É provável que você já tenha perdido o sono por uma reunião que ainda não aconteceu, por uma resposta de mensagem que demorou a chegar ou por um cenário catastrófico financeiro que nunca se concretizou. Há cerca de 2.000 anos, o filósofo estoico Lúcio Aneu Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.) diagnosticou essa falha humana em uma de suas cartas ao amigo Lucílio: “Sofremos mais na imaginação do que na realidade”.
Embora Sêneca não tivesse acesso a exames de ressonância magnética, ele entendeu intuitivamente o que a psicologia moderna hoje comprova: o ser humano tem um talento biológico para o “pré-sofrimento”. A frase não é apenas um conselho poético, mas um alerta sobre como nossa mente funciona como um simulador de desastres — e como isso nos adoece.
O cérebro: uma máquina de criar monstros
Para a biologia, a ansiedade tem uma função: sobrevivência. Seu cérebro evoluiu para detectar leões na savana, não para lidar com e-mails passivo-agressivos. Quando imaginamos o pior, o corpo libera cortisol e adrenalina, preparando-se para uma luta que, na maioria das vezes, só existe na nossa cabeça.
A ciência valida a tese de Sêneca de forma surpreendente. Um estudo realizado pela Universidade Estadual da Pensilvânia acompanhou pessoas com transtorno de ansiedade generalizada e pediu que anotassem suas preocupações diárias. O resultado foi chocante: segundo a pesquisa publicada no jornal Behavior Therapy, 91,4% das coisas que os participantes temiam jamais aconteceram. E, nas raras vezes em que o problema ocorreu, os participantes lidaram com a situação muito melhor do que haviam imaginado.
Ou seja: sofremos dobrado. Primeiro, na imaginação (com intensidade máxima e sem ferramentas para agir), e raramente na realidade (onde temos recursos para resolver).
A incerteza dói mais que a dor
Sêneca dizia que “existem mais coisas que nos assustam do que coisas que nos ferem”. A neurociência descobriu que o cérebro humano odeia a incerteza mais do que a própria dor física.
Quando você não sabe o que vai acontecer, seu sistema límbico entra em hiperatividade, criando narrativas para preencher o vazio. Um estudo da University College London (UCL), publicado na Nature Communications, revelou que saber que há uma pequena chance de receber um choque elétrico causa mais estresse físico (medido por dilatação da pupila e suor) do que ter a certeza de que vai levar o choque. A imaginação da dor, alimentada pela dúvida, é mais torturante que a experiência real do evento.
Como aplicar a regra de Sêneca hoje?
O estoicismo não prega a supressão das emoções, mas o gerenciamento da percepção. Se sofremos na imaginação, a cura está em trazer a mente de volta para a realidade concreta.
Para Sêneca, a chave é diferenciar o presente do futuro. Ele escreveu: “O que aconselho é que não sejas infeliz antes da crise”. Na prática moderna, isso pode ser traduzido em exercícios de ancoragem:
- Teste de Realidade: Quando a ansiedade bater, pergunte-se: “Isso está acontecendo agora ou estou assistindo a um filme de terror mental?”.
- Defina o Pior Cenário: Em vez de fugir do medo, olhe para ele. Se o pior acontecer, o que você faria? Geralmente, a resposta é menos aterrorizante do que o medo vago.
- Ação sobre Imaginação: A ansiedade vive na passividade. Ao tomar uma pequena ação prática, você sai do campo imaginário e entra no mundo real, onde os “monstros” costumam desaparecer.








