O vapor sobe das piscinas mesmo em noites de julho, e quem chega pela primeira vez a Caldas Novas estranha o calor que brota do chão. Na serra brasileira a 170 km de Goiânia, essa cidade goiana guarda um fenômeno raro: água que desce a mais de mil metros de profundidade e volta à superfície a até 70°C.
A imagem de satélite que viralizou com 400 mil curtidas
Em junho de 2025, a NASA publicou no Instagram uma foto feita pelo satélite Landsat 9 com a legenda “What’s that?”. O oval escuro na imagem era a Serra de Caldas Novas, um planalto coberto de Cerrado que se eleva cerca de 300 metros acima da paisagem do Brasil Central. A postagem ultrapassou 400 mil curtidas e colocou a cidade goiana no radar internacional.
A repercussão foi tanta que internautas compararam a formação a uma instalação militar. O geólogo Valdir Silveira, do Serviço Geológico do Brasil (SGB), precisou esclarecer: ali só existe água quente. Embaixo daquela serra oval está o maior manancial hidrotermal do mundo, alimentando centenas de fontes termais que sustentam toda a economia da região.
Por que a água brota quente no meio do Cerrado?
A chuva que cai sobre a serra se infiltra por fendas em rochas sedimentares com cerca de um bilhão de anos. Essa água desce a mais de mil metros e se aquece pelo contato com o gradiente geotérmico natural da Terra. Depois, retorna à superfície por diferença de pressão, emergindo entre 43°C e 70°C.
Durante décadas, moradores acreditaram que um vulcão adormecido esquentava as nascentes. Estudos geológicos descartaram essa hipótese: não há nenhuma rocha vulcânica na região. Em 2005, a serra foi reconhecida como um dos sítios geológicos mais importantes do país pela SIGEP, comissão vinculada ao programa de Patrimônio Natural da UNESCO. O primeiro registro escrito das águas quentes data de 1722, quando o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva encontrou nascentes enquanto procurava ouro. Em 1777, Martinho Coelho de Siqueira redescobriu o fenômeno durante uma caçada: seus cães teriam uivado ao entrar na Lagoa de Pirapitinga, cujas águas eram escaldantes.

O que fazer além dos parques aquáticos em Caldas Novas?
A Capital das Águas Quentes vai muito além de toboáguas. Natureza, história e lazer náutico se combinam a poucos minutos do centro.
- Parque Estadual da Serra de Caldas Novas (PESCaN): primeira unidade de conservação de Goiás, criada em 1970, com 12,3 mil hectares de Cerrado. Duas trilhas levam a cachoeiras de água fria, a Cascatinha (716 m) e a do Paredão (1,1 km). Entrada gratuita, das 6h às 16h.
- Lagoa de Pirapitinga: nascente histórica onde a água chega a 57°C. O chamado “poço do ovo”, que cozinha um ovo em poucos minutos, é a atração mais curiosa do complexo.
- Lago de Corumbá: represa com 64 km² às margens da cidade, procurada para passeios de lancha, jet-ski e pesca esportiva.
- Jardim Japonês e Casa Goiana: ponto turístico familiar que abriga uma das casas mais antigas da cidade, com arquitetura preservada do início do século XX.
- Feira do Luar: espaço com mais de 20 anos de tradição e cerca de 153 barraquinhas que vendem quitutes goianos, artesanato e doces caseiros todas as noites.
Caldas Novas é o paraíso das águas termais no coração de Goiás. O vídeo é do canal 3em3, que conta com mais de 317 mil inscritos, e detalha os melhores parques aquáticos da região, como o diRoma Acqua Park e o Náutico Praia Clube, além do sereno Jardim Japonês.
Sabores goianos entre um mergulho e outro
A mesa caldense reflete o interior de Goiás: temperos fortes, ingredientes do Cerrado e porções generosas. O pequi domina o cardápio, mas não está sozinho.
- Arroz com pequi: clássico goiano de aroma marcante, servido em praticamente todos os restaurantes da cidade.
- Empadão goiano: torta salgada recheada com frango, guariroba, linguiça e queijo. O Empadão Goiano da Tânia, no centro, virou parada obrigatória.
- Pamonha: doce ou salgada, recheada com queijo, frango ou guariroba. Vendida fresca em dezenas de pamonharias espalhadas pela cidade.
- Peixe na telha: prato regional preparado com temperos locais, encontrado nos restaurantes ao redor do Lago de Corumbá.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O clima tropical de Caldas Novas tem duas estações bem definidas: verão chuvoso e inverno seco. As águas termais podem ser aproveitadas o ano inteiro, mas cada período oferece uma experiência diferente.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme o ano.

Como chegar à capital das águas quentes?
Caldas Novas fica a 170 km de Goiânia pela GO-213 e a 308 km de Brasília. O acesso rodoviário é bem sinalizado, com postos de apoio ao longo do trajeto. A cidade conta com o Aeroporto Nelson Ribeiro Guimarães, que recebe voos comerciais de São Paulo, Belo Horizonte e Brasília, especialmente na alta temporada.
A cidade que a NASA colocou no mapa
Poucas cidades brasileiras reúnem um fenômeno geológico raro, banho termal a céu aberto, trilhas no Cerrado preservado e gastronomia de raiz na mesma semana. Caldas Novas entrega tudo isso com ritmo de interior e infraestrutura de cidade grande.
Você precisa sentir a água quente brotando do chão e entender por que mais de 3 milhões de pessoas voltam todos os anos a esse pedaço improvável do Cerrado goiano.









