Em situações de sofrimento emocional, muitas pessoas recorrem a frases prontas na tentativa de confortar quem passa por um momento difícil. Entre essas expressões, “sei como se sente” costuma ser uma das mais utilizadas, mas em muitos contextos essa tentativa de consolo acaba produzindo o efeito contrário, gerando distanciamento, irritação e sensação de incompreensão, justamente quando a pessoa mais precisa se sentir ouvida e acolhida.
Por que a frase “sei como se sente” costuma falhar na prática
A expressão “sei como se sente” parte da ideia de que experiências semelhantes geram sentimentos equivalentes. Porém, estudos em psicologia mostram que duas pessoas podem passar pela mesma situação e reagir de maneiras completamente diferentes, o que torna arriscado afirmar que se compreende exatamente o que o outro sente.
Fatores como história de vida, personalidade, valores, suporte social e momento de vida influenciam diretamente a forma como cada um interpreta um acontecimento. Assim, ao dizer que entende totalmente a dor alheia, o interlocutor pode minimizar o sofrimento e soar comparativo, quando muitas vezes a pessoa que sofre precisa apenas de escuta atenta ou de um silêncio respeitoso.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo da psicóloga Marcela Fernandes, publicado em seu perfil @marcelaf.psi que conta com mais de mil seguidores nas redes sociais:
@marcelaf.psi o que muda o sentir é o experienciar ✨
♬ som original – Marcela Fernandes | Psicóloga
O que realmente significa empatia ao tentar entender o outro
Ao longo desse debate, o ponto central está na capacidade de compreender o que o outro está vivendo a partir da perspectiva dele, e não da própria. Diferentemente de assumir que se sente o mesmo, essa postura envolve menos a busca por experiências semelhantes e mais a demonstração de presença, interesse genuíno e respeito pela dor expressa.
Pesquisas indicam que essa habilidade tem base biológica, associada a mecanismos cerebrais que permitem reconhecer e espelhar emoções. Ainda assim, esse potencial não garante automaticamente atitudes cuidadosas: traços de personalidade, contexto social e o estado emocional de quem escuta podem favorecer ou dificultar a disposição de se colocar no lugar do outro de forma responsável.
- Empatia cognitiva: esforço para compreender o que o outro pensa e como interpreta a situação.
- Empatia emocional: capacidade de perceber, ressoar e se sensibilizar com o que o outro sente.
- Compaixão: além de entender, implica disposição para oferecer apoio adequado e respeitoso.
Quando alguém responde com “sei como se sente”, geralmente se apoia mais na própria história do que na escuta ativa. Em vez de perguntar, supõe; em vez de explorar o que o outro está sentindo, preenche as lacunas com a própria experiência, o que pode enfraquecer a conexão emocional.
Quais fatores atrapalham a empatia em situações de dor
A dificuldade de demonstrar empatia de forma eficaz pode ter várias origens. Um aspecto apontado por especialistas é o narcisismo, entendido aqui como a tendência a colocar as próprias necessidades e vivências no centro das interações, o que leva a puxar a conversa para si mesmo, mesmo quando o outro está em destaque por um motivo delicado.
Outro elemento que interfere é o momento de vida de quem oferece apoio. Quando alguém está passando por uma fase positiva, pode ter mais dificuldade em conectar-se emocionalmente com quem enfrenta problemas graves, interpretando a situação a partir do próprio bem-estar e, muitas vezes, subestimando a intensidade da dor relatada.
- Pessoa em sofrimento expõe a dificuldade com expectativa de acolhimento.
- Interlocutor lembra de uma experiência própria semelhante.
- A conversa muda de foco para a história do interlocutor.
- A pessoa em sofrimento sente-se pouco ou nada ouvida.
Curiosamente, pesquisas apontam que, em muitos casos, quem nunca passou por determinada situação consegue imaginar melhor o que o outro sente, justamente por não ficar preso à própria memória. Em vez de comparar, essa pessoa tende a perguntar mais, ouvir mais e supor menos, favorecendo uma empatia mais genuína.

Frases como “se eu consegui, você também consegue” realmente ajudam
Outra expressão comum em momentos de crise é “se eu consegui, você também consegue”. À primeira vista, essa mensagem pode parecer encorajadora, mas dependendo do contexto pode ser interpretada como cobrança ou julgamento implícito, sugerindo que a pessoa em sofrimento não está se esforçando o suficiente ou reagindo “como deveria”.
Após superar uma fase difícil, muitas pessoas passam a valorizar a própria responsabilidade na forma de enfrentar os problemas. Essa percepção de agência é importante, mas pode reduzir a paciência com quem ainda está imerso na dor, alimentando comparações internas como “por que o outro não reage como eu reagi?” e enfraquecendo a empatia real.
- Mensagens centradas no “eu” podem soar competitivas ou autocelebratórias.
- Comparações diretas reduzem a complexidade da experiência alheia.
- Generalizações ignoram diferenças de contexto e recursos emocionais.
Como demonstrar empatia sem recorrer ao “sei como se sente”
Em vez de recorrer a frases automáticas, especialistas em saúde mental sugerem atitudes simples que favorecem uma empatia mais autêntica. O foco deixa de ser provar que se entende a dor do outro e passa a ser mostrar disponibilidade real para acompanhar aquele momento, validando a experiência sem tentar corrigi-la.
Algumas alternativas práticas incluem substituir afirmações de certeza por expressões de curiosidade e acolhimento, e ajustar o apoio ao que a pessoa realmente precisa, e não ao que o interlocutor imagina que seria melhor.
- Usar frases que reconheçam a dificuldade, como “isso parece muito doloroso”.
- Fazer perguntas abertas, por exemplo, “quer contar um pouco mais sobre o que aconteceu?”.
- Evitar tirar o foco da pessoa para falar longamente sobre si mesmo.
- Oferecer ajuda concreta, quando apropriado e desejado.
- Respeitar o silêncio, sem pressionar para que a pessoa reaja de determinada forma.
Diante disso, a empatia não depende de ter vivido exatamente a mesma situação, mas da capacidade de escutar sem pressa, acolher sem julgar e aceitar que cada pessoa sente e reage à própria dor de maneira única. Em muitos casos, um simples “estou aqui” vale mais do que qualquer tentativa de dizer que se sente o mesmo.








