconceito de raça ou de cor. Apenas no Distrito Federal, no ano passado, foram feitas 641 denúncias por discriminação, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP/DF).

Considerando esse cenário, o diagnóstico foi confirmado por especialistas e pela sociedade: o Brasil é um país racista. A avaliação, feita pela Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec), no mês de julho, ressaltou que 81% da população possuem essa visão acerca do território brasileiro. Além disso, ainda por meio do levantamento, intitulado "Percepções sobre o racismo no Brasil", foi constatado que 44% consideram que a cor da pele é o principal fator gerador de desigualdades no Brasil, sendo essa a principal afirmação entre todas as estratificações étnico-raciais.

Dentro desse panorama, torna-se necessário iniciativas que transformem a realidade do país. Nesse sentido, o apoio de grandes empresas se faz necessário para que luta antirracista seja viável. Na avaliação de Maria Alicia Lima Peralta, vice-presidente de Relações Institucionais, ESG e Comunicação do Grupo Carrefour Brasil, atualmente, grandes marcas, no país, entendem que esse papel não é apenas para ser promovido apenas pelo governo ou pela sociedade civil. “É um papel que as empresas podem exercer com muita propriedade. Nós temos muitas alavancas que a gente pode acionar para desenvolver essa pauta”, informa.

Maria Alicia destaca que, no âmbito corporativo, ações voltadas ao treinamento e à orientação dos colaboradores são aspectos capazes de mudar a realidade em que o país está inserido. “Existe um movimento grande das empresas para dar esse letramento, de trazer informação e gerar a formação das equipes para que as pessoas entendam como, no dia a dia, seja tratada a questão racial. Essa é a primeira dimensão de como as empresas podem contribuir”, comenta.

Segundo a executiva, outra maneira de potencializar o combate ao racismo diz respeito à representatividade de pessoas negras, cada vez mais, em cargos de liderança, onde é possível trazer a pauta diariamente para as organizações. “Nós, no Grupo Carrefour, temos uma meta de chegar a 50% de pessoas negras em cargos de liderança até 2026. Hoje, o Grupo Carrefour tem 42% de pessoas na liderança, em cargos de gerência ou acima que são negras. Buscamos elevar essa porcentagem e isso passou a ser uma coisa muito natural na nossa realidade”, exemplifica. “Essa iniciativa permite que as companhias tragam representatividade e fiquem em consonância com a nossa sociedade”, complementa.

Outra maneira de potencializar o combate às discriminações étnico-raciais envolve a influência, atingindo desde fornecedores até clientes e colegas de trabalho. Para Maria Alicia Lima Peralta, esse ecossistema pode ser impactado pela mensagem, pela estruturação de um pensamento diferente no que tange à diversidade e inclusão. Para ela, é fundamental que as cooperativas, empresas e agências promovam e valorizem a diversidade da sociedade brasileira.

Uma maneira de fazer isso envolve o comportamento adotado pelas organizações. No caso do Grupo Carrefour, Maria Alicia indica que a empresa pratica o Racismo Zero e deixa isso em evidência nas tratativas com fornecedores. “Não basta ser. Temos que influenciar para que os outros possam aderir a esse movimento e tenham o comportamento que espelhe essa mesma preocupação, especialmente em empresas que trabalham conosco e até mesmo os nossos clientes”, ressalta.

Essas iniciativas da companhia trouxeram um resultado positivo. Atualmente, o Grupo Carrefour Brasil está entre as empresas com mais pessoas negras na liderança, sendo 40% em posições de gerência e direção. Além disso, mais de 140 mil pessoas da equipe foram treinadas para combater o racismo e a discriminação, o que auxilia o enfrentamento das discriminações no país devido à instrução e orientação que as equipes recebem de forma constante.

Maria Alicia Lima Peralta, vice-presidente de Relações Institucionais, ESG e Comunicação do Grupo Carrefour Brasil
Maria Alicia Lima Peralta, vice-presidente de Relações Institucionais, ESG e Comunicação do Grupo Carrefour Brasil (foto: Divulgação/Grupo Carrefour Brasil)

No entanto, a profissional compreende que o caminho pode ser complexo, especialmente por se tratar de uma rede com ampla atuação no país. Com 48 anos de atuação, o Grupo Carrefour Brasil é líder do varejo alimentar e, mensalmente, atinge 60 milhões de clientes. Presente em todos os Estados e Distrito Federal, sua operação abrange mais de mil pontos de vendas. A empresa é a segunda maior operação dentre os países nos quais o Grupo Carrefour opera e uma das 20 maiores empresas listadas na bolsa brasileira (B3)

Diante da sua relevância em âmbito nacional, iniciativas à frente da agenda racial realizadas pela marca buscam não se resumir apenas a um programa, visto que elas são um reflexo da cultura do i4Cs da marca (Inclusão, Cliente, Coragem, Cooperação e Compromisso com a mudança). Na frente da agenda racial, o Grupo tem intensificado suas ações, na quais são pautadas em três eixos: treinamento, transparência e consequência.

“Nosso grande desafio é que temos um volume muito grande de operações e de clientes que transitam nas nossas lojas todas as semanas. Se a gente pensar nos 15 milhões de pessoas que entram nas mais de mil lojas do grupo. Por que esse é um grande desafio? Porque essas interações são vivas. O que torna a gente forte, também torna difícil a tarefa”, pontua.

Por essa razão, o tripé — treinamento, transparência e consequência — é um critério essencial para o Carrefour, segundo Maria Alicia. Na prática, cada eixo pode ser detalhado da seguinte forma:

  • Treinamento: com investimentos significativos de prevenção e construção de uma cultura antidiscriminatória;
  • Transparência: assumindo responsabilidades e prestando contas aos clientes e à sociedade;
  • Consequência: agindo com o rigor necessário para que nenhum desvio de conduta fique impune.

(foto: CB Brands)

 

Investimentos e transformações

Claudionor Alves, diretor de Equidade Racial e Relações Institucionais, possui a responsabilidade de desenvolver uma gestão inclusiva no Grupo Carrefour Brasil. Para a sua atuação, ele ressalta: é fundamental manter o diálogo da representatividade internamente, mas também com outras organizações parceiras.

"Discutir esse tema, não somente interna, mas também externamente; atualizar autoridades em relação as ações que temos trabalhado no Grupo Carrefour é o meu compromisso nessa cadeira", destaca. Segundo o profissional, quando a corporação traz a temática de inclusão.

Claudionor pontua a necessidade de abordar o tema no sentido de expandir o diálogo e o combate à discriminação. “Não basta só reconhecer o assunto. A gente tem que lutar, tem que ser antirracista e é um discurso que temos comentado internamente, para os nossos colaboradores, mas também com os nossos fornecedores e parceiros”, informa.

Para reforçar esse compromisso, o Grupo Carrefour Brasil adicionou nos seus contratos a cláusula de antirracismo. “Hoje, o nosso fornecedor, com um funcionário com uma postura racista, não pode continuar com a gente. Isso está firmado em contrato, está claro da responsabilidade que cada fornecedor nosso tem com relação a esse tema”, destaca.

Dessa forma, a marca consegue garantir que as suas lojas sejam, cada vez mais, um ambiente acolhedor e seguro em diferentes aspectos. “Além de ter uma segurança mais empática, uma segurança que preste serviço para o nosso cliente, com cordialidade, com atenção, com cuidado do cliente chegar na loja e entender que estamos ali para ajudar e não para monitorar ou vigiar. Essa mudança de conceito que a gente tem trabalhado há alguns anos e, muito abertamente, eu falo que a gente tem sentido efeito positivo”, avalia.

Além disso, para Claudionor, o diálogo se faz necessário, especialmente devido ao Grupo Carrefour ser considerado o maior varejista do país. “Temos a responsabilidade de fomentar esse tema”, comenta. Por essa razão, a organização promove Fórum Internacional da Equidade Racial, em parceria com a Universidade Zumbi dos Palmares, justamente com o intuito de abrir conversas e panoramas acerca do assunto, que conta com painéis voltados à educação, empregabilidade, responsabilidade do setor empresarial e também na formação de profissionais negros e negras.

“Nesse evento, convidei cerca de 150 fornecedores que vão estar não somente nos prestigiando com a sua presença, mas revivendo e reafirmando o compromisso que temos através de cláusulas contratuais em relação ao combate ao racismo. O tema é necessário, precisa ser discutido”, diz.

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