Em muitos ambientes, da família ao trabalho, é comum observar pessoas que, ao receberem algum tipo de crítica, entram imediatamente em posição de defesa. Em vez de escutar com calma, justificam, atacam de volta ou mudam de assunto. Esse comportamento não surge do nada: costuma estar ligado a experiências anteriores, crenças internas e à forma como cada um aprendeu a lidar com erros e frustrações ao longo da vida.
Por que a crítica é percebida como ameaça à identidade
Quando a crítica aparece, a mente de algumas pessoas interpreta o comentário como uma ameaça à própria identidade, e não apenas como um ajuste de rota. A avaliação externa passa a ser entendida como um julgamento de valor sobre quem a pessoa é, como se dissesse algo sobre seu valor humano, e não sobre um comportamento específico,c omo explica a pesquisa “Acute stressors and cortisol responses: a theoretical integration and synthesis of laboratory research”.
A partir daí, o corpo reage com tensão, o pensamento acelera e a tendência é se defender, mesmo quando o objetivo inicial de quem fala era apenas colaborar ou orientar. Em contextos profissionais, isso pode prejudicar a produtividade e o clima da equipe; em relações pessoais, pode gerar afastamento e dificuldade de diálogo.
Por que a crítica ativa tantos gatilhos emocionais
A crítica, mesmo quando respeitosa, pode acionar memórias antigas de reprovação, vergonha ou rejeição. Em muitos casos, a pessoa se acostumou a associar erro a punição, chacota ou perda de afeto. Assim, qualquer comentário que aponte algo a ser melhorado é ouvido como um ataque, e o que poderia ser percebido como feedback construtivo passa a ser recebido como desvalorização pessoal.
Outro fator importante é a relação com a própria autoestima. Quando a autoimagem é frágil, a crítica soa como uma prova de incapacidade. Em vez de escutar, o impulso é proteger o pouco de segurança interna que existe, erguendo barreiras emocionais. Nessa dinâmica, o medo de não ser aceito ou respeitado pesa mais do que a curiosidade de aprender alguma coisa nova com a situação.
Para aprofundarmos no tema e explorarmos melhores formas de lidar com isso, trouxemos o vídeo do psicólogo Marcos Lacerda, que já conta com mais de 130 mil visualizações:
Quais são os gatilhos emocionais mais comuns diante de críticas
O tema central aqui é a dificuldade em ouvir críticas sem se defender, algo que atinge diferentes perfis de personalidade. Esses gatilhos se manifestam de forma discreta, mas influenciam diretamente o modo como cada um reage às observações externas. Identificar esses pontos sensíveis é um passo essencial para transformar a relação com o feedback e desenvolver maior maturidade emocional.
Alguns gatilhos emocionais aparecem com frequência em relatos de pessoas que se sentem atacadas diante de qualquer crítica. A seguir, estão exemplos típicos que ajudam a reconhecer padrões internos e entender por que determinadas situações parecem disparar sempre a mesma reação.
- Medo de rejeição: receio de perder afeto, respeito ou espaço ao ser criticado.
- Histórico de críticas agressivas: convivência com pessoas que apontavam erros com ironia, grosseria ou humilhação.
- Perfeccionismo: crença de que errar é inaceitável, gerando culpa e vergonha excessivas.
- Autoestima baixa: dificuldade em reconhecer qualidades, tornando qualquer crítica uma confirmação de incapacidade.
- Orgulho ferido: necessidade de manter uma imagem de estar sempre certo, sem admitir falhas.
- Experiências de comparação: ter sido comparado com irmãos, colegas ou parceiros, criando insegurança constante.
Como transformar defesa automática em autoconhecimento
Transformar a defesa automática em oportunidade de crescimento passa, entre outros pontos, pelo desenvolvimento da escuta ativa. Escutar ativamente significa prestar atenção ao conteúdo e à intenção da mensagem, sem se precipitar em respostas. É um exercício de pausa interna: antes de rebater, a pessoa tenta compreender o que está sendo dito, por que está sendo dito e o que pode ser aproveitado daquele comentário.
A escuta ativa não implica concordar com tudo. Ela permite separar três elementos: o que tem fundamento, o que é apenas opinião do outro e o modo como a mensagem foi transmitida. Mesmo quando a forma não é a mais cuidadosa, ainda é possível extrair algum dado útil. Ao focar no conteúdo, e não apenas no tom, a pessoa começa a usar a crítica como ferramenta de autoconhecimento, em vez de enxergá-la apenas como ataque.
- Respirar antes de responder: criar um pequeno intervalo entre ouvir e falar ajuda a diminuir a reatividade.
- Fazer perguntas: pedir exemplos concretos e esclarecimentos torna o feedback mais objetivo e menos ameaçador.
- Reformular o que ouviu: repetir com suas palavras o que foi dito garante entendimento e evita mal-entendidos.
- Separar pessoa e comportamento: lembrar que a crítica é sobre uma atitude específica, não sobre o seu valor como pessoa.
- Registrar padrões: observar críticas recorrentes pode revelar pontos cegos importantes para o desenvolvimento pessoal.

O que muda na prática ao trocar defesa por autoconhecimento
Ao trabalhar a escuta ativa, a pessoa passa lentamente de uma postura centrada na autodefesa para uma posição mais orientada ao autoconhecimento. Essa mudança não acontece de um dia para o outro, mas é perceptível quando as críticas deixam de gerar discussões constantes e passam a abrir espaço para conversas mais objetivas, alinhamento de expectativas e construção de confiança.
Quando a crítica deixa de ser vista como sentença e passa a ser entendida como dado de realidade, o impacto emocional tende a diminuir. Com o tempo, escutar se torna um processo menos desgastante e mais informativo. A pessoa passa a perceber que aceitar um ponto a melhorar não elimina suas qualidades, apenas amplia a visão sobre si mesma e sobre a forma como suas atitudes são percebidas pelos outros.
| Defesa | Autoconhecimento |
|---|---|
| Tende a justificar imediatamente qualquer apontamento. | Escuta o comentário até o fim antes de responder. |
| Enxerga a crítica como ameaça à própria identidade. | Vê o feedback como informação sobre um comportamento específico. |
| Foca em quem criticou e no tom usado. | Foca no conteúdo e no que pode ser aproveitado. |
| Busca provar que está certo. | Procura entender o que pode ser ajustado ou aprimorado. |
| Sente necessidade de contra-atacar ou mudar de assunto. | Permanece na conversa para esclarecer e alinhar expectativas. |









