Em 1956, o vice-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, pousou num pequeno aeroclube no interior do Rio de Janeiro e comparou o que viu a “Pittsburgh brasileira”. A cidade era Volta Redonda, e o aço que saía de suas fornalhas já estava moldando pontes, metrôs e avenidas pelo país inteiro.
Uma cidade que nasceu de um acordo de guerra
Antes da usina, o povoado de Santo Antônio de Volta Redonda era distrito de Barra Mansa e vivia de fazendas de café. O nome veio da curva que o Rio Paraíba do Sul desenha no vale, batizada pelos primeiros desbravadores em 1744.
Tudo mudou em 1940, quando Getúlio Vargas negociou com os Estados Unidos o financiamento de uma grande siderúrgica. O Brasil cedeu bases militares no Nordeste para tropas aliadas na Segunda Guerra Mundial e, em troca, recebeu US$ 20 milhões do Export-Import Bank americano. A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) foi criada em 9 de abril de 1941 e começou a operar em 1946. Vargas não esteve na inauguração: já havia sido deposto.

O que a Vila Santa Cecília guarda da era modernista?
Junto com a usina, Vargas mandou planejar uma cidade inteira para os operários. A Vila Santa Cecília ganhou traçado modernista de Attilio Corrêa Lima, o mesmo arquiteto que desenhou Goiânia. Ruas arborizadas, calçadas largas e um corredor de edifícios que inclui o Cine 9 de Abril, com mais de mil lugares, e uma agência do Banco do Brasil projetada por Oscar Niemeyer.
Na Praça Brasil, um obelisco de 27 metros e mais de 900 toneladas de granito homenageia a siderurgia com gravações em alto-relevo das etapas de fabricação do aço. Ali perto, na Praça Juarez Antunes, está o Memorial 9 de Novembro, também de Niemeyer. O monumento foi inaugurado em 1º de maio de 1989 e, na madrugada seguinte, dinamitado com 30 quilos de explosivos. A pedido do próprio arquiteto, a obra foi reerguida com as cicatrizes à mostra.

O que visitar na Cidade do Aço?
A paisagem industrial divide espaço com mata preservada e equipamentos culturais. Algumas atrações ficam a poucos minutos do centro.
- Zoológico Municipal: único zoo gratuito do interior do estado, com 150 mil m² de área verde junto à Mata Atlântica. O recinto de imersão permite contato direto com aves em visitas guiadas.
- Parque Natural Municipal Fazenda Santa Cecília do Ingá: 211 hectares de mata remanescente com trilhas ecológicas, visitas agendadas e rotas para ciclistas.
- Memorial 9 de Novembro: lâmina de concreto de Niemeyer que carrega as marcas do atentado de 1989, símbolo da resistência operária.
- Cine 9 de Abril: exemplar de arquitetura modernista inaugurado na data de criação da CSN, com fachada preservada.
- Chaminé do Engenho de Açúcar: ruína de 1903, anterior à usina, restaurada em 2002 com tijolos fabricados pela técnica original. Um fragmento da Volta Redonda que existia antes do aço.
Volta Redonda vai além do aço. O vídeo é do canal De fora em Juiz de Fora, que conta com mais de 200 mil inscritos, e explora a maior cidade do Sul Fluminense, da história da CSN aos shoppings:
Uma rocha vulcânica escondida na rodovia
Poucos visitantes sabem, mas Volta Redonda abriga um afloramento de ankaramito, rocha vulcânica formada há cerca de 49,5 milhões de anos pela ascensão de magma por fraturas profundas na crosta terrestre. O principal registro fica na Rodovia dos Metalúrgicos, no bairro Jardim Tiradentes. A ocorrência foi documentada por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e apresentada no 51º Congresso Brasileiro de Geologia.
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Quando visitar a cidade siderúrgica?
O vale do Paraíba concentra calor no verão e seca no inverno. Manhãs de outono e inverno são as mais agradáveis para caminhadas ao ar livre.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Volta Redonda?
A Cidade do Aço fica a 127 km do Rio de Janeiro pela Rodovia Presidente Dutra (BR-116), cerca de 1h40 de carro. De São Paulo, são aproximadamente 320 km pela mesma rodovia. Ônibus intermunicipais partem das rodoviárias das duas capitais com frequência diária.
A cidade que o aço forjou e a história não deixa esquecer
Volta Redonda carrega no nome a curva do rio e, na paisagem, as marcas de quase um século de indústria, luta operária e natureza resistente. A combinação de memorial de Niemeyer, mata atlântica preservada e um zoológico gratuito no coração urbano é rara no interior fluminense.
Você precisa cruzar a Dutra, entrar no vale e sentir de perto a cidade que ajudou a construir o Brasil moderno.










