A expressão anti-inteligência pode soar ofensiva à primeira vista, mas, no contexto atual, descreve um fenômeno específico ligado à forma como o conhecimento é produzido e apresentado por sistemas de inteligência artificial. Trata-se de um tipo de saber que parece completo, organizado e convincente, mas que não nasce de um processo de compreensão interna; é um desempenho de conhecimento, não necessariamente um exercício de entendimento, o que cria um novo clima cognitivo em nossa relação com o saber. O artigo foi publicado por João Costa, na revista Pshycology Today.
O que é anti-inteligência no contexto dos sistemas de IA
Ao contrário do que ocorre com o pensamento humano, que depende de memória, contexto, tentativas e erros, a anti-inteligência opera por meio de padrões linguísticos e cálculos estatísticos. Grandes modelos de linguagem combinam probabilidades de palavras, estruturas de frases e exemplos anteriores para gerar respostas que parecem significativas, mas sem experiência própria ou intencionalidade.
Por trás desse fluxo coerente, não há vivência, corpo ou história, apenas correlações matemáticas entre textos. Isso cria um ambiente em que a aparência de saber pode se dissociar do processo de construção de sentido, alimentando um tipo de conhecimento que é mais performático do que experiencial.
Como a anti-inteligência se manifesta hoje no cotidiano digital
A anti-inteligência pode ser entendida como a produção de respostas consistentes sem a presença de compreensão genuína: em vez de pensar, o sistema imita o ato de pensar. Essa dinâmica aparece em respostas detalhadas sobre temas complexos que, apesar de bem escritas, podem conter lacunas, ambiguidades ou simplificações excessivas, especialmente quando o usuário não possui repertório para avaliá-las criticamente.
No cotidiano digital, esse tipo de “conhecimento performático” surge em tarefas que automatizam a forma do saber, mas não necessariamente seu sentido profundo, como por exemplo:
- Resumos automáticos de textos extensos, que organizam informações sem decidir o que é relevante para cada contexto específico.
- Respostas instantâneas a perguntas difíceis, que soam seguras mesmo quando os dados subjacentes são incompletos ou desatualizados.
- Textos gerados em massa, que repetem estruturas e argumentos sem acrescentar novos enquadramentos conceituais ou insights originais.
Como a anti-inteligência afeta o desenvolvimento cognitivo infantil
Nos modelos clássicos de desenvolvimento, como os de Piaget e Vygotsky, as crianças aprendem ao lidar com limites, falta de informação e necessidade de tentativa e erro. O caminho até a resposta importa tanto quanto a resposta em si, pois é nessa trajetória que surgem habilidades como tolerar a dúvida, sustentar perguntas e revisar hipóteses diante de novos dados.
Com a presença constante da anti-inteligência, esse percurso tende a ser encurtado, e a experiência de “não saber” prolongado pode ser substituída por acesso rápido a explicações prontas. Em vez de viver longos períodos em estado de incerteza produtiva, muitas crianças podem conviver com a ideia de que a solução correta está sempre a poucos cliques de distância, o que desloca o esforço do descobrir para o consultar.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo do Doutor em Neurociência Eslen Delanogare, publicado em seu perfil @eslen.delanogare que conta com mais de 660 mil seguidores nas redes:
@eslen.delanogare "A geração que vem agora é mais burra…" #saudemental #neurociencia #saudemental #eslendelanogare ♬ original sound – Eslen Delanogare
Quais possíveis impactos cognitivos a anti-inteligência pode gerar em crianças
Entre os possíveis efeitos desse cenário, não se trata apenas de perda de habilidades, mas de uma mudança nas pressões ambientais que moldam o pensamento desde cedo. A anti-inteligência passa a funcionar como parte do ecossistema cognitivo, ao lado de livros, telas e redes sociais, influenciando o que se valoriza como esforço intelectual.
- Redução da experiência de “não saber” prolongado, que antes fazia parte do cotidiano escolar e doméstico e estimulava a curiosidade investigativa.
- Maior confiança em respostas formatadas, ainda que não haja clareza sobre como foram produzidas ou quais são seus limites de validade.
- Deslocamento do foco cognitivo do processo de descoberta para o processo de seleção e avaliação de respostas geradas por sistemas.
A anti-inteligência pode favorecer novos tipos de inteligência
Um ponto central nos debates atuais é se a anti-inteligência apenas enfraquece certas habilidades cognitivas ou se favorece o surgimento de outras, ainda pouco descritas. Crianças e adolescentes que crescem em contato intenso com respostas automatizadas podem desenvolver competências diferentes daquelas valorizadas por gerações anteriores, sobretudo na gestão de grandes volumes de informação.
Entre as possíveis adaptações, discutem-se habilidades como alternar rapidamente entre fontes humanas e sintéticas, lidar com conteúdos contraditórios sem colapsar em uma única versão e entender o conhecimento como algo provisório, sujeito a atualização constante. Essa possível “inteligência em outro eixo” pode privilegiar conexões rápidas, sínteses sucessivas e reconfigurações permanentes de informação.
Como avaliar o aprendizado em um cenário marcado pela anti-inteligência
Sistemas tradicionais de avaliação escolar foram construídos para identificar memorização, retenção de fatos e domínio de procedimentos ensinados em sala de aula. Nesse modelo, espera-se que o estudante demonstre o que sabe sem apoio imediato de fontes externas, o que se choca com um cotidiano em que a consulta a sistemas de IA é constante e banalizada.
Um estudante capaz de combinar diferentes respostas geradas por IA, comparar versões de um assunto, detectar inconsistências e reorganizar informações de forma coerente pode não se destacar em provas focadas em lembrança literal. Ao mesmo tempo, um desempenho impecável em testes padronizados não garante que a pessoa saiba verificar a confiabilidade de um texto automatizado ou reconhecer vieses presentes em saídas algorítmicas.

Que questões educacionais emergem com a expansão da anti-inteligência
Diante desse novo contexto, escolas e famílias precisam redefinir o que consideram um bom desempenho cognitivo, ampliando critérios para além da memorização. Torna-se crucial desenhar tarefas que exponham a diferença entre repetir bem e compreender de fato, incentivando habilidades de análise, crítica e recontextualização do que é gerado por máquinas.
- Como distinguir uma repetição bem estruturada de um gesto de compreensão efetiva e autônoma?
- Que tipos de tarefas revelam a capacidade de analisar, questionar e recontextualizar respostas prontas?
- De que forma a escola pode ensinar a usar a anti-inteligência como apoio, sem que ela substitua o esforço cognitivo necessário para construir sentido?
Para onde aponta o futuro da anti-inteligência na formação das novas gerações
A geração que está em fase de formação hoje tende a indicar como a anti-inteligência influenciará o que se entende por cognição humana nas próximas décadas. Assim como os livros impressos e a escola pública reconfiguraram o modo de aprender no passado, o contato contínuo com sistemas automatizados de linguagem pode redefinir o que é visto como saber, entender e pensar bem.
Permanecem abertas incertezas sobre até que ponto habilidades como atenção prolongada, foco profundo e paciência diante do desconhecido serão preservadas, transformadas ou substituídas por outras. A forma como famílias, escolas e sociedades lidarem com esse fenômeno influenciará o tipo de mente que se tornará comum, inclusive na capacidade de usar a anti-inteligência de modo crítico, ético e criativo.










