Em muitas situações do cotidiano, surge a dúvida sobre a forma correta: “precisa-se” ou “precisam-se” de algo? A questão envolve concordância verbal e o uso do pronome “se” na língua portuguesa, especialmente em contextos formais, como anúncios de emprego, avisos profissionais, redações acadêmicas e provas de concurso, em que a obediência à norma-padrão é fundamental para evitar ambiguidade e manter a clareza do enunciado.
Como funciona a construção precisa-se de algo na norma-padrão
Quando se usa a construção “precisa-se de algo”, o verbo “precisar” está empregado como transitivo indireto, pois exige a preposição “de”. Nessa situação, o “se” é índice de indeterminação do sujeito, o que obriga o verbo a permanecer na 3ª pessoa do singular, ainda que o complemento esteja no plural.
Frases como “precisa-se de funcionários” ou “precisa-se de voluntários” são, portanto, as formas adequadas na língua culta. O termo que vem depois da preposição “de” é objeto indireto, não sujeito; por isso, não há concordância no plural. A forma “precisam-se de funcionários” conflita com essa regra e é rejeitada pela gramática normativa em contextos formais.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo do professor Pablo Jamilk (@pablojamilk):
@pablojamilk Precisam-se ou precisa-se? #dicasdeportuguês #português #pablojamilk #Enem ♬ som original – Pablo Jamilk
Quando o se atua como índice de indeterminação do sujeito
O chamado índice de indeterminação do sujeito aparece quando o falante não quer ou não pode indicar quem pratica a ação. Ele ocorre com verbos na 3ª pessoa do singular ligados ao pronome “se”, em três grupos principais: verbos intransitivos, verbos de ligação e verbos transitivos indiretos, como é o caso de “precisar de”.
Alguns exemplos ajudam a visualizar esse uso e a reconhecer a função do “se” no enunciado:
- Vive-se bem nesta cidade. (verbo intransitivo)
- É-se muito cobrado no mercado de trabalho. (verbo de ligação)
- Gosta-se de música nesta casa. (verbo transitivo indireto)
- Precisa-se de profissionais qualificados. (verbo transitivo indireto)
Quando usar precisa-se ou precisam-se na prática
A confusão aumenta porque o pronome “se” também pode funcionar como partícula apassivadora, formando a voz passiva sintética. Nesses casos, o verbo passa a concordar com o sujeito paciente, muitas vezes no plural, o que gera o impulso de escrever “precisam-se” por analogia com outros verbos.
Contudo, isso só ocorre quando o verbo é transitivo direto ou transitivo direto e indireto, isto é, quando não há preposição antes do termo que sofre a ação. Compare atentamente os exemplos e repare na presença ou ausência de preposição:
Como distinguir o se apassivador do índice de indeterminação
Na construção de voz passiva sintética, o pronome “se” é partícula apassivadora, e o substantivo que o segue é sujeito paciente, exigindo a concordância verbal. Já na construção com verbo transitivo indireto, o termo regido por preposição é complemento, e o sujeito permanece indeterminado.
- Vende-se casas. (forma inadequada; o verbo “vender” é transitivo direto.)
- Vendem-se casas. (voz passiva sintética: “Casas são vendidas”.)
- Precisa-se de funcionários. (verbo transitivo indireto: índice de indeterminação do sujeito.)

Passo a passo prático para escolher entre precisa-se e precisam-se
Para aplicar essa regra em situações reais de escrita, especialmente em textos profissionais e materiais institucionais, é útil seguir um pequeno roteiro de verificação sempre que surgir a dúvida. Assim, você fixa o uso correto e evita misturar estruturas diferentes.
- Identificar o verbo principal: ver se ele exige preposição (“de”, “em”, “a”) para ligar-se ao complemento.
- Verificar a presença dessa preposição: se houver preposição antes do termo seguinte, tende a ser verbo transitivo indireto.
- Observar a função do “se”: em verbos intransitivos, de ligação ou transitivos indiretos, o “se” costuma ser índice de indeterminação do sujeito.
- Aplicar a concordância: se o “se” for índice de indeterminação, manter o verbo na 3ª pessoa do singular, mesmo com complemento no plural.
- Reescrever mentalmente a frase: ao trocar “precisa-se de funcionários” por “alguém precisa de funcionários”, confirma-se a ideia de sujeito indeterminado.









