Quem chega a Porto Velho pelas margens do Rio Madeira sente, antes de tudo, o cheiro da floresta misturado ao calor úmido da Amazônia. A capital amazônica de Rondônia nasceu da construção de uma das ferrovias mais ambiciosas do início do século XX, batizada pelos próprios trabalhadores como Ferrovia do Diabo.
Por que a Madeira-Mamoré ganhou um apelido tão sombrio?
A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM) foi construída entre 1907 e 1912 para escoar a produção de borracha amazônica e cumprir uma promessa do Tratado de Petrópolis, assinado em 17 de novembro de 1903 entre Brasil e Bolívia. O acordo encerrou a disputa pelo território do Acre, que passou ao domínio brasileiro mediante a obrigação de construir a ferrovia.
Os 366 km que ligaram Porto Velho a Guajará-Mirim custaram caro em vidas humanas. Registros oficiais apontam 1.522 mortes no Hospital da Candelária, mas estimativas conservadoras ultrapassam seis mil óbitos ao longo da obra. A lenda popular dizia que cada dormente assentado representava um trabalhador morto, daí o apelido Ferrovia do Diabo. Mais detalhes no Governo de Rondônia.

Como uma cidade nasceu dos trilhos no meio da floresta?
O canteiro de obras da ferrovia atraiu cerca de 30 mil trabalhadores de mais de 50 nacionalidades, segundo registros da época. Brasileiros, americanos, espanhóis, gregos, barbadianos, cubanos e indianos chegavam de navio até o porto às margens do Rio Madeira, onde foram erguidos hospitais, oficinas, habitações e a estação que viraria o marco zero da ferrovia.
A vila se transformou em município em 2 de outubro de 1914 e ganhou ares cosmopolitas raros para a Amazônia daquele tempo. O empreendimento, conduzido pelo americano Percival Farquhar, é considerado a primeira grande obra de engenharia civil dos Estados Unidos fora do território nacional após o início das obras do Canal do Panamá.
Araguari destaca a força econômica e o planejamento do Triângulo Mineiro. O vídeo é do canal Renato Rezende Drones, com 11,6 mil inscritos, e detalha o crescimento urbano e as principais avenidas da cidade:
Leia também: A cidade colonial mineira que tem uma Maria Fumaça funcionando sem parar desde 1881.
O que ainda dá para visitar do passado ferroviário?
O Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, às margens do Rio Madeira, foi reaberto ao público em 4 de maio de 2024 após anos de revitalização. O espaço concentra galpões históricos, locomotivas originais, vagões e o museu que conta a saga da construção da ferrovia.
- Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré: acervo com ferramentas, documentos, fotografias e a Locomotiva 18, fabricada por alemães em 1936 e em processo de restauração. Detalhes na Prefeitura de Porto Velho.
- Três Marias: três caixas d’água de ferro, projetadas pela americana Chicago Bridge & Iron Works e instaladas entre 1910 e 1912, abasteceram a cidade por décadas e hoje dão nome à praça que se tornou símbolo da capital.
- Mercado Cultural: prédio histórico de 1913 no centro, hoje reúne gastronomia regional, atrações culturais e apresentações ao vivo nos fins de semana.
- Memorial Rondon: réplica da estação telegráfica e exposições sobre o Marechal Cândido Rondon, com maloca em tamanho real e artesanato indígena.
- Catedral Sagrado Coração de Jesus: inaugurada em 1927, em estilo românico, com altar-mor em mármore carrara e vitrais de 142 m².
- Parque Natural de Porto Velho: 390 hectares de mata nativa com trilhas e museu da fauna e flora local.
Quando vale enfrentar o calor amazônico?
Porto Velho fica em pleno bioma amazônico, com chuvas abundantes na maior parte do ano e temperaturas elevadas o tempo todo. A janela ideal de visita coincide com o período mais seco, entre maio e setembro, quando os passeios pelo rio e as caminhadas urbanas ficam mais agradáveis.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar e o que comer na capital de Rondônia?
Porto Velho tem aeroporto internacional Governador Jorge Teixeira, com voos regulares saindo de Brasília, São Paulo e capitais da região Norte. Por estrada, a BR-364 é a principal via, conectando a cidade ao restante do Brasil em rota que substituiu a antiga ferrovia.
A culinária local é fortemente influenciada pelos peixes do Rio Madeira. Pratos como tambaqui assado, caldeirada de pintado e tucunaré frito aparecem nos cardápios dos restaurantes da orla. A herança das migrações deixou marcas também na mesa, com forte presença nordestina e amazônica em sabores como o tacacá e o pirarucu.
Vale conhecer a capital que nasceu de uma saga ferroviária?
Porto Velho é um destino para quem se interessa por história contada em trilhos, locomotivas e edifícios centenários cravados na floresta. O Rio Madeira, as Três Marias e o complexo da antiga ferrovia formam um conjunto raro de patrimônio que poucas capitais brasileiras conseguem oferecer.
Você precisa conhecer Porto Velho e caminhar pelo Complexo Madeira-Mamoré ao entardecer, para entender por que essa capital amazônica carrega no nome a memória de uma das obras mais marcantes do Brasil.







