A figura de Byung-Chul Han tem chamado atenção no debate filosófico contemporâneo por tratar de questões ligadas ao cansaço, tecnologia e trabalho. Esse pensador, de origem sul-coreana e radicado na Alemanha, tornou-se presença constante em discussões sobre hiperconexão, produtividade extrema e impacto do neoliberalismo na vida cotidiana.
Quem é Byung-Chul Han e qual é seu pensamento?
Byung-Chul Han é um filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, conhecido por suas críticas afiadas à sociedade contemporânea — especialmente ao capitalismo neoliberal, à hiperprodutividade, ao excesso de positividade e ao impacto das tecnologias digitais na forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos.
Entre seus temas centrais estão a autocobrança constante, o uso intensivo de smartphones e redes sociais e a transformação do sujeito em gestor de si. Seu diagnóstico aponta para um indivíduo que se explora a si mesmo, se afasta da materialidade do mundo e perde o contato com processos que exigem tempo, paciência e repetição.
Por que o trabalho manual é tão importante para Byung-Chul Han
O trabalho manual aparece em seus livros como uma espécie de resistência à hiperconexão digital e à lógica da aceleração contínua. Para o filósofo, a vida atual é cheia de dados e, ao mesmo tempo, pobre em objetos com história, textura e permanência, o que empobrece a experiência sensível e o próprio ato de pensar.
Ao manusear ferramentas, instrumentos ou plantas, a pessoa retoma o vínculo com aquilo que tem peso, cheiro e marcas do tempo. Essa defesa do trabalho artesanal se articula com a ideia de “demorar-se”: processos lentos, como cavar a terra ou praticar piano, unem corpo e mente e fazem do pensamento um gesto concreto, ligado ao ritmo e à repetição.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo do Fernando Bernardo (@beluthier):
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Como o trabalho manual contribui em um mundo dominado pelos smartphones
Um dos alvos constantes de Byung-Chul Han é o smartphone, descrito como símbolo máximo da hiperconexão e da disponibilidade permanente. Mensagens, aplicativos e redes sociais competem pela atenção, criando um estado de alerta contínuo em que qualquer intervalo de silêncio é rapidamente preenchido por novos estímulos.
Nesse cenário, o trabalho manual funciona como contraponto, ao deslocar a pessoa desse regime de urgência e reconduzi-la a um tempo mais lento. Atividades como cozinhar, montar uma bicicleta ou cuidar de um jardim favorecem um estado de concentração profunda, próximo ao chamado “fluxo”, em que a percepção do tempo muda e a presença no aqui e agora se intensifica.
Quais tipos de trabalho manual se encaixam na visão de Byung-Chul Han
O debate em torno do trabalho manual não se restringe a profissões específicas, mas inclui tanto ofícios tradicionais quanto hobbies cotidianos. Han e outros estudiosos sugerem práticas que combinam técnica, repetição e cuidado, permitindo que a pessoa se envolva com materiais concretos e veja o resultado de seu esforço.
Entre as práticas citadas com frequência, que ilustram bem essa dimensão artesanal e meditativa do fazer, estão:
- Cultivar um jardim ou cuidar de plantas em casa;
- Cozinhar com calma, do preparo dos ingredientes à finalização;
- Costurar, bordar ou fazer trabalhos têxteis;
- Consertar objetos, montar móveis ou restaurar peças antigas;
- Tocar instrumentos musicais e praticar regularmente;
- Trabalhos de madeira, cerâmica ou outros tipos de artesanato.

Quais são os possíveis efeitos do trabalho manual na vida cotidiana
A centralidade do trabalho manual no pensamento de Byung-Chul Han aponta para efeitos observáveis no dia a dia, como rotinas mais ancoradas em ritmos naturais. Estações do ano na jardinagem, tempos de cozimento na culinária e a repetição diária de estudos musicais ajudam a criar continuidade, em contraste com a sucessão rápida de estímulos digitais.
Além disso, tarefas manuais favorecem um tipo de concentração unificada, em que o foco se dirige a um único objeto: a planta que precisa ser regada, a peça que está sendo lixada ou a massa que precisa ser sovada. Assim, corpo inteiro e atenção trabalham juntos, reduzindo a dispersão e oferecendo, uma estratégia concreta para reorganizar o cotidiano sem nostalgia, mas como alternativa crítica ao modelo de produtividade incessante.









