Parece coincidência, mas não é só isso: a estação do ano em que um bebê nasce pode ter relação com a chance de ele desenvolver alergias ao longo da vida. A ciência investiga esse padrão há décadas, e os resultados são consistentes o suficiente para chamar a atenção de pediatras e alergistas.
A seguir, o que as pesquisas realmente mostram, por que isso acontece e um detalhe essencial que muda tudo para quem nasce no Brasil.
O que os estudos internacionais encontraram
A tendência aparece de forma repetida em diferentes países: bebês nascidos no outono e no inverno apresentam risco maior de alergias — incluindo alergia alimentar, dermatite atópica (eczema), asma e rinite. Já os nascidos na primavera e no verão tendem a ter risco menor.
Estudos de coorte na Suécia, na Austrália, nos Estados Unidos e no Japão chegaram a conclusões na mesma direção. Em uma dessas análises, nascer no outono, em comparação com a primavera, foi associado a um aumento de 14% a 33% no risco de alergia alimentar e de cerca de 6% no risco de eczema — efeitos que persistiram até a adolescência.
Uma pesquisa especialmente interessante veio da Universidade de Southampton, no Reino Unido, liderada pela cientista Gabrielle Lockett. O grupo encontrou “marcas epigenéticas” — alterações que mudam a expressão dos genes sem alterar o DNA em si — associadas à estação de nascimento e ao risco de alergia. Em outras palavras: a época do nascimento parece deixar uma assinatura biológica ligada à tendência alérgica.

Por que a estação faria diferença
Os pesquisadores trabalham com algumas hipóteses, geralmente combinadas:
- Vitamina D e luz solar: bebês nascidos em meses de menos sol recebem menos exposição à luz nos primeiros meses, o que reduz os níveis de vitamina D, nutriente ligado à regulação imunológica.
- Exposição a alérgenos: nascer perto da estação de maior concentração de pólen, ou em meses de ambientes fechados com mais ácaros, pode “treinar” o sistema imune de forma diferente.
- Infecções respiratórias: vírus mais comuns no frio, como o rinovírus, atingem o bebê numa janela sensível do desenvolvimento.
- Nutrição da gestante: a oferta sazonal de frutas e vegetais muda ao longo do ano e pode afetar o ambiente nutricional na gestação.
Esse último ponto reforça como o que a mãe come ao longo da gravidez pode pesar no desenvolvimento da criança.
O detalhe que muda tudo para o bebê brasileiro
Aqui está o ponto que quase nenhuma matéria menciona — e que faz toda a diferença. Esses estudos foram feitos no hemisfério norte, onde as estações são invertidas em relação ao Brasil.
Por isso, traduzir “nascer no outono é mais arriscado” para uma data fixa do calendário não funciona. O que importa não é o mês em si, mas a estação correspondente:
- No hemisfério norte, o inverno (mais arriscado) vai de dezembro a fevereiro.
- No Brasil, o inverno acontece entre junho e setembro — exatamente o oposto.
Ou seja, se a lógica científica vale por aqui, o período de menor risco de alergias tende a coincidir com a primavera e o verão brasileiros — grosso modo, de setembro em diante —, quando há mais luz solar e mais vitamina D. Já os meses frios, de outono e inverno, seriam os de maior atenção.
A relação entre frio, pele e proteção é, aliás, conhecida: não à toa, dermatologistas dão orientações específicas para o inverno, estação em que a pele tende a ficar mais sensível.
Importante: tendência não é destino
Antes de qualquer conclusão apressada, vale o alerta que os próprios cientistas fazem. A associação entre estação de nascimento e alergia é estatística e relativamente modesta — alguns estudos, inclusive, não encontraram relação clara.
Fatores muito mais decisivos para o risco alérgico de uma criança incluem:
- Histórico de alergias na família (genética)
- Tipo de parto e amamentação
- Idade de introdução de diferentes alimentos
- Presença de eczema precoce
- Exposição a animais e ao ambiente doméstico
Ou seja, nenhuma família deve planejar (ou se preocupar com) a data de nascimento por causa disso. O mês em que o bebê nasce é, no máximo, um fio fino dentro de uma trama muito maior.
O que fazer com essa informação
Mais útil do que mirar o calendário é cuidar do que de fato se pode controlar: acompanhamento pré-natal, amamentação quando possível, atenção à vitamina D nos meses frios (sempre com orientação médica) e observação de sinais precoces de alergia, como eczema nos primeiros meses.
No fim, a estação de nascimento é uma curiosidade científica genuína — mas a saúde alérgica de uma criança se constrói muito mais no dia a dia do que no dia em que ela nasceu.










