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Frase do dia de Leandro Karnal, historiador e escritor: “Localizar o mal no outro é uma panaceia universal”; a reflexão sobre ódio, intolerância e a tentação de culpar sempre o próximo

Por João Victor
29/05/2026
Em Bem-Estar
Retrato conceitual de um intelectual em reflexão, evocando o historiador Leandro Karnal

As reflexões de Leandro Karnal sobre ódio e autoconhecimento seguem provocando debates sobre a convivência em sociedade. Imagem gerada por IA.

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Em tempos de debates acalorados, redes sociais inflamadas e opiniões que parecem nunca se encontrar, uma frase do historiador Leandro Karnal sintetiza com precisão cirúrgica um dos hábitos mais enraizados do comportamento humano. No livro O Inferno Somos Nós, escrito em diálogo com a Monja Coen, Karnal observa:

“Localizar o mal no outro é uma panaceia universal.”

A frase é curta, mas carrega uma provocação profunda. Panaceia é o nome que se dava a um suposto remédio capaz de curar todos os males. Ao usar essa palavra, Karnal aponta para um mecanismo psicológico que praticamente todo mundo aciona, muitas vezes sem perceber: a tendência de colocar a origem de todos os problemas no outro — no vizinho, no adversário político, no diferente — como se isso resolvesse alguma coisa.

O que significa a reflexão de Leandro Karnal

A ideia central é desconfortável justamente porque mira em todos nós. É muito mais fácil e reconfortante acreditar que o problema está sempre do lado de fora. Se algo vai mal no país, a culpa é “deles”. Se uma relação fracassa, o erro foi do outro. Se o mundo parece hostil, são as outras pessoas que o tornaram assim. Localizar o mal no outro funciona como um analgésico emocional: alivia momentaneamente, porque nos isenta de qualquer responsabilidade.

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O problema é que esse alívio é uma ilusão. Ao terceirizar permanentemente a culpa, a pessoa se exime de olhar para dentro — e é justamente esse olhar para dentro que permitiria algum crescimento real. O título do livro, O Inferno Somos Nós, é uma resposta direta à célebre frase do filósofo francês Jean-Paul Sartre, “o inferno são os outros”. Karnal e Monja Coen propõem uma inversão: talvez o inferno não esteja nos outros, mas em nós mesmos — nas nossas próprias intolerâncias, medos e incapacidade de aceitar a diferença.

O contexto por trás da frase

A reflexão nasce de uma preocupação concreta de Karnal com o aumento da intolerância e da polarização na sociedade contemporânea. O historiador é um observador atento de como o ódio se manifesta nas relações cotidianas — da política às redes sociais —, tema que ele aprofunda também em outras obras, como Todos Contra Todos.

Para ele, o medo costuma estar na origem da violência, e o caminho para uma convivência mais saudável passa pelo conhecimento de si e do outro. Não se trata de aceitar tudo passivamente — Karnal e Monja Coen falam sobre a importância de impor limites ao que é inaceitável —, mas de reconhecer que o reflexo automático de demonizar quem pensa diferente raramente leva a qualquer solução. Pelo contrário: alimenta um ciclo em que cada lado se vê como puro e enxerga no outro a encarnação de todo o mal.

Por que esse pensamento é tão atual

Poucas reflexões parecem tão feitas para o nosso tempo. Vivemos uma era em que a indignação virou quase um esporte e em que apontar o erro alheio rende aplausos imediatos do próprio grupo. A frase de Karnal funciona como um espelho incômodo: e se, antes de localizar o mal no vizinho, a gente examinasse os próprios mecanismos de julgamento?

Algumas reflexões práticas que a ideia oferece para o dia a dia: a importância de desconfiar do impulso de culpar sempre o outro antes de examinar a própria parcela de responsabilidade; o entendimento de que aceitar a diferença não é fraqueza, mas maturidade; a percepção de que a indignação fácil contra quem pensa diferente costuma ser mais sobre nós do que sobre eles; e a noção de que o autoconhecimento, ainda que desconfortável, é o ponto de partida para qualquer convivência mais pacífica.

No fim, a provocação de Leandro Karnal permanece como um convite raro nos dias de hoje: antes de procurar o inferno nos outros, talvez valha a pena ter a coragem de olhar para dentro. Porque é nesse olhar — difícil, honesto e muitas vezes adiado — que mora a única mudança que de fato está ao nosso alcance.

Tags: autoconhecimentocomportamentointolerânciaLeandro KarnalO Inferno Somos Nós
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