Um grupo internacional de cientistas identificou uma gigantesca estrutura sob o gelo da Antártida Oriental — e ela pode guardar pistas sobre a fragmentação de Gondwana, o antigo supercontinente que deu origem às massas de terra do Hemisfério Sul. A descoberta foi publicada na revista Nature Geoscience no início de junho
A formação reúne uma rede de enormes bacias subglaciais enterradas sob uma camada de gelo que, em alguns trechos, ultrapassa 3 quilômetros de espessura. Vistas em conjunto, essas depressões desenham um leque em escala continental — por isso, os pesquisadores batizaram a região de Província de Bacias em Forma de Leque da Antártida Oriental (EAFBP, na sigla em inglês). O sistema se irradia a partir de um ponto focal próximo ao Polo Sul e conecta algumas das feições mais conhecidas do continente gelado, como as bacias Wilkes e Aurora e a depressão que abriga o Lago Vostok, o maior lago subglacial conhecido da Terra.
Como o “leque” se formou
Segundo o estudo, o padrão é resultado de um processo tectônico chamado extensão rotacional distribuída, no qual a crosta terrestre se deforma para fora a partir de um ponto central fixo — como os dedos de uma mão que se abrem. Os espaços entre esses “dedos” são bacias triangulares que já haviam sido descritas individualmente, mas nunca reconhecidas como partes de um único sistema.
“A extensão rotacional é conhecida em outros contextos tectônicos, mas reconhecer uma feição dessa escala, escondida sob o manto de gelo da Antártida Oriental, é bastante notável”, afirmou ao site Live Science o primeiro autor do estudo, Egidio Armadillo, professor da Universidade de Gênova, na Itália.
De acordo com os autores, a EAFBP pode ser um dos maiores exemplos de extensão rotacional já identificados em crosta continental, e teria se desenvolvido ao longo de múltiplas fases tectônicas ligadas à evolução de Gondwana — supercontinente que começou a se despedaçar há cerca de 180 milhões de anos. Esse estiramento antigo teve ainda consequências em escala continental: a oeste, a compressão provocou o soerguimento das Montanhas Gamburtsev, cordilheira completamente enterrada sob o gelo.
A separação entre Antártida e Austrália
A ruptura entre Antártida e Austrália ocorreu há cerca de 70 milhões de anos, perto do fim do período Cretáceo. Para os pesquisadores, a província em forma de leque pode ter facilitado essa separação ao enfraquecer uma zona ao norte da estrutura, que acabou se rompendo — e o leque pode ter continuado a se expandir mesmo depois da divisão entre os dois continentes.
Por que a descoberta importa hoje
O interesse não é apenas histórico. O relevo do leito rochoso escondido sob o manto de gelo continua influenciando a forma como o gelo flui atualmente e a distribuição de bacias e lagos subglaciais — o que pode afetar a estabilidade de setores particularmente sensíveis do gelo antártico. Como essas bacias estão sob cerca de metade do manto de gelo da Antártida Oriental, os autores apontam que elas são essenciais para entender os processos glaciais e hidrológicos do continente.
Como os cientistas “enxergaram” através do gelo
Para mapear a estrutura, a equipe combinou mapas de radar capazes de penetrar o gelo com levantamentos de gravidade e magnetismo, leituras sísmicas e modelos da crosta e da litosfera. Um dos líderes do trabalho, Guy Paxman, calculou ainda como seria a superfície da Antártida Oriental sem o gelo: aliviado do peso, o terreno subiria até 1 quilômetro.
Apesar do avanço, o estudo deixa perguntas em aberto — em especial sobre a idade exata da formação e os mecanismos geodinâmicos que a originaram — e abre novas frentes de pesquisa sobre a história tectônica da Antártida Oriental.










