Uma passageira leva um esbarrão no corredor do ônibus lotado, cambaleia, se firma na barra e diz “desculpa” para o homem que a empurrou. O homem nem responde. A passageira não existe fora deste parágrafo, mas o gesto existe em qualquer coletivo em horário de pico, e é dele que trata a discussão a seguir.
Em 2010, dois pesquisadores da Universidade de Waterloo, no Canadá, decidiram medir esse hábito em vez de opinar sobre ele. Karina Schumann e Michael Ross publicaram na revista Psychological Science, volume 21, número 11, páginas 1649 a 1655, um trabalho com dois estudos sobre uma pergunta vizinha à das pessoas que pedem desculpa o tempo todo: por que mulheres se desculpam mais que homens. O resultado bateu de frente com a explicação mais repetida no senso comum, a de que se trata de gente mais educada ou mais insegura.
O que a dupla mediu não foi quanta desculpa cada pessoa oferece. Foi quantos episódios do dia cada pessoa registra como ofensa antes de decidir se aquilo merece um pedido de desculpa.
Quanto Waterloo contou de desculpas em 12 noites de diário?
O primeiro estudo é de diário, sem laboratório e sem vinheta. Schumann e Ross recrutaram 66 estudantes de graduação, 33 mulheres e 33 homens, no pool de participantes do departamento de psicologia da Universidade de Waterloo. Durante 12 noites seguidas, cada um anotava antes de dormir as ofensas que tinha cometido e as que tinha sofrido naquele dia, e se houve pedido de desculpa em cada episódio. Somados os 12 dias, as mulheres relataram ter pedido desculpa 217 vezes e ter cometido 267 ofensas; os homens relataram 158 desculpas e 196 ofensas. Lidos assim, isolados, os números confirmariam o estereótipo de que elas se desculpam mais.
Por que dividir uma coluna pela outra mudou a conclusão?

O artigo não parou na soma: dividiu uma coluna pela outra. Quando os autores calcularam a fração de ofensas que terminaram em pedido de desculpa, o valor foi 0,81 nas mulheres e 0,81 nos homens, com estimativa de diferença de 0,01 e p igual a 0,86 no teste relatado no artigo da Psychological Science.
Em outras palavras, dado que a pessoa já classificou o próprio comportamento como ofensivo, a chance de vir a desculpa é a mesma nos dois grupos. O resumo do estudo registra que “não houve diferença entre os sexos na proporção de ofensas que geraram desculpas”, em tradução livre. Dessa igualdade sai a hipótese central: o que varia não é a disposição de se desculpar, é o tamanho da lista de episódios que entram na conta como ofensa. Quem tem o limiar mais baixo enxerga ofensa em cotovelada de ônibus, em atraso de dois minutos, em resposta seca de mensagem, e por isso acumula mais ocasiões em que a desculpa parece devida.
Como a gravidade percebida foi medida no segundo estudo?
Para testar a hipótese do limiar, a dupla precisava sair do diário e comparar julgamentos sobre um mesmo episódio.
O segundo estudo reuniu 120 universitários, 63 mulheres e 57 homens, com idades de 17 a 27 anos. Eles avaliaram, em escala de 7 pontos, a gravidade de ofensas imaginadas descritas em cenários iguais para todos, e também de ofensas que tinham vivido. Nos cenários imaginados, a média das mulheres ficou em 5,10 contra 4,75 dos homens; nas ofensas recordadas, 3,69 contra 2,92, ambas as diferenças com p de 0,02, segundo o texto de Schumann e Ross. E o ponto que fecha o raciocínio já aparece no resumo do próprio artigo: “essas avaliações diferentes de gravidade previram tanto o julgamento de que a desculpa era merecida quanto o comportamento de pedir desculpa”, também em tradução livre. Você pode ler o texto completo do artigo de 2010 em PDF, hospedado pelo laboratório que a autora dirige hoje na Universidade de Pittsburgh.
Que limites tem uma amostra de universitários canadenses?
Vale marcar o tamanho do que foi medido, antes que a conclusão vire regra de bolso.
Os dois estudos foram feitos com estudantes de graduação de uma única universidade canadense, 66 pessoas no diário e 120 no experimento de avaliação, todos jovens, e todos relatando os próprios episódios de memória. Isso não desmonta o achado, mas impede duas leituras apressadas. Cabe acrescentar que, até onde se sabe, ninguém publicou uma replicação direta desses dois estudos. A primeira é tratar o limiar como traço de personalidade: o desenho da pesquisa compara médias de dois grupos, não classifica indivíduos. A segunda é transformar o resultado em diagnóstico de quem se desculpa demais, coisa que os autores em momento nenhum fizeram. A pesquisa que originou os dois estudos está depositada em acesso aberto no repositório da Universidade de Waterloo, com o detalhamento das análises.
Quem convive com alguém assim tem o que fazer?
A leitura prática do estudo é menos sobre corrigir o outro e mais sobre entender o que está sendo comparado. A régua de cada um é invisível, e é ela, não o caráter, que aparece quando alguém acha que o outro se desculpa demais.
- Separar as duas funções da palavra: em português, “desculpa” funciona como lubrificante social, no lugar de “com licença” ou “obrigado pela espera”, e também como assunção de culpa. Só a segunda pesa.
- Observar o objeto da desculpa: pedir desculpa pela chuva, pelo trânsito ou pelo erro de outra pessoa indica um limiar que está contando como ofensa própria coisas fora do próprio controle.
- Trocar a fórmula quando ela não descreve nada: no trabalho, “obrigado por esperar” entrega a mesma cortesia de “desculpe a demora” sem registrar uma falta que talvez não exista.
- Não ler o excesso como fraqueza: o achado de Waterloo é de percepção, e quem percebe mais ofensa também tende a considerar que mais gente merece reparo.
Esse mesmo mecanismo de contabilidade interna aparece em outros hábitos de convivência que o CB Radar já destrinchou, como o de repetir agradecimentos por gentilezas mínimas, que a sociologia da reciprocidade lê como sensação de dívida. O espelho invertido também existe: quem responde a um desabafo lembrando que existe gente em situação pior está mexendo na mesma régua, só que para baixo e apontada para si mesmo.
O que convém lembrar sobre pessoas que pedem desculpa o tempo todo?
A distinção vem antes do julgamento: contar quantas vezes alguém pede desculpa não diz nada sem saber quantos episódios essa pessoa classificou como ofensa. Se o incômodo é seu, repare no objeto da frase e substitua a desculpa por agradecimento quando não houve falta. Se o incômodo é com outra pessoa, exija a mudança do que é concreto, o atraso, o combinado quebrado, e não do número de desculpas. E quando o assunto for o resultado de Waterloo em uma conversa, cite o que ele mede: entre homens e mulheres, a proporção de ofensas que viraram desculpa foi a mesma, 0,81, e o que mudou foi o limiar do que cada grupo classificou como ofensa.
Este texto tem alcance informativo e se apoia em um artigo revisado por pares de 2010 e na pesquisa acadêmica que lhe deu origem, ambos com amostra de estudantes canadenses. O que a pesquisa autoriza a dizer é que, na média de dois grupos, a diferença apareceu no que cada grupo contou como ofensa, e não na disposição de reparar. Aplicar isso a uma pessoa específica é leitura de quem lê, não resultado de laboratório. Sofrimento persistente com culpa ou com conflitos do dia a dia é assunto para um profissional de saúde mental, não para um teste de leitura.




