Águas termais fascinam civilizações há milênios, mas poucos conhecem os processos geológicos que explicam por que essas fontes emergem naturalmente aquecidas e ricas em minerais. O fenômeno está diretamente ligado ao gradiente geotérmico, à composição das rochas subterrâneas e à infiltração de águas pluviais em camadas profundas da crosta terrestre. Compreender a ciência por trás das águas termais é essencial para valorizar seus efeitos terapêuticos, reconhecidos tanto pela tradição quanto por estudos observacionais recentes.
Como a geologia explica a formação das águas termais?
A ciência das águas termais começa no subsolo. A água da chuva se infiltra por fissuras e fraturas nas rochas, percorrendo camadas cada vez mais profundas da crosta terrestre. À medida que desce, essa água é aquecida pelo calor interno do planeta, fenômeno conhecido como gradiente geotérmico, que eleva a temperatura em aproximadamente 3 °C a cada 100 metros de profundidade.
Ao atingir grandes profundidades, muitas vezes superiores a 1.000 metros, a pressão força a água de volta à superfície. Nesse trajeto ascendente, ela dissolve sais minerais das rochas, como cálcio, ferro, zinco, selênio, potássio e magnésio. É esse processo de mineralização que confere às águas termais suas propriedades únicas e as diferencia da água comum.
Quais processos geotérmicos aquecem as fontes termais?
A história geológica de cada região determina o tipo de aquecimento das fontes termais. No Brasil, onde não existem vulcões ativos, todas as fontes são aquecidas exclusivamente por geotermia. Já em regiões vulcânicas, como a Islândia e o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, o contato com câmaras magmáticas eleva drasticamente a temperatura da água.
As fontes termais brasileiras são classificadas conforme temperatura e composição mineral. Os principais tipos incluem:
- Hipotermais, com temperaturas entre 20 °C e 30 °C.
- Mesotermais, com temperaturas entre 30 °C e 40 °C.
- Hipertermais, com temperaturas acima de 40 °C, como as encontradas em Caldas Novas (GO), que chegam a 57 °C.

Qual é a história do uso terapêutico das águas termais em regiões específicas?
O uso medicinal das águas termais remonta à Grécia Antiga, onde atletas olímpicos utilizavam banhos quentes para recuperação muscular. Os romanos aprofundaram essa tradição ao criar o conceito de Sanitas Per Acquam (saúde pela água), dividindo o ritual em três etapas: caldarium, tepidarium e frigidarium. Na Europa, Portugal abriga o hospital termal mais antigo do mundo ainda em funcionamento, fundado em 1485 pela Rainha D. Leonor, em Caldas da Rainha.
No Brasil, a história do termalismo começou oficialmente em 1818, quando Dom João VI ordenou a construção de um hospital termal em Caldas da Imperatriz, Santa Catarina. Hoje, cidades como Caldas Novas (GO), Poços de Caldas (MG), Gravatal (SC) e Águas de Lindóia (SP) são referências nacionais em turismo e terapia termal, com destinos que atraem milhões de visitantes por ano.
Quais benefícios das águas termais são respaldados pela ciência?
Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e reconhecidos pela Organização Mundial da Saúde reforçam os efeitos terapêuticos da balneoterapia. A composição mineral das águas termais e a ação do calor sobre o organismo proporcionam resultados relevantes em diversas condições. Entre os benefícios mais citados pela literatura científica estão:
- Alívio de dores musculares, articulares e reumáticas pela vasodilatação e relaxamento dos tecidos.
- Melhora da circulação sanguínea e redução da pressão arterial.
- Estímulo à renovação celular e hidratação profunda da pele.
- Efeitos positivos em quadros respiratórios como asma e bronquite, por meio da inalação de vapores minerais.
- Redução do estresse e da tensão emocional, favorecendo o bem-estar geral.
Por que a ciência da Terra é fundamental para preservar as águas termais?
A exploração sustentável das fontes termais depende diretamente do conhecimento geológico. Em Caldas Novas, por exemplo, estudos realizados por instituições como a UFSC e a Furnas Centrais Elétricas foram decisivos para compreender a dinâmica do aquífero termal e garantir que a extração não comprometa o recurso. O Parque Estadual da Serra de Caldas protege o planalto que alimenta os aquíferos geotérmicos da região.
A ciência por trás das águas termais conecta geologia, hidrologia e saúde de forma inseparável. Compreender o gradiente geotérmico, a dinâmica das estâncias termais e a composição mineral dessas fontes não é apenas um exercício acadêmico. É a base para preservar esse patrimônio natural e garantir que futuras gerações continuem a usufruir dos benefícios que civilizações inteiras já reconheciam há milhares de anos.










