No sertão de Alagoas, a 280 km de Maceió, uma cidade de 25 mil habitantes às margens do Rio São Francisco guarda casarões coloniais tombados pelo IPHAN, paredões rochosos que cortam o Velho Chico e a memória viva do cangaço. Piranhas, a Lapinha do Sertão, é o ponto de partida para os Cânions do Xingó, a Rota do Cangaço e uma gastronomia ribeirinha de camarão de água doce e surubim.
A cidade que Lampião poupou e que exibiu sua cabeça
Piranhas ficou conhecida nacionalmente por causa do cangaço. Lampião nunca atacou a cidade por duas razões: a primeira é que Piranhas tem uma única entrada, o que deixaria o bando encurralado em caso de confronto; a segunda é que Nossa Senhora, padroeira local, era também a santa de devoção do “Rei do Cangaço”.
A proteção não foi recíproca. Em julho de 1938, uma das tropas volantes que saiu de Piranhas surpreendeu o bando na Grota de Angicos, a poucos quilômetros da cidade. Lampião, Maria Bonita e nove cangaceiros foram emboscados e decapitados. As onze cabeças foram trazidas para Piranhas e expostas na praça pública. Foi ali que se tirou a fotografia histórica enviada a jornais de todo o Brasil, anunciando o fim do cangaço.

D. Pedro II chamou de Lapinha e a prefeitura virou palácio
Fundada em 1887, Piranhas já era rota de passagem pelo sertão quando Dom Pedro II visitou o município em 1859, navegando pelo Rio São Francisco. Encantado com o cenário, o imperador chamou a cidade de “Lapinha do Sertão”, apelido que sobrevive até hoje. A sede da prefeitura, em homenagem à visita, é chamada de Palácio D. Pedro II.
O Centro Histórico, tombado pelo IPHAN como Patrimônio Histórico Nacional, preserva casarões coloniais coloridos dispostos entre morros e ladeiras de paralelepípedo. A Torre do Relógio, construída em 1879, abriga um café no alto e dois mirantes. O Mirante Secular, no topo de mais de 360 degraus, guarda um obelisco erguido no final do século XIX para saudar o século XX.
Piranhas, em Alagoas, é uma cidade que transborda história e beleza natural às margens do Rio São Francisco. O canal Vou na Janela apresenta um roteiro detalhado por este destino que é patrimônio histórico nacional:
Cânions do Xingó: paredões e água esmeralda no Velho Chico
O passeio de catamarã ou lancha pelos Cânions do Xingó é a principal atração da região. A navegação parte do atracadouro de Piranhas e segue pelo São Francisco entre paredões rochosos alaranjados que contrastam com a água verde-esmeralda. O percurso inclui paradas para banho em piscinas naturais protegidas e visita à Gruta do Talhado.
Os cânions se formaram após a construção da Usina Hidrelétrica de Xingó, que represou o rio e elevou o nível da água, revelando gargantas e falésias antes inacessíveis. O passeio mais comum dura entre 3 e 7 horas, com opções compartilhadas ou privativas. A visita guiada à usina, com cerca de 40 minutos, complementa o roteiro.

O que visitar entre o rio e a caatinga?
Piranhas divide seus atrativos entre o Centro Histórico, o rio e a caatinga. Duas a três diárias são suficientes para os principais passeios.
- Rota do Cangaço: passeio de catamarã até o Cangaço Eco Parque, seguido de trilha de 1,5 km pela caatinga até a Grota de Angicos, local da emboscada a Lampião. Guias caracterizados de cangaceiros contam a história.
- Museu do Sertão Marília Rodrigues: instalado na antiga Estação Ferroviária de Piranhas, com acervo sobre o cangaço, a vida sertaneja e a história do município.
- Mirante da Igreja do Senhor do Bonfim: 250 degraus íngremes até o topo, com vista panorâmica do São Francisco e do casario colonial.
- Povoado de Entremontes: vilarejo ribeirinho com praias fluviais e restaurantes de peixe fresco à beira do rio.
- Ilha do Ferro: povoado de Pão de Açúcar (AL), acessível de barco. Reconhecido como referência nacional em artesanato em madeira e pelo bordado Boa Noite, patrimônio cultural regional.

Pituzada, surubim e o melhor pôr do sol do sertão
A gastronomia de Piranhas vem direto do Velho Chico. O pitu, um grande camarão de água doce típico do São Francisco, é a estrela dos cardápios. A pituzada, ensopado generoso do crustáceo, é servida nos restaurantes da orla fluvial. Moquecas de surubim e tilápia, carne de sol com macaxeira e sucos de frutas regionais completam o menu.
À noite, o Centro Histórico ganha vida com bares, música ao vivo e lojinhas de artesanato sertanejo. O pôr do sol visto do Mirante Secular ou do Mirante da Igreja, com o São Francisco ao fundo e as casinhas coloridas na encosta, é um dos mais fotografados do Nordeste.
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Quando ir a Piranhas e como é o clima no sertão?
O clima é semiárido, com calor o ano inteiro e chuvas concentradas entre abril e junho. O período seco (agosto a março) é o mais indicado para passeios de barco e trilhas na caatinga.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar à Lapinha do Sertão
Piranhas fica a 280 km de Maceió pela AL-220 e BR-316, cerca de 4 horas de carro. De Aracaju, são 215 km via Canindé de São Francisco (SE), na outra margem do rio. Não há aeroporto na cidade; os mais próximos são Maceió e Aracaju. O carro é indispensável para a logística entre as atrações. Os cânions também podem ser acessados pelo lado sergipano, a partir de Canindé.
Navegue o Velho Chico e ouça as histórias que o sertão não esquece
Piranhas é o lugar onde o Rio São Francisco se espreme entre paredões de pedra, o cangaço ganhou seu último capítulo e um imperador deu apelido a uma cidade inteira. As casinhas coloridas, a gastronomia do rio e a caatinga seca criam um cenário que não se repete em nenhum outro ponto do Nordeste.
Você precisa navegar os cânions do Xingó pela manhã, comer pituzada à beira do São Francisco ao meio-dia e subir os 250 degraus do mirante no fim da tarde para ver o sol mergulhar atrás da Lapinha do Sertão.








