Em setembro de 2009, o presidente Lula anunciou ao mundo que o Brasil compraria 36 caças franceses Rafale. O negócio estava fechado, celebrado, quase assinado. Quatro anos depois, o país anunciou a compra de 36 caças suecos. A França perdeu um contrato bilionário que já considerava seu, e a reviravolta envolveu um relatório técnico ignorado, uma revelação de espionagem e uma pergunta que nenhum concorrente quis responder de verdade. Aqui está a história de como o Gripen venceu.
Por que o Brasil precisava de caças novos?
A urgência não era nova. Ela se arrastava havia décadas, e o país ia empurrando com o cotovelo.
Desde o início dos anos 1990 a Força Aérea sabia que a vida útil dos Mirage III e dos F-5 estava terminando. O programa FX-BR nasceu em 1991, e nada foi decidido. Como remendo, o Brasil modernizou os F-5 e comprou 12 Mirage 2000 de segunda mão dos estoques franceses, operados entre 2005 e 2013. Era solução provisória para um problema permanente.

O que o Brasil realmente queria?
Aqui está a chave que explica todo o resultado, e ela não é sobre o avião.
Em 2006 nasceu o FX-2, e desta vez com uma exigência diferente: transferência completa de tecnologia, direito de produzir a aeronave no Brasil sob licença e permissão para exportar ao mercado sul-americano. O Brasil não queria comprar caças. Queria aprender a fazer caças. Essa distinção decidiu tudo.
Quem estava na disputa?
A final reuniu três gigantes, cada um com uma proposta bem diferente.
Os finalistas eram:
- Dassault Rafale, francês, bimotor, tecnicamente robusto e caro.
- Boeing F/A-18 Super Hornet, americano, testado em combate.
- Saab JAS 39 Gripen E, sueco, monomotor e ainda em desenvolvimento.
- O Sukhoi Su-35 russo chegou a ser cogitado, mas era incompatível com os sistemas nacionais.
- O processo se arrastou por mais de dez anos.
Finalistas do FX-2: O que pesou na balança?
Clique nos modelos para entender as características que definiram a escolha da FAB:Por que a França achou que tinha ganhado?
Porque, em certo sentido, tinha. E esse é o detalhe que a maioria das pessoas esqueceu.
Em 8 de setembro de 2009, Lula anunciou a compra de 36 Rafale por US$ 4 bilhões, mas a decisão presidencial contrariava o relatório do Comando da Aeronáutica, que preferia o Gripen. O pacote incluía acordos de helicópteros e submarinos, e em contrapartida os franceses comprariam 10 cargueiros KC-390, que a Embraer começava a desenvolver. Era um arranjo político completo. O acordo não foi adiante.
O que derrubou a proposta francesa?
Não foi falta de generosidade. A França ofereceu bastante, e ainda assim não bastou.
O Rafale tinha custo operacional proibitivo, muito acima do concorrente sueco. E havia um problema estrutural que pesou nos bastidores: a própria França vinha cortando suas encomendas de Rafale. Comprar um avião que o fabricante estava deixando de comprar levantava dúvidas sobre a continuidade do programa. A Suécia, ao contrário, seguia adquirindo mais Gripens.
E os americanos?
A proposta dos Estados Unidos era a mais madura tecnicamente e a mais fraca no que interessava.
O Super Hornet era testado em combate e confiável, mas trazia transferência de tecnologia limitada e nenhuma montagem local. O custo operacional era altíssimo, na casa de US$ 22 mil por hora de voo, contra cerca de US$ 4.500 do Gripen. A Boeing queria vender um produto pronto. O Brasil queria um sócio.
Qual foi o diferencial sueco?
A Saab respondeu sim à pergunta que os outros contornavam com elegância.
A proposta sueca era a única que cumpria todos os requisitos: transferência irrestrita de tecnologia, direitos integrais de produção no Brasil e acesso aos códigos-fonte. Esse último item é o mais estratégico de todos, porque permite ao país integrar armamentos de sua escolha sem pedir autorização a ninguém. É a diferença entre ter um avião e ter soberania sobre ele.
O que foi dito no anúncio?
A justificativa oficial foi técnica, e o então ministro fez questão de detalhar os critérios.
Em 18 de dezembro de 2013, o ministro da Defesa Celso Amorim anunciou o Gripen como vencedor, afirmando que a escolha levou em conta performance, transferência efetiva de tecnologia e custos de aquisição e manutenção. Pesaram também as contrapartidas comerciais oferecidas pela Saab, conforme prevê a Estratégia Nacional de Defesa.

O que a espionagem tem a ver?
Este é o capítulo que virou lenda, e convém tratá-lo com precisão.
Em 2013, as revelações de Edward Snowden mostraram que a NSA monitorava comunicações da presidente Dilma Rousseff, que cancelou sua visita de Estado a Washington em outubro daquele ano. Dois meses depois veio o anúncio do Gripen. É tentador reduzir a decisão a represália, mas seria erro: a Força Aérea já preferia o sueco havia anos, e o relatório técnico apontava nessa direção desde 2009. A espionagem não criou a escolha, apenas removeu o obstáculo político que a segurava.
O que o Brasil ganhou com isso?
Treze anos depois, os números permitem avaliar a decisão sem retórica.
O contrato de 36 aeronaves, 28 monopostos F-39E e 8 bipostos F-39F, veio com acordo de compensação avaliado em US$ 9 bilhões. Mais de 350 engenheiros brasileiros foram treinados na Suécia. O programa gerou cerca de 12 mil empregos. Em março de 2026, a Embraer apresentou em Gavião Peixoto o primeiro F-39E inteiramente montado no Brasil, o primeiro de 15 unidades nacionais. O Brasil se tornou o único país fora da Suécia onde o Gripen E é montado.
A escolha se provou certa?
O teste mais eloquente aconteceu no céu do Nordeste, e não em planilha.
Em exercícios militares, os Gripens da FAB enfrentaram F-15 americanos e o desempenho repercutiu na imprensa internacional. O caça atinge cerca de 2.400 km/h, decola em pistas de 500 metros e opera com mísseis Meteor e IRIS-T, além do A-Darter desenvolvido pelo próprio Brasil com a África do Sul. Vale lembrar que a decisão atravessou três governos de espectros distintos, e que projetos assim exigem paciência de décadas, algo que a sabedoria japonesa sobre paciência descreve bem: a água não corta a pedra pela força.

E a França?
A ironia final é que o Rafale se saiu muito bem, só que sem o Brasil.
O caça francês hoje figura entre os mais avançados do mundo e é operado por França, Egito, Índia e Catar. A Dassault perdeu o contrato brasileiro não por inferioridade técnica, mas por não aceitar tratar o Brasil como sócio em vez de cliente. É a diferença entre construir sozinho e construir junto, tema que o provérbio árabe sobre construir com outros resume melhor que qualquer análise: quem constrói sozinho termina mais cedo, mas quem constrói com outros vai mais longe.
O que convém lembrar sobre a escolha do Gripen
O Brasil chegou a anunciar a compra de 36 Rafale franceses em 2009, contrariando o relatório técnico da Aeronáutica, e voltou atrás em 2013. O sueco venceu porque foi o único a oferecer o que o país realmente queria: transferência irrestrita de tecnologia, produção local e acesso aos códigos-fonte. O custo operacional, cinco vezes menor que o do americano, ajudou. A espionagem da NSA não criou a decisão, apenas destravou o que a FAB já preferia. Hoje o Brasil é o único país fora da Suécia que monta o Gripen E.
Este conteúdo tem finalidade informativa e reflete informações públicas disponíveis na data de publicação. Dados de contratos e programas de defesa podem sofrer atualizações; consulte fontes oficiais da FAB e do Ministério da Defesa.
