Imagine caminhar entre picos nevados, em um lugar remoto da Cordilheira dos Andes, e descobrir que, sob seus pés, ainda pulsa um calor escondido. É exatamente isso que pesquisadores encontraram no complexo vulcânico Incapillo, ou Corona del Inca, na província de La Rioja, na Argentina: sinais de calor interno ativo em um vulcão considerado “adormecido”, o que despertou interesse renovado em seu potencial para energia geotérmica.
Por que o Incapillo voltou a chamar atenção dos pesquisadores
Equipes ligadas ao CONICET e a centros de pesquisa locais estudam há anos os vulcões andinos, mas o Incapillo sempre foi visto como um sistema quase inativo, sem fumarolas, sem jatos de vapor e sem as manifestações visíveis que sugerem atividade recente. As novas evidências mostram, porém, que o subsolo guarda uma reserva de calor silenciosa, que pode ser entendida e, um dia, usada com mais segurança.
Análises de águas, minerais e rochas apontaram a circulação de fluidos quentes no interior do maciço vulcânico, com origem mista: parte vem de chuva e neve infiltradas, parte de fluidos ligados ao magmatismo profundo. Em períodos passados, o sistema chegou perto de 90 °C e, hoje, gira em torno de 40 °C, mantendo uma anomalia térmica contínua que transforma o Incapillo em um reservatório de calor ainda ativo.

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Como funciona a energia geotérmica no dia a dia
A energia geotérmica nasce do calor armazenado no interior da Terra, que aquece a água subterrânea em regiões vulcânicas ou com gradiente térmico elevado. Essa água pode se transformar em vapor ou permanecer como água quente sob pressão, sendo então conduzida por poços até a superfície, onde pode gerar eletricidade ou servir para usos diretos, como aquecimento de prédios e estufas.
Ao contrário de fontes que dependem de sol ou vento, a geotermia pode funcionar de forma estável, dia e noite, o ano todo, servindo como apoio a outras renováveis. Países como Islândia, Itália, Nova Zelândia e Chile já utilizam esse recurso tanto em usinas ligadas à rede quanto em termas, estufas agrícolas e alguns processos industriais, aproximando a população do calor que vem do subsolo.
Qual é a importância do Incapillo para a energia geotérmica na Argentina
Na Argentina, o potencial geotérmico da Cordilheira dos Andes é conhecido há muito tempo, mas segue pouco explorado e ainda não existem usinas comerciais em operação. O caso do Incapillo amplia o mapa de áreas promissoras e mostra que até vulcões tidos como inativos podem esconder sistemas hidrotermais interessantes para futuros projetos de energia limpa.
O estudo na região começou com o interesse de empresas de energias renováveis, que buscavam diversificar a matriz além de parques eólicos e solares. As equipes científicas mostraram que o calor remanescente de antigas erupções pode ser convertido em recurso energético, inspirando novas investigações ao longo da Cordilheira em La Rioja e em outras províncias andinas, com foco também em usos diretos de calor, como aquecimento de casas em áreas frias e apoio à produção agrícola.

Quais etapas aproximam o calor do Incapillo da geração de eletricidade
Descobrir um sistema geotérmico ativo é só o primeiro passo de um caminho longo até a geração elétrica. Entre a ciência e uma usina entram estudos ambientais, avaliações técnicas e cálculos de viabilidade econômica, ainda mais em um lugar acima de 5.500 metros de altitude, com clima extremo e acesso difícil. Para organizar esse processo, pesquisadores e empresas usam um conjunto de etapas que ajudam a reduzir riscos e entender melhor o comportamento do sistema subterrâneo.
- Monitoramento contínuo da atividade térmica, da composição das águas e de possíveis mudanças no sistema hidrotermal.
- Levantamentos geofísicos detalhados para mapear o reservatório de calor, sua profundidade e extensão.
- Perfurações profundas para medir temperaturas, pressão e vazão de água ou vapor em condições mais reais.
- Estudos de impacto ambiental em um ambiente de alta montanha, com ecossistemas frágeis e forte valor paisagístico.
- Análises econômicas considerando investimento, operação, manutenção e conexão à rede elétrica.
Como o Incapillo pode contribuir para o futuro energético argentino
A geotermia exige investimento inicial alto e retorno de mais longo prazo, mas é vista em muitos países como um recurso estratégico na transição para matrizes mais limpas. No contexto argentino, um projeto no Incapillo poderia somar uma fonte de base confiável a eólicas e solares, ajudando na estabilidade do sistema elétrico e oferecendo também opções de uso direto de calor em comunidades de alta montanha.
Assim, o Incapillo deixa de ser apenas lembrado por grandes erupções do passado e passa a ser encarado como um possível aliado na produção de energia renovável. O “gigante silencioso” da Cordilheira entra, aos poucos, no radar de quem planeja o futuro, unindo ciência, desenvolvimento regional e cuidado com o ambiente em um mesmo projeto de longo alcance.







