A relação entre a condição dos dentes e a expectativa de vida tem ganhado espaço em pesquisas científicas recentes. Em vez de olhar apenas para o número de dentes que faltam, estudos passam a avaliar também o estado dos dentes preservados, como cáries, restaurações e saúde geral da boca, reforçando a ideia de que a saúde bucal está diretamente conectada à saúde do resto do corpo e pode refletir o risco de doenças crônicas e de mortalidade precoce.
Como a saúde bucal se relaciona com a mortalidade
A saúde bucal, entendida como o conjunto de condições dos dentes, gengivas, língua e demais estruturas da boca. Estudos observacionais mostram que pessoas com mais dentes saudáveis ou restaurados têm menores índices de mortalidade por todas as causas, destacando a quantidade de dentes em bom estado de funcionamento como um importante indicador.
A explicação mais adotada é que problemas crônicos na boca, como inflamações de gengiva e cáries profundas, podem gerar um estado de inflamação contínua no organismo. Esse processo inflamatório crônico está associado a doenças cardiovasculares, diabetes descompensado e outras condições que afetam diretamente a sobrevida, tornando a má condição dos dentes um sinal de alerta para riscos mais amplos. A pesquisa foi publicada na BMC Saúde Bucal.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo da dentista Geovanna Perucio (@geperucio.odonto):
@geperucio.odonto Complicações bucais podem levar a óbito! #odontologia #odonto #estudantedeodonto #dentista #carie ♬ som original – Geovanna Perucio 🦷
A saúde bucal influencia a expectativa de vida em idosos
Pesquisas recentes com idosos no Japão, envolvendo mais de 190 mil pessoas com 75 anos ou mais, reforçam essa hipótese de ligação entre boca e longevidade. Em vez de considerar apenas a quantidade de dentes presentes, os pesquisadores classificaram cada dente em categorias como íntegro, restaurado, cariado ou ausente, cruzando esses dados com registros de mortalidade ao longo dos anos.
Os resultados mostraram que o total de dentes saudáveis e restaurados juntos foi o melhor indicador para estimar risco de morte por qualquer causa. Dentes restaurados, quando bem tratados, tiveram efeito semelhante aos dentes íntegros, sugerindo que procurar tratamento odontológico e manter restaurações em boas condições impacta não só a mastigação e a estética, mas também a saúde de longo prazo.
O que é oral frailty e por que ela revela fragilidade geral
Além da quantidade e do estado dos dentes, ganha força o conceito de oral frailty, ou fragilidade oral, que abrange perdas dentárias e também dificuldades para mastigar, engolir, falar e sensação de boca seca frequente. Estudos com idosos mostram que, quando três ou mais desses problemas aparecem ao mesmo tempo, aumenta a probabilidade de necessidade de cuidados de longo prazo e também o risco de morte ao longo dos anos.
A fragilidade oral é vista como reflexo da fragilidade global do organismo. Dificuldade para mastigar pode levar a dietas pobres em fibras, proteínas e nutrientes essenciais, enquanto problemas para engolir podem reduzir a ingestão de líquidos e alimentos. Esses fatores, combinados, favorecem perda de massa muscular, quedas, piora da imunidade e agravamento de doenças crônicas já existentes.
Por que dentes perdidos e cariados funcionam como sinal de alerta
Dentes ausentes, principalmente em grande número, costumam estar associados a importantes obstáculos na alimentação diária. Pessoas com poucos dentes funcionais tendem a evitar alimentos mais duros, como frutas cruas, carnes fibrosas e verduras cruas, optando por preparações mais macias e, muitas vezes, menos nutritivas, o que compromete a qualidade da dieta e, com o tempo, afeta a saúde cardiovascular, óssea e metabólica.
Já os dentes cariados podem representar focos constantes de inflamação e infecção. Bactérias presentes nas lesões de cárie e nas gengivas inflamadas podem alcançar a corrente sanguínea, contribuindo para processos inflamatórios em outros órgãos. A ciência ainda investiga todos os mecanismos envolvidos, mas a ligação entre infecções bucais crônicas, doenças sistêmicas e aumento de mortalidade já é amplamente considerada em saúde pública.

Quais cuidados com a saúde bucal realmente fazem diferença
Especialistas em odontologia preventiva destacam um conjunto de medidas simples que, mantidas ao longo do tempo, reduzem a chance de perda dentária precoce e de cáries extensas. Essas ações também contribuem para controlar fatores de risco sistêmicos, como inflamação crônica e piora do controle glicêmico, especialmente em idosos com outras comorbidades.
- Higiene diária: escovação correta ao menos duas vezes ao dia e uso de fio dental ou outros dispositivos de limpeza interdental.
- Acompanhamento profissional: consultas periódicas para identificar cáries iniciais, problemas na gengiva e necessidade de troca de restaurações.
- Alimentação equilibrada: redução do consumo frequente de açúcares simples e preferência por alimentos ricos em fibras, proteínas e vitaminas.
- Uso de próteses bem ajustadas: em casos de perda dentária, próteses ou implantes em boas condições ajudam a preservar a mastigação eficiente.
Em muitos casos, o cuidado com os dentes passa por etapas que podem ser resumidas em um pequeno roteiro de atenção contínua. Seguir esse ciclo ao longo da vida favorece a manutenção de dentes funcionais, reduz episódios de dor e infecção e contribui para um envelhecimento mais saudável.
- Identificar sinais iniciais, como sangramento gengival, dor ao mastigar ou sensibilidade.
- Buscar avaliação odontológica assim que os primeiros sintomas surgirem.
- Realizar os tratamentos indicados, como restaurações, limpezas profissionais ou ajustes em próteses.
- Manter a rotina de higiene e acompanhamento, evitando que problemas retornem ou se agravem.
Por que a saúde bucal é parte essencial do envelhecimento saudável
Os estudos mais recentes sobre saúde bucal e expectativa de vida sugerem que a boca pode funcionar como um espelho da saúde geral, especialmente na velhice. O número de dentes presentes, a presença de cáries, a qualidade das restaurações e a capacidade de mastigar e engolir sem dificuldade ajudam a compor um quadro mais amplo sobre o estado geral de saúde e o risco de declínio funcional.
Embora ainda sejam necessários novos estudos para esclarecer todos os mecanismos envolvidos, cresce a tendência de considerar a odontologia parte essencial da medicina preventiva. Cuidar dos dentes, realizar tratamentos restauradores quando necessário e acompanhar sinais de fragilidade oral aparecem como estratégias importantes para promover um envelhecimento com mais autonomia, melhor qualidade de vida e menor risco de morte precoce.









