Há cerca de 14 mil anos, no fim da última Era do Gelo, um pequeno grupo de humanos entrou numa caverna no que hoje é o noroeste da Itália e caminhou cerca de 800 metros na escuridão absoluta — acompanhado de um cão. Como eles enxergavam o caminho? Por décadas, a resposta parecia óbvia: grandes tochas. Um novo estudo publicado em 2026 mostra que estávamos enganados.
A pesquisa, conduzida por uma equipe multidisciplinar de universidades italianas na Caverna de Bàsura, em Toirano (região da Ligúria), revela que aqueles exploradores não usavam tochas robustas. Eles iluminavam a passagem com pequenos gravetos de pinheiro em chamas, alguns finos como um dedo. A descoberta muda a forma como entendemos a relação entre os primeiros humanos e o subterrâneo.
Quem eram os exploradores — e por que isso já foi um mistério
As pegadas humanas preservadas no chão da Caverna de Bàsura estão entre as mais importantes do norte da Itália. Curiosamente, quando foram estudadas pela primeira vez, nos anos 1950, os pesquisadores acreditaram que pertenciam a neandertais. Só na década de 1970, com as primeiras datações por radiocarbono, ficou claro que eram muito mais recentes: pertenciam a humanos modernos do período Epigravettiano, uma cultura do final do Paleolítico Superior, do fim da Era do Gelo.
O grupo era pequeno: a análise das pegadas identificou cinco indivíduos, entre adultos e jovens, acompanhados de um canídeo — provavelmente um cão. Eles entraram na parte mais profunda da caverna, um salão hoje chamado de “Sala dos Mistérios” (Sala dei Misteri), onde também ficam vestígios de ursos-das-cavernas (Ursus spelaeus) que hibernavam ali há dezenas de milhares de anos.

A pista estava no carvão
A chave para resolver o enigma estava nos fragmentos de carvão deixados no chão e nas marcas pretas espalhadas pelas paredes e estalactites do salão. Ao analisar 56 fragmentos de madeira carbonizada, os pesquisadores identificaram que a grande maioria — mais de 80% do material — vinha de galhos jovens e finos, com menos de 2 a 3 centímetros de diâmetro. A espécie dominante era o pinheiro do tipo Pinus sylvestris/mugo, o mesmo que formava a vegetação esparsa em volta da caverna naquela época, num cenário de estepe fria e arborização rala.
Em outras palavras: nada de grandes tochas de galhos grossos. O combustível eram gravetos pequenos, usados sozinhos ou amarrados em pequenos feixes.
A ciência testou na prática
Para confirmar a hipótese, a equipe recorreu à arqueologia experimental. Em 2024, os pesquisadores reproduziram o sistema de iluminação numa caverna vizinha, a Santa Lucia Inferiore, com características semelhantes às de Bàsura, mas que nunca foi habitada na pré-história — assim, não havia risco de contaminar o sítio original.
Usando gravetos do mesmo pinheiro, com 1 e 2 cm de diâmetro, eles testaram quanto tempo a chama durava, quanta luz produzia e como um grupo conseguia se mover com segurança. Os resultados foram reveladores:
- Mesmo pequenos, os gravetos produziam luz suficiente para iluminar o caminho e garantir o retorno seguro.
- Cada graveto consumia em média cerca de 4 cm por minuto. Para percorrer 100 metros num terreno irregular, bastava um graveto que queimasse uns 18 cm em cerca de 4 minutos e meio.
- Duas chamas eram suficientes para o grupo todo avançar com segurança — uma com a segunda pessoa da fila, outra com a última.
- Os gravetos finos ofuscavam menos os olhos do que tochas grandes e produziam menos fumaça, tornando a jornada mais suportável no ambiente fechado.
Como o grupo se movia no escuro
A reconstrução montada pelos pesquisadores é quase cinematográfica. O grupo avançava em fila única, cada pessoa com uma das mãos no ombro de quem ia à frente, mantendo-se colado à parede da caverna — exatamente a forma mais segura de se mover no escuro, a mesma estratégia que ursos e lobos adotam em ambientes subterrâneos desconhecidos.
Os gravetos eram pequenos o bastante para serem carregados com facilidade, e havia um detalhe engenhoso: em trechos onde era preciso engatinhar, dava para segurar o graveto aceso entre os dentes, liberando as duas mãos. Quando uma chama enfraquecia, era apaga-da contra a parede e substituída pela seguinte — e foram justamente essas marcas de carvão deixadas nas paredes que ajudaram a confirmar a teoria: elas são quase idênticas às marcas produzidas no experimento.
Estima-se que, para cobrir os cerca de 800 metros de ida e volta até a Sala dos Mistérios — uma jornada de aproximadamente duas horas —, o grupo tenha usado por volta de 20 gravetos de uns 30 cm cada.
Por que essa descoberta importa
Mais do que um detalhe técnico sobre fogo, o estudo mostra o nível de planejamento e conhecimento ambiental dos primeiros humanos. Eles escolhiam a madeira certa, secavam os galhos antes de usar (sinal de que eram coletados de árvores vivas, e não apanhados do chão) e dominavam a logística de iluminar um ambiente hostil e perigoso o suficiente para transformá-lo em espaço de exploração — e, possivelmente, de atividades simbólicas.
A Caverna de Bàsura continua guardando enigmas: três outros fragmentos de carvão, encontrados presos na base de uma formação rochosa, têm idades diferentes das da caminhada principal, sugerindo que humanos visitaram aquele subterrâneo em mais de um momento da pré-história. Cada nova análise acende — agora com luz da ciência — um pedaço a mais dessa história de 14 mil anos.
Estudo: Arobba, D. et al. “Archaeobotanical investigations and experimental activity performed at Bàsura Cave (Toirano, NW Italy) reveal clues on Epigravettian cave lighting systems.” Quaternary International, vol. 772 (2026). Publicado em acesso aberto sob licença CC BY.










