No alto dos Campos de Cima da Serra, a mais de mil metros de altitude, uma cidade de ruas pacatas esconde abismos de 720 metros de profundidade. Cambará do Sul é a porta de entrada para os cânions mais impressionantes do Brasil, reconhecidos pela UNESCO como parte de um Geoparque Mundial.
A árvore que deu nome à terra dos cânions
O nome vem do tupi-guarani e significa “folha de casca rugosa”. A árvore cambará, conhecida pelo uso medicinal no combate a gripes e tosses, ainda pode ser vista na praça central, em frente à Igreja Matriz São José. A cidade nasceu como pouso de tropeiros que cruzavam a serra no século XIX e foi emancipada em 1963. Com cerca de 6.400 habitantes, Cambará do Sul ficou famosa quando equipes de televisão perceberam que os paredões da região serviam como cenário perfeito para novelas e documentários.
Na mesma praça, ao lado da igreja, cresce uma sequoia que os moradores chamam de Lunar. A história local diz que a semente viajou na missão Apollo 14 antes de ser plantada ali. Verdade ou lenda, a árvore virou ponto de parada obrigatória para quem passa pelo centro.

O que torna os cânions de Cambará tão impressionantes?
A região abriga a maior concentração de cânions da América Latina, formados há cerca de 150 milhões de anos por derramamentos basálticos que criaram o Planalto Meridional. A erosão fez o resto: esculpiu abismos que chegam a 900 metros de profundidade e se estendem por quilômetros. Desde 2022, o território integra o Geoparque Mundial da UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul, que reúne sete municípios entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Os dois parques nacionais da região, Aparados da Serra (criado em 1959) e Serra Geral (1992), protegem os cânions mais visitados. A administração foi concedida à iniciativa privada em 2021 e hoje é gerida pela Urbia Cânions Verdes.
Cambará do Sul, no Rio Grande do Sul, é mundialmente famosa pelos seus cânions, mas a cidade guarda segredos e histórias que vão muito além dos paredões de pedra. O vídeo do canal Diogo Elzinga, que conta com mais de 1 milhão de inscritos, apresenta um documentário profundo sobre a “Capital dos Cânions”:
Quais cânions visitar e o que esperar de cada um?
O ingresso único (R$ 107 inteira, em 2025) dá direito a três acessos durante sete dias nos dois parques. Atenção aos dias de fechamento: o Itaimbezinho não abre às segundas e o Fortaleza fecha às terças.
- Cânion Itaimbezinho: o mais famoso, a 18 km do centro. Paredões de 5,8 km de extensão e 720 metros de profundidade. As trilhas do Vértice (1,5 km) e do Cotovelo (6 km) são acessíveis para todas as idades. A Trilha do Rio do Boi, por dentro do cânion, exige guia e preparo físico.
- Cânion Fortaleza: considerado o mais exuberante, a 23 km do centro. São 7,5 km de extensão e altitude de 1.240 metros. A Trilha do Mirante (3,5 km) leva ao ponto mais alto. Abriga a Pedra do Segredo, bloco de rocha equilibrado sobre base estreita, e a Cachoeira do Tigre Preto.
- Tirolesa do Fortaleza: inaugurada em 2023, é considerada a mais alta das Américas em operação dentro de um cânion.

O que fazer além dos cânions na serra gaúcha?
Cambará do Sul oferece experiências que vão além das bordas dos abismos. A paisagem de campos de altitude com araucárias e a cultura campeira da região completam a viagem.
- Igreja Matriz São José: construída em 1945, torre de 32 metros com vitrais e pinturas internas. Fica na praça central, ao lado da sequoia e da árvore cambará.
- Circuito das Águas: passeio em veículo 4×4 por cascatas e fazendas nos arredores, incluindo a Cascata dos Venâncios e o Passo do S.
- Cavalgada nos Cânions: percurso a cavalo por áreas acima de 1.150 metros, passando pelas bordas dos cânions Pinheirinho e Cambajuva.
- Apiário Cambará e Casa do Mel: visita guiada com degustação. A apicultura é uma das principais atividades econômicas do município.
O que comer na terra dos cânions?
A gastronomia segue o ritmo do frio e da cultura campeira. A truta, criada nas águas geladas dos rios da serra, é o prato mais emblemático e aparece grelhada ou com molhos finos em restaurantes locais. O pinhão, fruto da araucária, entra em farofas, sopas e sobremesas. O churrasco gaúcho e o café colonial completam a mesa. Para acompanhar, o mel de Cambará é presença certa.

Quando o clima favorece a visita aos cânions?
O frio é marca registrada. Cambará do Sul figura entre as cidades mais geladas do Brasil, com geadas frequentes e neve eventual no inverno. A neblina (“viração”) pode encobrir os cânions a qualquer momento, independentemente da estação.

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. A neblina pode surgir a qualquer hora, mesmo em dias ensolarados.
Como chegar à terra dos cânions?
Cambará do Sul fica a 185 km de Porto Alegre pela RS-020 (Rota do Sol), cerca de 3h de carro, passando por São Francisco de Paula. De Gramado, são 113 km. Para quem vem de Santa Catarina, o acesso é pela Serra do Faxinal, a partir de Praia Grande. A estrada até os cânions inclui trechos de terra, e a via municipal que leva ao Fortaleza está em processo de pavimentação.
Visite a cidade pequena que guarda abismos gigantes
Cambará do Sul é rara porque concentra, em pouco mais de 6 mil habitantes, paisagens que levaram milhões de anos para se formar. Da praça com a igreja e a sequoia aos paredões do Itaimbezinho, tudo fica a menos de meia hora de distância.
Você precisa subir a serra e se aproximar da borda de um cânion em Cambará do Sul para entender por que a UNESCO colocou esse pedaço do Rio Grande do Sul no mapa do mundo.










