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Início Cidades

A “Machu Picchu brasileira” que despencou de 9 mil para 400 moradores e virou um paraíso cinematográfico de pedra

Por Maura Pereira
11/06/2026
Em Cidades, Turismo
A “Machu Picchu Brasileira” é uma vila quase fantasma que foi de 9 mil para 400 moradores com a queda do garimpo na Bahia

A vila em si já é o passeio. Caminhar pelas ruas de pedra, observar as ruínas tomadas pela vegetação e conversar com os moradores rende uma manhã inteira. / Imagem ilustrativa

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No alto da Serra do Sincorá, a 18 km de Andaraí, uma vila feita de ruínas de pedra guarda a memória do ciclo do diamante na Bahia. Igatu é chamada de Machu Picchu brasileira, mas a comparação só vai até certo ponto: as pedras daqui foram empilhadas por garimpeiros, não por incas.

De onde veio a “Cidade de Pedras” da Chapada Diamantina?

Por volta de 1844, garimpeiros vindos de Mucugê e de Minas Gerais chegaram à serra em busca de diamantes e deram origem a Igatu. No auge do ciclo diamantífero, o povoado reuniu mais de 9 mil moradores e tornou-se um dos centros mais prósperos das Lavras Diamantinas. Com abundância de arenito, casas, muros e até a igreja foram erguidos com blocos de pedra encaixados, sem argamassa.

Com o esgotamento das jazidas e a produção industrial do diamante negro em laboratório, a população diminuiu drasticamente, deixando ruas inteiras vazias. Hoje, Igatu tem cerca de 400 habitantes, e suas ruínas foram reconhecidas como patrimônio pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2000, protegendo aproximadamente 200 imóveis históricos.

A “Machu Picchu Brasileira” é uma vila quase fantasma que foi de 9 mil para 400 moradores com a queda do garimpo na Bahia
Explore Igatu, a “Machu Picchu baiana” na Chapada Diamantina: ruínas mágicas e histórias de diamantes que inspiram aventuras eternas na BA! // Créditos: Wikipédia

O que visitar na vila e nos arredores de Igatu?

A vila em si já é o passeio. Caminhar pelas ruas de pedra, observar as ruínas tomadas pela vegetação e conversar com os moradores rende uma manhã inteira. Mas há mais para explorar nos arredores.

  • Galeria Arte e Memória: museu a céu aberto criado pelo artista plástico Marcos Zacariades entre as paredes das ruínas. Exibe esculturas, utensílios de garimpeiros e peças que contam a história da vila. Tem também um café-creperia.
  • Gruna do Brejo: antiga mina de diamante adaptada para visitação. O passeio é feito no escuro, com lanterna, e revela galerias escavadas à mão no século XIX.
  • Cachoeira dos Pombos: duas quedas a cerca de 1 km do centro, com trilha leve. Boa para famílias e para refrescar depois de andar pelas ruínas.
  • Cachoeira da Califórnia: queda de 10 metros dentro de um cânion de arenito rosa. A trilha é de 1,5 km, com trechos que exigem escalaminhada. Nível difícil.
  • Rampa do Caim: mirante natural com vista para o Vale do Pati e o rio Paraguaçu. Um dos visuais mais bonitos da Chapada Diamantina.

O vídeo é do canal Rolê Família, com mais de 270 mil inscritos, e exibe as ruínas históricas, o garimpo e o charme dessa vila única na Chapada:

Quem é Amarildo e por que ele faz o censo de Igatu à mão?

Amarildo dos Santos é morador de Igatu e responsável por um dos censos mais curiosos do Brasil. Todo ano, ele registra em livros manuscritos quem nasceu, morreu, casou, chegou ou foi embora da vila. É ele quem sabe o número exato de habitantes. Sua casa funciona como loja de doces e ponto de venda desses livros artesanais, que viraram souvenir disputado entre os visitantes.

Outra visita marcante é à casa de Lindaura, filha de uma antiga mulher de garimpeiro. Ela serve bolinhos de chuva com café e mostra álbuns de fotos e objetos que contam o cotidiano de Igatu nos tempos do diamante.

De vila rica em diamantes a quase fantasma: a “Machu Picchu Brasileira” hoje tem só 400 moradores. // Créditos: Wikipédia

Igatu também é terra de escritor e de cinema

A vila é o lugar onde nasceu Herberto Sales, autor do romance Cascalho, que retrata a vida dos garimpeiros e o poder dos coronéis na região. O livro é uma das obras mais importantes da literatura baiana. Em outubro de 2008, Igatu serviu de cenário para o filme Besouro, sobre o capoeirista lendário do Recôncavo.

O nome “Igatu” vem do tupi e significa “água boa”, pela junção de y (água) e katu (bom). Os rios Coisa Boa, Piaba e Pombos cercam a vila e justificam o batismo indígena.

Leia também: A cidade com a maior ciclovia à beira-mar do Brasil está conquistando visitantes pela beleza paradisíaca sem perder conforto.

Quando ir e o que esperar do clima na serra

Igatu fica a cerca de 800 metros de altitude, o que deixa as noites mais frescas do que nas cidades baixas da Chapada. A chuva se concentra entre novembro e março. O período mais seco, de junho a setembro, é o mais procurado.

VERÃO
DEZ – FEV
19-30°C
Chuva alta. Época de cachoeiras cheias e trilhas matinais.
OUTONO
MAR – MAI
18-28°C
Chuva média. Visite ruínas e garimpos com clima agradável.
INVERNO
JUN – AGO
15-26°C
Chuva baixa. Alta temporada, noites frescas e céu limpo.
PRIMAVERA
SET – NOV
18-30°C
Chuva média. Admire a flora em flor com menos turistas.

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo para Andaraí. Em Igatu, pela altitude, as mínimas podem ser alguns graus mais baixas.

Como chegar à vila de pedra

Igatu é distrito de Andaraí, que fica a 430 km de Salvador pela BR-242. De Andaraí, são 14 km de subida por uma estrada de pedra construída pelos próprios garimpeiros no século XIX. Carros altos passam sem problema; carros baixos exigem cuidado. O aeroporto mais próximo é o de Lençóis (LEC), a cerca de 90 km. De lá, é possível alugar carro ou contratar transfer.

Uma vila que transformou ruínas em razão de existir

Igatu poderia ter virado mais uma cidade fantasma do interior baiano. Em vez disso, transformou as pedras que sobraram do diamante em patrimônio, em arte, em motivo para gente do mundo inteiro subir uma estrada de pedra no meio da serra.

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Vá com tempo, durma pelo menos uma noite, converse com Amarildo e deixe o silêncio da Cidade de Pedras contar o que os livros de história não conseguem.

Tags: Bahiaigatu
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