Desenvolvida e fabricada inteiramente na China, a gigante da Dongfang Electric bate dois recordes mundiais de uma vez, gera 62 kWh a cada volta das pás e foi projetada para resistir a tufões

magine uma máquina cujo eixo central fica à altura de um prédio de 63 andares e cujas pás, ao girar, varrem um círculo maior que dez campos de futebol. Agora imagine que uma única volta dessas pás gera eletricidade suficiente para suprir uma casa por vários dias. Essa máquina existe, está em operação — e acaba de redesenhar o teto da engenharia eólica mundial.
A fabricante estatal chinesa Dongfang Electric conectou à rede elétrica a maior turbina eólica do mundo, com 26 megawatts (MW) de capacidade, instalada na base de testes e certificação de Dongying, na província de Shandong, no leste da China. Segundo a empresa, o equipamento estabeleceu dois recordes mundiais simultâneos: o de maior capacidade unitária e o de maior diâmetro de rotor já conectados à rede — mais de 310 metros, comparável à altura da Torre Eiffel.
Os números da gigante
A escala da turbina desafia a intuição. Os dados divulgados pela fabricante e pela imprensa estatal chinesa:
- 26 MW de capacidade em uma única máquina — o recorde anterior demonstrado fora da China era de 21,5 MW, na Dinamarca;
- Cubo (centro do rotor) a 185 metros de altura, o equivalente a um edifício de 63 andares;
- 62 kWh gerados a cada rotação das pás;
- Cerca de 100 milhões de kWh por ano em locais com ventos médios de 10 m/s — eletricidade para aproximadamente 55 mil residências;
- Economia estimada de mais de 30 mil toneladas de carvão e corte de cerca de 80 mil toneladas de CO₂ por ano.
E há um detalhe de engenharia pensado para a realidade local: o Mar da China é rota frequente de tufões, e a turbina foi projetada para suportar ventos extremos, com estrutura reforçada, proteção anticorrosão em dupla camada e sistemas que ajustam o ângulo das pás e a orientação do rotor para enfrentar rajadas.

Por que o tamanho importa tanto
A corrida por turbinas cada vez maiores não é vaidade de engenharia — é matemática de custo. No mar, cada turbina exige fundação, cabos, instalação com embarcações especializadas e manutenção própria. Concentrar mais potência em menos máquinas muda o orçamento inteiro do projeto.
A conta apresentada por um executivo da própria Dongfang resume a lógica: em um parque offshore de 500 MW, usar turbinas de 26 MW em vez de 18 MW reduz o número de máquinas em mais de 30% e o custo por quilowatt-hora em mais de 10%. Menos fundações também significam menor impacto no leito marinho e licenciamento ambiental mais simples.
É por isso que analistas tratam a máquina de Shandong como um divisor: ela aponta para parques com menos torres, porém colossais — mais energia por fundação e custo menor por megawatt instalado.
A China na liderança isolada
O recorde consolida um domínio que vinha se desenhando: as maiores turbinas eólicas em operação no mundo hoje são chinesas, e a Dongfang desenvolveu a máquina de 26 MW inteiramente com projeto e fabricação nacionais — dos sistemas de engrenagem aos geradores e controles elétricos.
O contexto ajuda a entender a velocidade: a China definiu metas agressivas de eólica offshore em províncias como Guangdong, opera com custos estimados em cerca de metade dos praticados no Reino Unido (segundo maior mercado do setor) e atingiu, em março de 2026, a marca de 2,4 bilhões de kW em capacidade renovável instalada.
A turbina recordista ainda passa por ensaios de fadiga e confiabilidade antes da certificação completa, e a expectativa do setor é que as primeiras unidades comerciais cheguem aos parques chineses já em 2027 — como base de projetos de mais de 1 GW.
O padrão que se repete
A turbina de Shandong entra para a mesma lista de marcos industriais recentes que vêm redefinindo o tamanho do possível na transição energética — do primeiro motor de grande escala do mundo movido 100% a hidrogênio, ligado à rede elétrica da Espanha, à escavadeira gigante convertida para operação elétrica na Índia.
O fio que conecta os três feitos é o mesmo: a energia limpa deixou a escala de laboratório. Agora ela é medida em centenas de metros, milhares de toneladas — e milhões de casas abastecidas por uma única máquina girando no mar.










