Aos pés da Serra de São José, a 927 metros de altitude, Tiradentes preserva ruas de pedra, casarões simétricos e igrejas barrocas praticamente iguais ao que eram no século XVIII. O nome veio em 1889, após a Proclamação da República, mas não há registro de que o alferes Joaquim José da Silva Xavier tenha passado por ali.
Do ouro ao abandono que salvou a cidade
Tudo começou em 1702, quando bandeirantes paulistas encontraram ouro nas encostas da serra. O arraial cresceu, virou Vila de São José em 1718 e floresceu durante décadas. Com o esgotamento das minas, a cidade esvaziou. Casarões ruíram, ruas foram tomadas por mato.
Paradoxalmente, foi esse abandono que preservou o traçado original. Sem dinheiro para demolir e reconstruir, o núcleo colonial chegou quase intacto ao tombamento pelo IPHAN em 1938. Na década de 1980, o próprio instituto instalou um escritório técnico e liderou a restauração que transformou Tiradentes no destino que conhecemos hoje.

O que visitar nas ruas de pedra e além da serra?
O centro histórico se percorre a pé em poucas horas, mas os detalhes pedem calma. Há igrejas com séculos de talha dourada, museus instalados em prédios coloniais e trilhas na serra que revelam mirantes com vista do vale inteiro.
- Igreja Matriz de Santo Antônio: construída a partir de 1710, guarda 482 kg de ouro nos altares e na capela-mor. A fachada tem esculturas atribuídas a Aleijadinho, e o órgão português de 1788 é considerado um dos 15 mais importantes do mundo. Às sextas-feiras, ele é tocado em concertos abertos ao público.
- Chafariz de São José: datado de 1749, trabalhado em quartzito com elementos barrocos, ainda fornece água potável vinda das nascentes da serra por um aqueduto de pedra.
- Museu de Sant’Ana: instalado na antiga cadeia pública, reúne mais de 200 imagens da santa protetora da família, produzidas entre os séculos XVII e XIX.
- Largo das Forras: praça central onde escravos recebiam cartas de alforria. Hoje concentra restaurantes, ateliês e o burburinho da cidade.
- Trilha do Carteiro: caminhada na Serra de São José com mirantes, vegetação de cerrado e remanescentes de Mata Atlântica. A serra integra uma Área de Proteção Ambiental (APA) estadual.
Caminhe pelas ruas de pedra desta joia mineira e reviva a história da Inconfidência em cada casarão colonial. O vídeo é do canal De fora em Juiz de Fora, que conta com mais de 30 mil inscritos, e apresenta dez curiosidades fascinantes sobre Tiradentes, destacando a imponente Matriz de Santo Antônio, o passeio de Maria Fumaça e a deliciosa tradição do Chico Doceiro:
Como é o passeio de Maria Fumaça até São João del Rei?
A Maria Fumaça inaugurada por Dom Pedro II em 1881 é o trem turístico mais antigo em operação no Brasil. Ela percorre 12 km entre Tiradentes e São João del Rei em cerca de 40 minutos, margeando o Rio das Mortes e a Serra de São José. Os trilhos têm bitola de 76 cm, uma das mais estreitas do mundo ainda em uso.
A locomotiva opera de sexta a domingo, com horários extras em feriados e alta temporada. Em Tiradentes, a Rotunda da estação ainda funciona com giro manual para inverter a locomotiva, um espetáculo à parte mesmo para quem não embarca. A VLI, que administra o trem, vende passagens online e nas bilheterias das duas estações.

Gastronomia que virou identidade de Tiradentes
A cidade se reinventou como referência gastronômica a partir dos anos 1990. Restaurantes com fogão a lenha dividem espaço com bistrôs autorais e docerias artesanais no centro histórico. O tempero mineiro aparece em clássicos como feijão-tropeiro, frango com quiabo e lombo com tutu.
Desde 1998, o Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes reúne chefs nacionais e internacionais em praças e espaços da cidade. A 28ª edição, realizada em agosto de 2025, trouxe o tema “Mineiridade em Movimento” e contou com cozinheiros premiados com estrelas Michelin. O acesso à programação principal é gratuito. A Plataforma Fartura organiza e divulga as próximas edições.
Quais eventos completam o calendário da cidade?
Em janeiro, a Mostra de Cinema de Tiradentes ocupa praças e tendas com filmes brasileiros inéditos, debates e oficinas. A 29ª edição aconteceu de 23 a 31 de janeiro de 2026 e reuniu mais de 38 mil pessoas na edição anterior. A Semana Santa também transforma a cidade: ruas são decoradas com tapetes de serragem colorida e as procissões atraem visitantes do país inteiro.
Tiradentes serviu ainda como cenário de novelas e séries de época, como “Hilda Furacão” e “Memorial de Maria Moura”, gravadas pela TV Globo em suas ruas coloniais.
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Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O inverno seco é a alta temporada. No verão, pancadas de chuva são frequentes, mas as manhãs costumam abrir com sol.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à cidade histórica no Campo das Vertentes?
Tiradentes fica a cerca de 190 km de Belo Horizonte pela BR-040 até Congonhas, seguindo pela BR-383 até São João del Rei e mais 12 km pela BR-265. O trajeto leva aproximadamente 3 horas. De São Paulo, são 490 km pela BR-381 (Fernão Dias) e BR-265. Do Rio de Janeiro, 340 km pela BR-040 e BR-265. O aeroporto mais próximo é o de Confins (CNF), a 235 km.
A rodoviária da cidade recebe apenas ônibus vindos de São João del Rei. Quem viaja de ônibus interestadual desembarca na vizinha e faz baldeação em linhas com saídas frequentes ao longo do dia.
Visite a cidade que o tempo esqueceu e a história preservou
Tiradentes é um daqueles raros lugares onde o abandono virou proteção e o ouro do passado ainda brilha nos altares. A combinação de casario colonial intacto, gastronomia de alto nível e a serra verde ao fundo cria uma experiência que poucas cidades brasileiras conseguem oferecer.
Você precisa subir a ladeira da Matriz ao entardecer, ouvir o órgão de 1788 e sentir por que essa cidade pequena ficou grande na memória de quem a visita.










