Em muitas situações do dia a dia, pessoas relatam apreciar o cheiro de gasolina, tinta, livro novo ou até de chuva no asfalto quente. À primeira vista, esses odores podem parecer estranhos para serem considerados agradáveis, mas a explicação envolve uma combinação de memórias olfativas, estímulos cerebrais, características químicas das substâncias e até fatores culturais e individuais que moldam o que cada pessoa percebe como um aroma agradável ou reconfortante.
Como o cérebro processa cheiros estranhos como gasolina e tinta
O caminho do cheiro até o cérebro começa quando moléculas voláteis entram pelo nariz e se ligam a receptores na mucosa olfatória. Essas informações seguem para o bulbo olfatório, região que faz a primeira interpretação do odor, e depois alcançam áreas como o sistema límbico, o hipocampo e a amígdala, todos ligados a emoção e memória, como mostra a pesquisa “Individual odor hedonic perception is coded in temporal joint network activity”.
Assim, o cérebro não registra apenas o cheiro em si, mas também o contexto em que ele aparece, como o local, o momento de vida e o estado emocional. Esse conjunto faz com que cheiros de gasolina ou tinta, quando ligados a experiências positivas, sejam codificados como algo familiar e potencialmente agradável, mesmo que quimicamente sejam irritantes ou tóxicos em excesso.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo da Dra. Hanny Storch:
@dra.hannys Por que você gosta do cheiro de gasolina?⛽️ #curiosidades #medicina ♬ som original – Hanny Storch
Memórias olfativas explicam por que certos cheiros ativam lembranças tão fortes
As chamadas memórias olfativas são formadas quando um cheiro é registrado junto com informações emocionais e contextuais: onde a pessoa estava, com quem, o que acontecia no momento. Como o sistema olfativo tem ligação direta com o hipocampo, responsável pela consolidação das memórias, esse tipo de registro tende a ser especialmente duradouro e vívido.
Esse fenômeno não se limita a odores socialmente vistos como agradáveis, pois cheiros de gasolina, solventes, oficina mecânica ou laboratório escolar podem remeter a momentos de descoberta e convivência. Ao sentir novamente o mesmo odor, o cérebro reativa o “pacote” memória + emoção, fazendo a pessoa ter a sensação de gostar daquele cheiro, ainda que saiba que ele está associado a substâncias potencialmente tóxicas.
Por que o cérebro pode considerar cheiros químicos agradáveis
Do ponto de vista químico, muitos aromas considerados estranhos são formados por compostos orgânicos voláteis que se espalham facilmente no ar e chegam rápido aos receptores olfativos. Em certos casos, esses compostos lembram, em estrutura ou efeito, moléculas presentes em perfumes, flores ou frutas, o que pode gerar uma sensação de familiaridade e até prazer olfativo inconsciente.
Além disso, fatores como intensidade do cheiro, frequência de exposição e associações positivas com momentos de relaxamento ou conquista ajudam a reforçar o vínculo afetivo. Para entender melhor esse processo, alguns dos principais mecanismos podem ser destacados e observados no dia a dia:
- Hidrocarbonetos aromáticos: presentes em combustíveis, podem ter notas doces ou levemente adocicadas, facilitando a associação com cheiros comuns em fragrâncias.
- Cetonas e ésteres: alguns tipos usados em tintas e solventes lembram, em baixa concentração, aromas frutados ou florais encontrados em perfumes e produtos de limpeza.
- Moléculas voláteis intensas: cheiros fortes chamam mais atenção do cérebro, favorecendo a formação de uma memória marcante, positiva ou negativa.
- Habitação sensorial: com o contato frequente, o sistema olfativo se acostuma a certos compostos, reduzindo a sensação de incômodo e dando espaço às associações afetivas.
- Interação com o sistema de recompensa: quando o cheiro aparece em situações agradáveis, o cérebro pode liberar dopamina, vinculando o odor a uma sensação de bem-estar contextual.

Como cheiros estranhos se conectam a lembranças marcantes
A tabela a seguir apresenta alguns exemplos de cheiros considerados estranhos por muitas pessoas e os tipos de lembranças com que costumam ser associados. Não se trata de uma regra, mas de situações frequentemente relatadas, que ilustram o papel das experiências pessoais na construção da preferência por determinados odores.
Essas associações variam conforme a história de vida, a cultura e até o clima de cada região, mostrando que o olfato é profundamente subjetivo. Assim, um mesmo cheiro pode ser acolhedor para uma pessoa, neutro para outra e desagradável para alguém com memórias negativas ligadas àquele odor específico.
| Cheiro | Possíveis lembranças associadas |
|---|---|
| Gasolina | Viagens de carro, paradas em postos, passeios em família |
| Tinta fresca | Mudança de casa, reforma, ambiente novo de trabalho ou estudo |
| Álcool em gel ou desinfetante | Hospitais, consultórios médicos, rotina de cuidados com a saúde |
| Livro novo | Primeiro dia de aula, biblioteca, início de curso ou projeto |
| Chuva no asfalto | Infância brincando na rua, retorno para casa, mudanças de estação |
| Oficina mecânica | Visitas com familiares, trabalhos manuais, aprendizado sobre carros |
Esses cheiros considerados agradáveis são realmente seguros
Apesar de muitas pessoas apreciarem o aroma de gasolina, tinta ou solventes, especialistas em saúde alertam que a inalação prolongada ou intencional dessas substâncias pode representar risco. Em concentrações elevadas, alguns compostos podem irritar as vias respiratórias, causar tontura e, em casos extremos, afetar o sistema nervoso central, exigindo sempre ventilação adequada dos ambientes.
O fato de alguém gostar do cheiro não significa que a substância seja inofensiva, pois a sensação de prazer está ligada principalmente às memórias olfativas e às associações emocionais. Em contextos profissionais, como oficinas, indústrias ou ateliês de pintura, o uso de equipamentos de proteção e o respeito a normas de segurança continuam sendo recomendados para evitar intoxicações agudas ou problemas crônicos.
Como entender melhor a própria relação com cheiros inusitados
Observar em que situações o gosto por um determinado cheiro apareceu pode ajudar a compreender essa relação, permitindo identificar se ela está ligada a momentos de alegria, mudança, conquista ou simples rotina. Muitas pessoas percebem que o apreço por gasolina começou em viagens de infância, o de tinta em períodos de mudança e o de chuva em dias emocionalmente marcantes.
Ao reconhecer esse papel do olfato, torna-se mais fácil perceber por que cheiros classificados como estranhos podem significar conforto, familiaridade ou lembrança de um período específico da vida. Dessa forma, o aroma de gasolina, tinta ou outros compostos similares deixa de ser apenas um fenômeno químico e passa a ser também um marcador de histórias pessoais armazenadas no cérebro e resgatadas sempre que o odor volta a ser sentido.








