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Cientistas perfuram 523 metros abaixo do gelo da Antártida Ocidental e recuperam um registro geológico de 23 milhões de anos

Por Daniely Cardoso
17/04/2026
Em Curiosidades
Cientistas perfuram 523 metros abaixo do gelo da Antártida Ocidental e recuperam um registro geológico de 23 milhões de anos

A equipe internacional passou dois meses perfurando o gelo em busca de sedimentos antigos

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Imagine um grupo de cientistas vivendo por semanas em tendas no meio do gelo, enfrentando frio intenso e isolamento total, só para alcançar o que está escondido a centenas de metros abaixo de seus pés. Foi exatamente isso que aconteceu em Crary Ice Rise, na Antártida Ocidental, onde uma equipe internacional passou cerca de dois meses perfurando o gelo em um dos lugares mais remotos do planeta para recuperar sedimentos antigos capazes de contar, com detalhes, a história do clima na região.

Por que o núcleo rochoso da Antártida é tão importante para entender o passado?

Em Crary Ice Rise, os pesquisadores usaram um sistema de água quente para abrir um túnel em mais de 500 metros de gelo até chegar ao fundo, onde estavam rochas e sedimentos acumulados ao longo de milhões de anos. De lá, retiraram um núcleo de cerca de 228 metros, formado por camadas de lama, areia e fragmentos de rochas, como se fosse um “livro” de história da Terra.

Esse núcleo, considerado o mais profundo já obtido sob o gelo antártico, foi tratado como um grande arquivo físico de informações. Cada pedaço foi descrito, fotografado e analisado no próprio acampamento, e depois enviado para laboratórios em vários países, onde serão feitos estudos de datação, análise química e investigação de microfósseis. As primeiras estimativas indicam que ele pode registrar até cerca de 23 milhões de anos de mudanças ambientais.

Em Crary Ice Rise, os pesquisadores usaram um sistema de água quente para abrir um túnel em mais de 500 metros de gelo até chegar ao fundo – Créditos: Foto/Ana Tovey / SWAISC

Leia também: A batalha que mudou o rumo do mundo, o confronto que definiu o destino de impérios

O que o núcleo revela sobre o risco de derretimento na Antártida Ocidental?

Ao examinar o núcleo, os cientistas encontraram não só sinais de gelo sobre terra firme, mas também fragmentos de conchas marinhas e restos de organismos que precisam de luz para viver. Isso mostra que, em certos períodos do passado, a região esteve coberta por oceano aberto ou por plataformas de gelo flutuante bem mais finas do que as atuais.

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Essas evidências funcionam como prova direta de que a camada de gelo da Antártida Ocidental já recuou bastante em outros momentos de aquecimento do planeta. Em um cenário em que hoje já se observa, por satélite, perda acelerada de gelo na região, entender quando isso aconteceu no passado ajuda a estimar quão vulnerável ela é ao aquecimento atual e futuro, reforçando a necessidade de melhorar o monitoramento contínuo dessas mudanças.

Quais são os possíveis impactos desse derretimento no nível do mar?

A Antártida Ocidental é vista por glaciólogos como uma das partes mais sensíveis do sistema climático global, em grande parte porque boa parte de sua base está abaixo do nível do mar. Isso facilita a entrada de águas oceânicas mais quentes sob a camada de gelo, acelerando o derretimento por baixo, de forma silenciosa e difícil de observar diretamente.

Cada pedaço foi descrito, fotografado e analisado no próprio acampamento – Foto: Ana Tovey / SWAIS2C

Estudos indicam que, se todo o gelo da Antártida Ocidental derretesse, o nível médio dos oceanos poderia subir entre quatro e cinco metros. O ponto crucial, porém, é entender em que condições esse recuo poderia ocorrer e em quanto tempo. O novo núcleo ajuda justamente a responder essas questões, revelando períodos em que a temperatura média global foi maior do que a atual e como o gelo reagiu nessas fases, informação essencial para planejar adaptações em cidades costeiras.

Como o núcleo rochoso ajuda a entender um aquecimento de 2°C?

O projeto SWAIS2C foi criado para investigar como a camada de gelo da Antártida Ocidental reage a um aquecimento global em torno de 2°C acima dos níveis pré-industriais, o mesmo limite central do Acordo de Paris. Indícios iniciais sugerem que o núcleo guarda registros de épocas em que a temperatura global ultrapassou esse valor, oferecendo um “espelho” do que pode acontecer neste século.

Para isso, os pesquisadores vão comparar as camadas do núcleo com outros registros climáticos, como sedimentos do fundo do mar de Ross e do oceano Austral, além de dados sobre gelo marinho e circulação oceânica. Essa combinação permite reconstruir cenários completos de aquecimento, recuo do gelo e variação do nível do mar em diferentes períodos do passado, aumentando a precisão de modelos usados para projeções futuras.

A Antártida Ocidental é vista por glaciólogos como uma das partes mais sensíveis do sistema climático global – Créditos: Foto/Ana Tovey / SWAIS2C

Quais etapas serão seguidas e por que isso afeta nossa vida no futuro?

Para transformar esse núcleo em respostas concretas, a equipe seguirá uma série de etapas que conectam o que está guardado nas rochas aos riscos que cidades costeiras podem enfrentar nas próximas décadas.

  • Datação detalhada das camadas usando isótopos e fósseis microscópicos.
  • Reconstrução das condições do oceano, como temperatura, salinidade e circulação das águas.
  • Interpretação do comportamento do gelo, identificando fases de avanço, estabilidade ou retirada da camada de gelo.
  • Integração com modelos climáticos para projetar cenários futuros de derretimento e elevação do nível do mar.

Com isso, o núcleo profundo extraído sob o gelo antártico deixa de ser apenas um marco técnico de perfuração científica e se torna um registro direto da relação entre aquecimento global, estabilidade da Antártida Ocidental e variações do nível dos oceanos. Cada centímetro analisado ajuda a entender como o planeta reagiu em climas mais quentes e oferece pistas valiosas para planejar o futuro de regiões costeiras em todo o mundo, apoiando políticas públicas de mitigação e adaptação.

Tags: Antártida OcidentalCientistas perfuram 523 metros abaixo do gelo da Antártida Ocidental e recuperam um registro geológico de 23 milhões de anos
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