A conexão entre as cores que vestimos e a percepção de poder sempre foi um tema explorado pela moda, mas pesquisas psicológicas e evolutivas indicam que esse fator pode, de fato, influenciar resultados competitivos e hierarquias sociais. Embora a competência profissional seja fundamental, a ciência observou padrões curiosos ligando o espectro visual à química cerebral e à resposta instintiva de submissão ou respeito nos interlocutores.
Por que a cor influencia a dominância?
Pesquisadores afirmam que a reação humana às cores é, em parte, biológica e evolutiva. Sinais visuais serviam, ancestralmente, para identificar ameaças, saúde ou status de acasalamento. Um estudo seminal publicado na revista científica Nature demonstrou que a cor do vestuário pode alterar a testosterona percebida e até o resultado de competições físicas.
As cores funcionam como “sinais de qualidade”, modulando o comportamento de quem veste (autoconfiança) e de quem observa (respeito ou intimidação), um fenômeno conhecido na psicologia como “Cognição da Indumentária” (Enclothed Cognition).
Quais cores aparecem com mais destaque?
Diversas investigações, incluindo pesquisas da Universidade de Durham (Reino Unido) e da Universidade de Cornell (EUA), identificaram um padrão claro: cores específicas estão intrinsecamente ligadas à projeção de poder e vitória.
Isso não indica que pessoas que usam outras cores sejam fracas, mas que aqueles que optam por estes tons tendem a projetar (e sentir) uma maior assertividade em momentos decisivos.
Resumo das tendências observadas nos estudos:
- Vermelho (O Poder Agressivo): Associado à dominância biológica absoluta. Estudos mostram que o vermelho eleva a percepção de agressividade e status. Atletas que usam vermelho têm estatisticamente mais chances de vitória em esportes de combate, pois a cor sinaliza, evolutivamente, “perigo” e dominância ao oponente.
- Preto (A Autoridade Intimidaria): Ligado à sofisticação e ao “lado sombrio” do poder. Pesquisas sobre uniformes esportivos revelaram que equipes que vestem preto são percebidas como mais agressivas e são penalizadas com mais frequência, pois a cor projeta uma aura de impenetrabilidade e força bruta.
- Azul Marinho (A Competência Intelectual): Enquanto o vermelho é físico, o azul escuro é o poder mental. Associado à confiabilidade e lógica, é a cor da liderança corporativa estável. É a preferência de líderes que buscam dominar pelo intelecto e não pela força.
O que a ciência diz sobre o “Efeito Vermelho”?
A “vantagem” de vestir vermelho parece estar ligada aos níveis de testosterona e à resposta de luta ou fuga. Russell Hill e Robert Barton, antropólogos da Universidade de Durham, publicaram na Nature o estudo “Red enhances human performance in contests”, onde analisaram os Jogos Olímpicos de 2004. Eles descobriram que, em lutas parelhas, quem vestia vermelho vencia com mais frequência do que quem vestia azul.
Isso se traduz, no dia a dia corporativo ou social, em indivíduos que usam vermelho para “marcar território” e serem ouvidos com mais atenção em reuniões, projetando uma imagem de quem não teme o confronto.
E sobre a autoridade do preto?
Um estudo clássico da Universidade de Cornell, conduzido pelos psicólogos Frank e Gilovich, analisou a relação entre uniformes pretos e agressividade na NHL (liga de hóquei) e na NFL (futebol americano). A conclusão foi que o preto elimina a individualidade em prol de uma imagem de “bloco de força”, fazendo com que o usuário se sinta mais poderoso e menos inibido, enquanto os observadores tendem a vê-lo como uma figura de autoridade inquestionável (e, por vezes, “vilanesca”).

A cor define a liderança?
De forma simples, não. A dominância resulta de múltiplos fatores. A cor pode influenciar a percepção inicial e até dar um impulso de confiança momentâneo, mas não substitui a competência. O comportamento, a oratória e a inteligência emocional têm um impacto muito maior a longo prazo.
Uma pessoa vestida de amarelo pode ser a mais dominante da sala se tiver uma postura firme, enquanto alguém de vermelho pode ser ignorado se não tiver atitude.
Por que o tema interessa à ciência?
Entender como fatores visuais influenciam a hierarquia ajuda psicólogos e sociólogos a compreenderem os vieses inconscientes nas relações humanas. Esses estudos reforçam que somos criaturas visuais e que, muitas vezes, julgamos a capacidade de liderança de alguém baseados em instintos primitivos despertados por uma simples gravata vermelha ou um terno preto.









