A 175 km de Florianópolis, encravada no Vale do Rio Canoas entre araucárias e paredões de arenito, Urubici apelidada carinhosamente de “Suíça Catarinense” guarda números e histórias que desafiam qualquer expectativa sobre uma cidade de 11 mil habitantes na Serra Catarinense.
O frio mais intenso do Brasil veio de forma extraoficial
Em 29 de junho de 1996, o termômetro no cume do Morro da Igreja registrou −17,8°C. O número é impressionante, mas carrega uma ressalva: a medição foi extraoficial, feita no ponto mais alto habitado do sul do Brasil, a 1.822 metros de altitude, onde o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) não mantinha estação própria. Por isso, o recorde oficial segue em nome de Caçador, que registrou −14°C em 1952 por meio da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri).
Isso não diminui o que aconteceu em Urubici naquele junho. O vento cortante e o céu limpo criaram as condições para uma das noites mais geladas já documentadas em solo brasileiro. O morro, que funciona como base de monitoramento aéreo da Aeronáutica para Santa Catarina e Rio Grande do Sul, virou, involuntariamente, palco de um fenômeno climático sem precedentes no país.

Uma cachoeira que fabrica neve por conta própria
A Cachoeira da Neve não recebeu esse nome por acidente. Em noites de frio seco e intenso, quando a temperatura cai abaixo de zero, as gotículas da queda d’água de 85 metros congelam no ar antes de tocar o chão e pousam como flocos de neve. O fenômeno, raro em qualquer ponto do Brasil, acontece com regularidade nos invernos mais rigorosos da serra e transformou a cachoeira em um dos pontos mais curiosos do município.
Urubici integra o Caminho das Neves, rota que reúne nove municípios catarinenses onde a neve aparece com frequência anual. A Serra Catarinense é considerada o único trecho do Brasil onde o fenômeno ocorre todos os anos, mesmo que por poucos dias. Em invernos excepcionais, como o de 2013, a neve chegou a cobrir mais de 90 cidades do estado simultaneamente.
Urubici é um dos destinos mais frios e encantadores da Serra Catarinense, abrigando fenômenos naturais únicos como a Cascata da Neve. O vídeo é do canal Meu Nome é Maicon, que apresenta as trilhas e a estrutura do Sítio Arroio do Engenho, destacando a beleza das quedas d’água e dicas práticas para os visitantes:
O corte de rocha mais fundo do país tem nome de ave confundida
A Serra do Corvo Branco, na divisa entre Urubici e Grão-Pará, abriga o maior corte em rocha arenítica do Brasil: um paredão de 90 metros de profundidade por onde passa a rodovia SC-370. A formação geológica tem cerca de 160 milhões de anos e remonta ao período em que a América do Sul ainda estava unida à África no supercontinente Pangeia. O arenito que compõe a fenda é o mesmo que alimenta o Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios de água doce subterrânea do planeta.
O nome da serra nasceu de um engano. Os moradores antigos avistavam o Urubu-rei, ave de plumagem branca e detalhes coloridos, fazendo ninhos nos paredões, e o chamavam erroneamente de corvo. O apelido se fixou e batizou a serra. A via foi a primeira ligação oficial entre a Serra e o Litoral Catarinense, segundo a Secretaria de Infraestrutura e Mobilidade do Governo de Santa Catarina, e sua construção começou com picaretas e trabalho braçal antes mesmo dos anos 1950.

Quando ir e o que esperar do clima na serra?
Urubici tem personalidade climática distinta em cada estação. O inverno é a temporada de maior procura, mas a cidade recompensa quem visita o ano inteiro com cenários radicalmente diferentes. A chuva é bem distribuída e as temperaturas raramente ultrapassam 27°C no verão.

Temperaturas aproximadas com base na climatologia de 30 anos disponível no Climatempo. Condições podem variar conforme altitude.

Quatro fatos que poucas pessoas sabem sobre a Terra das Hortaliças
Urubici carrega dois apelidos que, à primeira vista, parecem difícil de conciliar: Sibéria Brasileira e Terra das Hortaliças. O frio intenso do inverno não impede que o município seja o maior produtor de hortifrutigranjeiros de Santa Catarina, conforme a Prefeitura de Urubici. Por trás dessa contradição há outras histórias que poucos visitantes conhecem:
- Inscrições com 4.000 anos a 5 km do centro: no Morro do Avencal, gravuras deixadas por povos antigos compõem o Painel das Máscaras, com a Máscara do Guardião, um dos mais importantes registros arqueológicos de Santa Catarina, segundo o Portal de Turismo de Urubici.
- Araucárias que produzem maçã Gala: o frio extremo do inverno e o solo fértil do Vale do Rio Canoas colocam Urubici entre os cinco maiores produtores de maçã de Santa Catarina, ao lado de São Joaquim e Fraiburgo.
- Uma cachoeira de 218 metros quase secreta: a Cachoeira Rio dos Bugres, a 28 km do centro, despenca 218 metros em queda-livre sobre um paredão de arenito, sendo uma das mais altas de SC, mas ainda pouco conhecida fora dos roteiros de aventura.
- O nome da cidade tem origem disputada: segundo a Prefeitura, “Urubici” pode derivar do tupi urubuysy, “fileira de urubus”, ou do kaingang, significando “mãe das águas frias”. Nenhuma etimologia foi definitivamente estabelecida.
Urubici vale a visita em qualquer estação do ano
Poucas cidades brasileiras conseguem ser surpreendentes o ano inteiro. A Terra das Hortaliças entrega neve no inverno, cachoeiras vibrantes no verão, formações geológicas de 160 milhões de anos e arte rupestre de 4.000 anos espalhadas pelo mesmo município de 11 mil habitantes.
Suba a Serra Catarinense e conheça Urubici: a cidade que é fria o suficiente para fabricar neve em cachoeira e fértil o suficiente para abastecer metade do estado de hortaliças.










