Com mais de 34 mil km² de área, Porto Velho é maior que a Bélgica inteira. A capital de Rondônia nasceu sobre trilhos americanos à beira do Rio Madeira e guarda, entre locomotivas enferrujadas e pores do sol dourados, uma história que pouca gente conhece.
A ferrovia que deu nome de “Diabo” à Amazônia
Em 4 de julho de 1907, o magnata norte-americano Percival Farquhar fincou os primeiros barracões para construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM). A obra ligaria Porto Velho a Guajará-Mirim ao longo de 366 km de selva, rios e doenças tropicais. As condições eram tão severas que a ferrovia ganhou o apelido de “Ferrovia do Diabo”.
Inaugurada em 1912, a EFMM atraiu trabalhadores de mais de 50 nacionalidades. Até a década de 1920, ordens de serviço, cardápios de restaurantes e o primeiro jornal da cidade, o The Porto Velho Times, eram escritos em inglês. O idioma funcionou como língua franca enquanto engenheiros britânicos e americanos comandavam as operações, segundo registros do Governo de Rondônia.

Como é o dia a dia na capital rondoniense?
Porto Velho reúne cerca de 460 mil habitantes, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Aproximadamente 40% da população nasceu fora de Rondônia, o que torna a cidade uma das capitais mais diversas do Norte. Nordestinos, sulistas, bolivianos e ribeirinhos convivem e misturam sotaques, temperos e costumes.
A economia gira em torno do agronegócio, do comércio forte e da energia gerada pelas usinas hidrelétricas do Madeira. O PIB per capita alcançou R$ 55.170 em 2023. A Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e o Instituto Federal de Rondônia (IFRO) sustentam a formação de mão de obra local. A cidade enfrenta desafios sérios em saneamento básico e segurança, áreas em que os índices ainda ficam abaixo da média das capitais brasileiras. Mesmo assim, o ritmo de crescimento econômico e os investimentos em infraestrutura vêm mudando o cenário nos últimos anos.
A maior capital em área do Brasil guarda histórias fascinantes às margens do Rio Madeira. O vídeo é do canal Rolê Família, referência com mais de 250 mil inscritos, e apresenta as Três Caixas D’Água, a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e a observação de aves:
O que visitar entre locomotivas e o Rio Madeira?
A capital amazônica surpreende quem espera apenas calor e floresta. O patrimônio histórico divide espaço com parques revitalizados e uma orla que oferece um dos pores do sol mais bonitos do Norte.
- Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré: museu interativo com mais de 300 peças, pátio de locomotivas históricas, mirante para o Rio Madeira e passeio de litorina pelos trilhos originais. Entrada gratuita, funcionamento diário.
- Praça das Três Caixas D’Água: reservatórios metálicos trazidos dos Estados Unidos pelos ingleses no início do século XX, hoje símbolo oficial da cidade.
- Mercado Cultural: boxes de tacacá, tapioca e caldeirada, com apresentações culturais e vista para o centro histórico.
- Ecoparque Pirarucu: área verde revitalizada para caminhadas, esportes e convívio familiar.
- Passeios de barco pelo Rio Madeira: saídas do complexo ferroviário com vista das comunidades ribeirinhas e da floresta de várzea.

Tambaqui, tacacá e a tremedeira do jambu
A mesa porto-velhense mistura influências indígenas, ribeirinhas, nordestinas e bolivianas. O peixe é protagonista absoluto, servido frito, assado na brasa ou em caldeiradas com tucupi e jambu.
- Tambaqui assado na folha de bananeira: prato-símbolo da cidade, servido com pirão, baião de dois e farofa nos restaurantes à beira do Madeira.
- Tacacá: caldo quente de tucupi com goma de tapioca, camarão seco e jambu, que provoca a famosa dormência nos lábios. O Tacacá da Inês serve a receita desde 1957.
- Caldeirada amazonense: ensopado de dourado ou pirarucu com batata, pimentão e temperos regionais.
- Saltenha: empanada boliviana recheada de carne e caldo, herança da vizinhança com a Bolívia, a apenas 328 km por Guajará-Mirim.

Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O clima é tropical superúmido, com temperatura média anual de 25,6 °C e chuvas que ultrapassam 2.000 mm por ano. Entre junho e agosto, massas de ar polar provocam as “friagens”, derrubando os termômetros para abaixo de 15 °C por alguns dias.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à capital de Rondônia?
O Aeroporto Internacional Governador Jorge Teixeira de Oliveira recebe voos regulares de Brasília, Manaus, Rio Branco e outras capitais. Por terra, a BR-364 liga Porto Velho a Cuiabá (1.456 km) e a Rio Branco (544 km). Quem vem de barco desce o Madeira a partir de Manaus, numa viagem de três a quatro dias que é, por si só, uma experiência amazônica.
A capital que pulsa entre trilhos e rio
Porto Velho carrega contradições de uma cidade amazônica em transformação: riqueza natural de sobra, economia em expansão e desafios urbanos que ainda pedem solução. O que não falta é personalidade. A mistura de povos, o Rio Madeira tingido de laranja no fim da tarde e uma gastronomia que dá dormência na boca fazem desta capital um lugar difícil de esquecer.
Você precisa ver de perto o pôr do sol no Madeira, provar um tacacá às cinco da tarde e caminhar pelos trilhos onde a Amazônia engoliu uma ferrovia inteira.







