Nascida de uma lenda persa, adotada pela tradição judaica e citada por Abraham Lincoln, a sentença de três palavras tem um truque raro: consola na tragédia e dá humildade na glória — ao mesmo tempo

Conta uma antiga lenda do Oriente que um rei poderoso reuniu os sábios do reino e fez um desafio que parecia impossível: criar uma única frase que fosse verdadeira em qualquer situação da vida — que servisse tanto no dia mais feliz quanto na noite mais escura. Os sábios deliberaram e voltaram com a resposta gravada em um anel, para que o rei a tivesse sempre diante dos olhos: “Isto também passará.”
A história é uma fábula — registrada em versões persas, sufis e judaicas, algumas atribuindo o anel ao rei Salomão —, mas a frase que ela carrega atravessou séculos, línguas e continentes precisamente porque cumpre o que a lenda promete. Poucas sentenças na história humana fazem o que essas três palavras fazem.
O truque raro: uma frase com dois gumes
A genialidade do “isto também passará” está em ser duas frases em uma, dependendo do momento em que é lida:
- No sofrimento, ela consola. A dor, o fracasso, o luto, a crise — nada disso é o estado permanente das coisas. A frase não nega a dor; apenas lembra que ela tem prazo, mesmo quando parece eterna. É a diferença entre estar dentro da tempestade e saber que tempestades acabam;
- Na glória, ela adverte. O sucesso, o auge, o aplauso — também passam. Lida no melhor dia da vida, a mesma frase vira um chamado à humildade e à gratidão: aproveite, porque isto é uma visita, não uma morada.
É esse fio duplo que separa a sentença dos lemas motivacionais comuns. Frases de incentivo costumam funcionar só na subida ou só na descida; o anel da lenda foi forjado para os dois caminhos.
O dia em que Lincoln citou a lenda
A história ganhou seu registro mais famoso em 1859, quando Abraham Lincoln — um ano antes de ser eleito presidente dos Estados Unidos — contou a fábula do monarca oriental e do anel em um discurso em Milwaukee, maravilhado com a precisão da sentença: quanto ela expressa, observou ele, capaz de conter o orgulho no auge e de consolar nas profundezas da aflição.
O detalhe que torna a citação pungente é o que veio depois: Lincoln conduziria o país pela Guerra Civil, a provação mais sangrenta da história americana — e perderia um filho no meio dela. Poucas figuras históricas testaram tanto, na própria vida, a frase que haviam admirado em discurso.
Por que a sabedoria da impermanência aparece em toda parte
O “isto também passará” não é um caso isolado — é a versão mais portátil de uma intuição que as grandes tradições alcançaram por caminhos independentes. O budismo fez da impermanência um pilar central; os estoicos romanos treinavam a mente para lembrar que fortuna e desgraça se revezam; e os provérbios populares do mundo inteiro repetem a lição em dialetos próprios — como o ditado chinês que limita até a fortuna herdada a um ano de felicidade, lembrando que tudo que é recebido se dissolve no hábito.
Quando culturas que nunca se encontraram chegam à mesma conclusão, a hipótese mais honesta é que não se trata de filosofia — e sim de observação. Tudo, de fato, passa. A diferença está em quem se lembra disso a tempo.
Como usar o anel sem ter o anel
A aplicação prática da frase é menos óbvia do que parece, porque exige usá-la nos dois sentidos:
- Na crise, use como horizonte. “Isto também passará” não resolve o problema de hoje — mas impede a mentira que toda crise conta: a de que ela é permanente. Decisões tomadas sob essa mentira (desistir, romper, abandonar) costumam ser as mais arrependidas;
- No auge, use como âncora. No dia da vitória, da promoção, do reconhecimento, a frase protege de dois venenos: a arrogância de achar que o topo é definitivo e a negligência de não saboreá-lo enquanto dura;
- No cotidiano, use como régua. Diante de qualquer aborrecimento, vale a pergunta-teste: “isso vai importar daqui a um ano?”. A maior parte do que rouba a paz de um dia comum não sobrevive à pergunta.
A lenda do rei termina, em algumas versões, com um arremate perfeito: nos momentos de euforia, o anel o entristecia levemente — e nos de desespero, o fazia sorrir. Talvez seja esse o uso correto da frase até hoje: não um calmante, mas um equilibrador. Três palavras que devolvem o presente ao seu tamanho real — nem eterno, nem desprezível. De passagem, como tudo. Como nós.










