Sentir medo em situações controladas, como ao assistir a um filme de terror, jogar um game assustador ou entrar em uma casa assombrada de parque temático, tornou-se um hábito comum em diferentes faixas etárias. Em vez de fugir dessas experiências, muitas pessoas as buscam ativamente, reservam ingressos antecipados e acompanham estreias de produções voltadas ao suspense e ao horror, como uma forma de explorar emoções intensas sem enfrentar um risco real.
O que é o medo controlado e como ele afeta o corpo
Do ponto de vista científico, o medo está entre as emoções básicas que ajudam o organismo a reagir a possíveis ameaças e garantir a sobrevivência. Quando o cérebro interpreta algo como perigoso, mesmo que seja uma cena fictícia, uma cadeia de reações fisiológicas é acionada: o coração acelera, a respiração muda e o corpo entra em estado de alerta imediato, como trouxe a pesquisa “(Why) Do You Like Scary Movies? A Review of the Empirical Research on Psychological Responses to Horror Films”.
Em ambientes seguros, como uma sala de cinema ou o sofá de casa, essa resposta intensa é ativada, mas com a consciência de que não há risco concreto. Surge então um cenário curioso: o indivíduo sente medo e, ao mesmo tempo, sabe que continua protegido, o que permite vivenciar a emoção de forma monitorada e, muitas vezes, até agradável.
Por que o cérebro gosta de sentir medo sem perigo real
A principal palavra-chave para entender esse fenômeno é o medo controlado, em que estímulos ameaçadores são processados em um contexto de segurança. Estruturas como a amígdala avaliam sons, imagens e situações de risco e disparam o mecanismo de luta ou fuga, mas o contexto social e racional sinaliza que não é preciso agir para se defender de fato.
Estudos em neurociência indicam que, durante uma cena assustadora, áreas ligadas ao medo e ao prazer podem ser ativadas em conjunto, gerando um ciclo de tensão e alívio. Em filmes de terror, a trilha sonora, a iluminação e o ritmo das cenas aumentam a antecipação do susto; quando o momento crítico passa e o perigo se revela fictício, o sistema nervoso reduz a tensão, o que pode ser percebido como uma forma de prazer e excitação emocional.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo da psicóloga Isabela Leal (@psiisabelaleal):
@psiisabelaleal Por que será que algumas pessoas amam filmes de terror e outras não conseguem nem pensar em assistir? ⠀ Nesse vídeo, eu falo sobre o que a psicologia diz sobre o nosso fascínio (ou repulsa) por histórias assustadoras e o que isso pode revelar sobre a gente. ⠀ Já pensou que o terror pode ser uma forma segura de lidar com emoções intensas, explorar curiosidades e até refletir sobre a nossa realidade? ⠀ Assiste e depois me conta: Você curte terror? O que te atrai ou te afasta desse gênero? #psicologia #terror #filmesdeterror #psicologiadomedo #reflexão #tiktokedu #cinemaepsicologia ♬ som original – Isabela Leal l Psicóloga
Como o cérebro aprende com situações de perigo simuladas
Pesquisas recentes mostram que o cérebro é capaz de aprender com ameaças simuladas, mesmo quando a pessoa sabe que se trata de ficção. Nesses contextos, o indivíduo observa estratégias de enfrentamento, identifica padrões de risco e testa, mentalmente, como reagiria em cenários extremos, como perseguições, desastres ou ataques de monstros.
Assim, o entretenimento de horror funciona como um verdadeiro laboratório emocional, em que é possível treinar respostas sem se expor a danos concretos. Essa prática pode contribuir para o desenvolvimento de resiliência psicológica, ampliando a tolerância à incerteza, ao estresse e a situações de ansiedade do cotidiano.
Como o entretenimento usa o medo a favor do público
A indústria cultural explora o chamado medo recreativo de várias maneiras, indo de filmes e séries a jogos eletrônicos e atrações de parques. Nessas produções, recursos visuais e sonoros intensificam a sensação de ameaça, mas sempre dentro de um ambiente controlado, em que o público tem consciência de estar participando de uma experiência ficcional e momentânea.
Roteiristas e diretores recorrem a arquétipos narrativos presentes em mitos, contos de fadas e lendas urbanas, que há séculos abordam monstros, perseguições e catástrofes. Em jogos de terror, o fator interativo adiciona um componente de responsabilidade, pois a pessoa não apenas assiste, mas toma decisões, o que eleva a sensação de envolvimento emocional e de perigo simbólico.
Quais formas de entretenimento mais exploram o medo
Nesses contextos, o medo funciona como ferramenta narrativa e também como recurso comercial, já que a busca por experiências intensas move bilheterias, plataformas de streaming e lançamentos de jogos. Abaixo, alguns dos principais formatos culturais que utilizam o medo como elemento central de engajamento e reflexão simbólica:
- Cinema de terror: trabalha com enquadramentos, som e ritmo para provocar sobressaltos e criar suspense prolongado.
- Jogos eletrônicos: colocam a pessoa no centro da ação, exigindo escolhas em situações ameaçadoras e explorando a imersão interativa.
- Parques temáticos: simulam cenários assustadores, como casas mal-assombradas e montanhas-russas radicais, gerando medo físico e psicológico.
- Histórias e lendas: utilizam o medo para transmitir alertas, moralidades e regras sociais de forma simbólica e memorável.
Ainda assim, pesquisadores destacam que essa busca não decorre apenas de publicidade ou moda passageira, mas de uma necessidade humana de lidar simbolicamente com o perigo, a finitude e o desconhecido, tornando o medo um componente central da cultura.

O medo faz parte do desenvolvimento emocional ao longo da vida
Psicólogos e psicanalistas apontam que o contato com o medo, mesmo em histórias ficcionais, acompanha o indivíduo desde a infância. Contos tradicionais, fábulas e mitos costumam incluir personagens ameaçadores, situações de perda e cenas de tensão, ajudando a apresentar desafios de maneira simbólica e a elaborar temas como separação, morte, rejeição ou fracasso.
Na vida adulta, o medo simbólico continua presente em diferentes formatos culturais, como filmes, séries e até pesadelos. Especialistas sugerem que os sonhos assustadores são um espaço em que o cérebro reorganiza memórias, medos antigos e preocupações atuais, criando enredos perturbadores enquanto o corpo permanece em repouso, o que pode auxiliar a processar experiências difíceis e preparar o organismo para desafios futuros.
- O cérebro detecta um possível perigo, real ou imaginário.
- Ativa estruturas ligadas à resposta de luta ou fuga.
- Em contexto seguro, a pessoa percebe que não há ameaça concreta.
- O sistema nervoso reduz gradualmente a tensão fisiológica.
- A experiência pode ser reinterpretada como excitante, gratificante ou até catártica.
Assim, o interesse por filmes de terror, jogos de suspense e atrações que provocam frio na barriga se relaciona com a forma como o cérebro equilibra proteção, curiosidade e busca por estímulos intensos. Ao experimentar o medo em ambientes controlados, a pessoa explora limites emocionais, treina respostas e encontra maneiras de representar, com segurança, aquilo que mais preocupa, intriga ou desafia a mente humana.









