O cheiro de comida costuma desencadear salivação quase imediata em muitas pessoas, fenômeno observado no cotidiano ao passar perto de uma padaria ou ao sentir um prato sendo preparado em casa. Essa reação parece automática, mas envolve um conjunto de processos do cérebro, do sistema nervoso e da memória, que trabalham de forma integrada para preparar o organismo para a alimentação, mesmo quando a pessoa não está exatamente com fome, como explica a pesquisa “Anticipatory physiological regulation in feeding biology: cephalic phase responses”.
Como o cheiro de comida ativa o corpo de forma tão rápida
Ao inalar o odor de um alimento, moléculas químicas entram pelas narinas e alcançam o epitélio olfatório, região especializada dentro do nariz. Ali, receptores olfativos transformam esses sinais químicos em impulsos elétricos, enviados ao bulbo olfatório, no cérebro, em um caminho direto e muito veloz.
Do bulbo olfatório, as informações seguem para áreas cerebrais ligadas à emoção, à motivação e à memória, como o sistema límbico. Em paralelo, essas regiões se comunicam com núcleos que controlam funções automáticas, ativando glândulas salivares e preparando o sistema digestório para uma possível ingestão de alimento.
Por que o cheiro de comida desencadeia salivação imediata
A salivação ao sentir cheiro de comida é considerada um reflexo condicionado quando surge a partir de experiências anteriores. Inicialmente, o organismo responde de forma inata ao alimento na boca, produzindo saliva para facilitar a mastigação e o início da digestão de carboidratos por enzimas como a amilase salivar.
Com o tempo, o cérebro aprende a antecipar esse momento e passa a acionar o mesmo mecanismo apenas com pistas ambientais, como o aroma de um prato específico. Assim como nos experimentos de Ivan Pavlov com cães, o cheiro de comida torna-se um estímulo associado à chegada do alimento, gerando uma resposta de condicionamento clássico no cotidiano humano.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo do perfil @banheiradeconhecimento:
@banheiradeconhecimento Por que quando sentimos cheiro de comida que amamos NOSSA BOCA ENCHE DE ÁGUA?
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Qual é o papel da memória sensorial na salivação pelo cheiro de comida
A memória sensorial guarda registros rápidos e detalhados de estímulos como cheiros, sons e imagens. No caso dos odores, essa memória é especialmente importante porque o sistema olfativo tem conexões diretas com regiões envolvidas na lembrança de experiências, facilitando o resgate quase instantâneo de situações ligadas a determinados aromas.
No contexto da alimentação, o cheiro de um alimento específico pode trazer à tona lembranças de refeições anteriores, de sensações de prazer ou de conforto associadas à comida. Quanto mais vezes o indivíduo vivenciou momentos positivos ligados àquele cheiro, mais forte tende a ser a associação e, consequentemente, a resposta de salivação antecipatória.
Quais processos neurofisiológicos atuam por trás da salivação ao sentir cheiro de comida
A salivação motivada pelo cheiro de comida combina reflexos inatos e mecanismos aprendidos, todos mediados pelo sistema nervoso autônomo. Do ponto de vista biológico, há uma base ligada à sobrevivência, que busca preparar o organismo para digerir o alimento de forma mais eficiente assim que ele chega à boca.
De forma simplificada, esse processo pode ser descrito em etapas encadeadas que mostram como percepção, memória e reflexos condicionados se integram para gerar uma resposta automática:
- Contato com o aroma: moléculas do cheiro entram pelo nariz e são detectadas pelos receptores olfativos.
- Transmissão ao cérebro: o bulbo olfatório encaminha essas informações a áreas corticais e ao sistema límbico.
- Ativação da memória: memórias sensoriais de refeições anteriores ligadas àquele cheiro são rapidamente acessadas.
- Associação aprendida: o cérebro reconhece o odor como sinal de que a alimentação está próxima.
- Resposta fisiológica: centros nervosos autônomos ativam glândulas salivares, aumentando a produção de saliva.

Quais fatores podem intensificar ou reduzir a salivação provocada por cheiros de comida
A intensidade da salivação diante do cheiro de comida varia muito entre indivíduos e situações do dia a dia. Essa reação depende tanto do estado interno do organismo quanto de características pessoais, experiências prévias e condições de saúde, que podem fortalecer ou atenuar o reflexo condicionado.
Entre os principais elementos que modulam essa resposta, destacam-se:
- Fome ou saciedade: a tendência é que a salivação seja maior quando o organismo está em jejum ou com fome prolongada.
- Histórico de experiências: cheiros associados a refeições frequentes, prazerosas ou marcantes tendem a provocar reações mais fortes.
- Sensibilidade olfativa: pessoas com olfato mais aguçado geralmente notam mais intensamente aromas de comida.
- Estado emocional: estresse, ansiedade ou distração podem diminuir a atenção a estímulos sensoriais, inclusive cheiros.
- Condições de saúde: alterações no olfato ou na produção de saliva, por doenças, envelhecimento ou medicamentos, podem modificar esse reflexo.
Em síntese, o cheiro de comida desencadeia salivação imediata porque o cérebro aprendeu, ao longo de inúmeras experiências, a associar esse estímulo à chegada do alimento. A combinação de reflexo condicionado, memória sensorial e preparação fisiológica faz com que um simples aroma acione, de forma rápida e automática, todo um sistema de preparo do organismo para a alimentação.







