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Início Cidades

No Japão, bairros considerados “simples” oferecem segurança e organização que muitas metrópoles ainda buscam

Por Maura Pereira
12/03/2026
Em Cidades, Turismo
No Japão, bairros considerados “simples” oferecem segurança e organização que muitas metrópoles ainda buscam

Quem caminha por Kamagasaki encontra pavimento conservado, sinalização urbana e máquinas de venda automática em cada esquina. / Imagem ilustrativa

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Kamagasaki, no sul de Osaka, carrega o rótulo de maior favela do Japão. Mesmo sendo um bairro pobre, habitado em sua maior parte pela classe trabalhadora, oferece infraestrutura que muitas metrópoles pelo mundo ainda não alcançaram: ruas asfaltadas, iluminação pública plena, metrô integrado e coleta de lixo regular. O cenário desafia qualquer comparação com o que se entende por “bairro vulnerável” em boa parte do planeta.

O que é Kamagasaki e por que o Japão tenta escondê-lo?

Kamagasaki, oficialmente chamada de Airin-chiku, fica no distrito de Nishinari, em Osaka. A região concentra a maior população de trabalhadores diaristas do país, com cerca de 30 mil habitantes estimados em um raio de 2 km. O governo municipal de Osaka não permite que o nome apareça em mapas oficiais, segundo a Wikipedia.

O bairro surgiu no pós-guerra como ponto de recrutamento de mão de obra braçal para a reconstrução do Japão. Na década de 1960, cerca de 40 mil diaristas se concentravam ali. Com o estouro da bolha econômica nos anos 1990, o trabalho secou e o perfil do bairro mudou: hoje a maioria dos moradores é de homens idosos, muitos dependentes de auxílio governamental.

No Japão, bairros considerados “simples” oferecem segurança e organização que muitas metrópoles ainda buscam
Kamagasaki é um espaço urbano singular, com desafios evidentes, mas também com estrutura, circulação e uma dinâmica própria que segue viva todos os dias. / Créditos: Wikimedia Commons

Ruas asfaltadas e transporte integrado em plena “favela”

Quem caminha por Kamagasaki encontra pavimento conservado, sinalização urbana e máquinas de venda automática em cada esquina. O bairro fica a poucos minutos de trem das áreas mais movimentadas de Osaka, conectado por linhas de metrô e ferrovia. Esse nível de mobilidade já separa a região de periferias em muitos outros países, onde o deslocamento costuma ser caro e demorado.

A infraestrutura não se limita ao transporte. Há equipes de limpeza atuando nas vias públicas, comércio ativo e uma rotina urbana previsível. Os “doyas”, hospedarias compactas e baratas que abrigam a maioria dos moradores, oferecem quartos minúsculos, mas com eletricidade e acesso a banheiros coletivos.

A tabela abaixo confronta os estigmas mais comuns com o que se observa no cotidiano do bairro, com base em registros públicos e dados oficiais:

Dados aproximados com base em informações do e-Stat (Statistics Bureau of Japan) e da prefeitura de Osaka.

Sanya: o bairro que Tóquio apagou do mapa

Em Tóquio, a história se repete com outro nome. Sanya era um bairro de trabalhadores braçais que ajudaram a erguer a cidade moderna, incluindo a Torre de Tóquio e as instalações dos Jogos Olímpicos de 1964. Em 1966, o governo removeu o nome dos mapas oficiais e dividiu a área entre os distritos de Kiyokawa e Nihonzutsumi, segundo a Wikipedia.

Mesmo “invisível” nos mapas, Sanya continua existindo. A região abriga cerca de 1.500 moradores de baixa renda, a maioria aposentados entre 60 e 70 anos. As hospedarias simples cobram o equivalente a 20 dólares por noite, os preços mais baixos de toda a capital. Apesar da precariedade social, as ruas são limpas e seguras pelos padrões de qualquer grande cidade do mundo.

Nishinari-ku, especificamente a área de Kamagasaki em Osaka, é frequentemente apontada como a maior “favela” do Japão. O vídeo é do canal Lucas Bigodinho, que conta com cerca de 520 mil subscritores, e explora a realidade deste bairro estigmatizado:

Um país com taxa de homicídio 14 vezes menor que a dos EUA

O contexto nacional ajuda a explicar por que até os bairros mais vulneráveis do Japão funcionam de forma diferente. Segundo estatísticas da Agência Nacional de Polícia (NPA) de 2024, a taxa de homicídio intencional no país é de 0,78 por 100 mil habitantes, uma das mais baixas do planeta. No índice de criminalidade do Numbeo para 2026, o Japão aparece com pontuação de 22,7, entre os dez países mais seguros do mundo.

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Alguns fatores estruturais ajudam a entender por que a pobreza japonesa não se converte em violência urbana na mesma proporção que em outros países.

  • Controle rígido de armas de fogo: a legislação japonesa é uma das mais restritivas do mundo. Em média, o país registra dois homicídios por arma de fogo ao ano.
  • Baixa desigualdade salarial: a diferença entre os salários mais altos e os mais baixos é menor que na maioria das economias industrializadas, o que reduz tensões sociais.
  • Cultura de responsabilidade coletiva: a coesão comunitária e o peso da reputação pessoal funcionam como freios sociais ao crime, mesmo em áreas pobres.
  • Rede de saúde mental com internação: o Japão tem 269 leitos psiquiátricos por 100 mil habitantes, contra 25 nos Estados Unidos, o que reduz a presença de pessoas em crise nas ruas.

O número oficial de pessoas em situação de rua reforça o contraste. Uma pesquisa do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar realizada em janeiro de 2025 contabilizou 2.591 sem-teto em todo o país, uma queda de 8,1% em relação ao ano anterior, conforme o Nippon.com. Esse número, porém, considera apenas quem dorme em espaços públicos e exclui os chamados “refugiados de internet café”, que podem chegar a 15 mil só em Tóquio.

Leia também: Com qualidade de vida muito alta e 33 ilhas, esta capital é a 2ª melhor do Brasil para viver e hoje lidera em saúde e inovação.

No Japão, bairros considerados “simples” oferecem segurança e organização que muitas metrópoles ainda buscam
Kamagasaki e Sanya obrigam a repensar o que se entende por miséria nas grandes cidades. / Créditos: Wikimedia Commons

A pobreza que a infraestrutura não resolve

Seria ingênuo tratar Kamagasaki ou Sanya como modelos. A infraestrutura funciona, mas a crise social é profunda. A maioria dos moradores de Kamagasaki são homens acima dos 50 anos, sem laços familiares e com histórico de alcoolismo. Dos 30 mil habitantes estimados, um terço recebe assistência previdenciária. O isolamento e a falta de perspectiva de trabalho criam uma forma de pobreza silenciosa, menos visível nas ruas, mas presente no cotidiano.

A pressão da gentrificação agrava o cenário. O Projeto Especial Nishinari, lançado em 2012, pretende transformar a região em área turística e comercial. A Expo 2025 de Osaka acelerou esse processo. Hospedarias que antes serviam a diaristas agora atendem mochileiros estrangeiros, e os aluguéis sobem. Em dezembro de 2024, cerca de 500 agentes do governo realizaram a remoção de moradores de rua das imediações do antigo Centro de Bem-Estar Airin, fechado desde 2019.

O que os bairros invisíveis do Japão revelam sobre pobreza urbana?

Kamagasaki e Sanya obrigam a repensar o que se entende por miséria nas grandes cidades. A equação não se resume a esgoto, pavimentação e presença policial. Quando esses elementos existem, mas os vínculos sociais se rompem e o trabalho deixa de sustentar uma trajetória de vida, surge uma pobreza menos ruidosa, porém persistente.

Conhecer esses bairros, mesmo que pela leitura, ajuda a entender que infraestrutura sem cuidado social produz cidades eficientes e pessoas cansadas. Vale acompanhar o que acontece com Kamagasaki nos próximos anos, porque o destino desse pedaço de Osaka diz muito sobre o tipo de cidade que o mundo está disposto a construir.

Tags: japãokamagasaki
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