A fonética da língua portuguesa no Brasil apresenta fenômenos curiosos onde sons vocálicos surgem espontaneamente durante a fala cotidiana. Esse processo, conhecido como epêntese, ocorre principalmente para facilitar a articulação de encontros consonantais complexos que não são naturais ao ritmo do idioma. Entender essas variações ajuda a compreender a evolução da fala brasileira e sua identidade fonológica única hoje.
O que é o fenômeno da epêntese vocálica?
A epêntese vocálica consiste na inserção de um som extra, geralmente a vogal “i”, no interior de palavras com consoantes mudas. Esse mecanismo biológico ocorre porque o sistema fonológico brasileiro prefere a estrutura de sílabas abertas, compostas por consoante e vogal. Assim, o cérebro adiciona um apoio sonoro para facilitar a pronúncia rápida e fluida hoje.
Esse som adicional não possui representação gráfica na norma culta, mas é amplamente aceito na comunicação oral de todas as classes sociais. O surgimento dessa vogal fantasma demonstra como a fala humana adapta a gramática rígida às necessidades da musculatura vocal. É uma transformação natural que reflete a busca constante por um ritmo linguístico mais melódico e acessível.

Quais são os exemplos mais comuns no dia a dia?
No cotidiano, palavras que possuem encontros de consoantes oclusivas costumam ganhar esse som de apoio quase que instantaneamente. O falante brasileiro raramente percebe que está modificando a estrutura ortográfica original ao articular esses termos em conversas informais ou profissionais. Essa característica fonética é uma das marcas registradas do nosso português, diferenciando-nos significativamente da pronúncia europeia tradicional agora.
Confira abaixo a lista com alguns dos exemplos mais frequentes onde a vogal “i” aparece sorrateiramente durante a fala dos brasileiros. Observe como a articulação se torna muito mais suave e natural quando esse pequeno apoio sonoro é adicionado entre as consoantes mudas originais presentes nestes vocábulos específicos que utilizamos constantemente em diversas situações comunicativas reais agora:
- Advogado (pronunciado como adivogado).
- Pneu (pronunciado como pineu).
- Objeto (pronunciado como obijeto).
- Absurdo (pronunciado como abisurdo).
Existem palavras de origem estrangeira que sofrem esse efeito?
Palavras importadas de outros idiomas, especialmente do inglês, costumam sofrer modificações fonéticas profundas para se adaptarem ao sistema brasileiro de fala. Termos que terminam em consoantes secas recebem quase obrigatoriamente uma vogal final para que a pronúncia seja possível dentro do nosso padrão. Esse processo de aportuguesamento sonoro é constante, veloz e muito natural para todos.
Confira abaixo a lista com alguns estrangeirismos que ganharam um som de apoio extra para se tornarem pronunciáveis dentro da nossa realidade fonética. Note como a inclusão dessa vogal muda completamente a percepção do termo original, tornando-o parte integrante do vocabulário cotidiano de milhões de brasileiros que utilizam essas palavras tecnológicas ou culturais com muita frequência agora:
- Facebook (pronunciado como Facebooki).
- WhatsApp (pronunciado como Whatsapi).
- Hot dog (pronunciado como Hotidogui).
- Laptop (pronunciado como Laptopi).
Por que o brasileiro evita consoantes mudas?
A preferência pela sílaba aberta é uma herança das línguas românicas que se intensificou no território brasileiro ao longo dos séculos passados. Consoantes que terminam sílabas de forma abrupta geram um esforço muscular maior, o que vai contra a tendência de economia de energia na fala. Por isso, o sistema articulatório insere a vogal para suavizar a transição.
Esse ajuste fonético garante que cada consoante tenha o seu próprio núcleo vocálico, permitindo que a voz flua sem interrupções bruscas ou difíceis. Ao adicionar o som extra, o falante cria um ritmo mais cadenciado e previsível, típico da musicalidade presente no português do Brasil. É uma adaptação inteligente que facilita a compreensão mútua entre os diversos interlocutores.
Como a regionalidade influencia esse acréscimo sonoro?
Embora a epêntese seja um fenômeno nacional, a intensidade da pronúncia desse som extra pode variar drasticamente entre as regiões brasileiras. Em alguns estados, a inserção da vogal “i” é quase imperceptível, enquanto em outros ela se torna uma sílaba completa e bem definida. Essa variação geográfica enriquece a diversidade de sotaques que ouvimos em todo o país.
Pesquisadores observam que essa tendência é mais forte em áreas onde o dialeto local possui uma cadência mais lenta e aberta. Independentemente da região, o acréscimo da letra invisível cumpre o papel de democratizar a pronúncia de termos técnicos ou acadêmicos. O sotaque atua como um filtro cultural que molda a língua conforme a realidade de cada comunidade.
No vídeo abaixo do TikTok Alexandredomingues, que conta com mais de 365 mil seguidores, ele dá o exemplo da palavra “muito”:
@alexandredomingues Pronúncia da palavra MUITO ✅ #dicas #professor #português #aprendanotiktok ♬ som original – Alexandre Domingues
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Qual é a visão dos gramáticos sobre esse fenômeno?
A maioria dos linguistas contemporâneos encara a epêntese como uma evolução natural da língua viva, e não como um erro gramatical. Eles defendem que a fala possui regras próprias que nem sempre correspondem à escrita ortográfica rígida definida pelos dicionários. Compreender essa distinção é fundamental para uma análise científica séria sobre como os brasileiros realmente se comunicam hoje.
É importante notar que a inserção desse som extra não deve ser penalizada em contextos orais informais ou acadêmicos modernos. De acordo com este artigo da Revista Investigações da UFPE, a variação fonética é um processo inerente ao desenvolvimento das línguas românicas. Respeitar essa característica é valorizar a identidade linguística e a riqueza cultural do povo brasileiro em plenitude total.










