O arenito vermelho esconde fósseis de um oceano antigo, e o mirante no topo mostra a planície do Pantanal até onde a vista alcança. A Chapada dos Guimarães é um parque nacional geológico sendo um ponto onde o cerrado encontra a geologia profunda do planeta, tudo a uma hora de carro da capital do Mato Grosso.
O fundo do mar que virou paredão de cerrado
As rochas da Chapada dos Guimarães carregam registros de mais de 500 milhões de anos. Geólogos identificaram fósseis de conchas marinhas e vestígios de um antigo oceano no arenito que forma os paredões da região. Ao longo de eras, o território passou de oceano a deserto e, finalmente, ao cerrado que se vê hoje. São 46 sítios arqueológicos catalogados dentro dos 33 mil hectares do Parque Nacional, com pinturas rupestres e inscrições feitas por povos que habitaram a região milênios antes dos europeus.
A cidade foi fundada como acampamento colonial no século XVIII, quando era conhecida como “Serra Acima”. A Igreja de Santana do Sacramento, construída por escravizados em 1779, é uma das mais antigas do Mato Grosso. Seu interior barroco preserva retábulos com detalhes em ouro e entalhes em madeira.

O que visitar entre cachoeiras e cânions?
O Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, criado em 1989 e administrado pelo ICMBio, tem entrada gratuita e funciona todos os dias. Alguns atrativos são autoguiados, enquanto outros exigem condutor credenciado e agendamento prévio. Três a quatro dias permitem cobrir os principais roteiros.
- Cachoeira Véu de Noiva: queda livre de 86 metros em um paredão onde nidificam araras-vermelhas. A trilha de 650 metros é autoguiada e acessível. É o cartão-postal da Chapada.
- Cidade de Pedra: formações rochosas esculpidas pelo vento que lembram ruínas medievais. Os cânions atingem 350 metros de profundidade. Acesso com guia credenciado e veículo 4×4.
- Circuito das Cachoeiras: percurso de 6 km que visita seis quedas d’água dentro do parque, com paradas para banho na Prainha e na Cachoeira das Andorinhas.
- Caverna Aroe Jari: uma das maiores grutas de arenito do Brasil, com 1.550 metros de extensão. Nas proximidades, a Gruta da Lagoa Azul impressiona com águas cristalinas que refletem nas paredes. Banho na lagoa é proibido.
- Mirante Geodésico: a 845 metros de altitude e a 7 km do centro, oferece vista panorâmica da planície pantaneira e de Cuiabá ao fundo. Abriga um marco geodésico do IBGE, embora o centro geodésico oficial da América do Sul fique na capital mato-grossense.
Explore as belezas e mistérios do coração do Mato Grosso. O vídeo é do canal Rolê Família, que conta com cerca de 200 mil inscritos, e detalha um roteiro de 4 dias pela Chapada dos Guimarães, apresentando paredões de arenito, circuitos de cachoeiras e as impressionantes cavernas da região:
A terra mística que atrai sensitivos do mundo inteiro
No final da década de 1970, comunidades alternativas se instalaram na Chapada, atraídas pela ideia de que o centro do continente concentra forças eletromagnéticas. A fama mística se espalhou e, até hoje, a cidade recebe visitantes que buscam meditação, retiros espirituais e experiências de conexão com a natureza. Essa convivência entre ciência (fósseis e geologia) e espiritualidade é uma das marcas mais peculiares do lugar.
Pamonha na beira do mirante e peixe do Pantanal
A gastronomia da Chapada mistura influências pantaneiras, do cerrado e da cozinha mato-grossense.
- Pamonha: vendida fresca nos quiosques à beira dos mirantes, é presença obrigatória em qualquer parada.
- Peixe pintado e pacu: espécies regionais servidas assadas ou fritas nos restaurantes do centro e nas margens do Lago de Manso.
- Maria-isabel: prato típico mato-grossense de arroz com carne-seca desfiada, temperado com alho e cebolinha.
- Licores de frutas do cerrado: pequi, cagaita e mangaba aparecem em versões artesanais vendidas nas lojas do centro.

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Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
A altitude de 811 metros deixa a Chapada mais amena que Cuiabá. O ano se divide em estação seca (maio a setembro) e chuvosa (outubro a abril).
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar. Na estação chuvosa, trombas d’água podem interditar trilhas.

Como chegar ao coração rochoso do Mato Grosso?
A Chapada dos Guimarães fica a 65 km de Cuiabá pela MT-251, cerca de 1 hora de carro. A estrada é asfaltada, bem sinalizada e já oferece mirantes naturais no trajeto. Ônibus partem da rodoviária de Cuiabá a cada meia hora. O Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, recebe voos de todas as capitais e fica a 75 km do centro da cidade.
Um museu a céu aberto no meio do continente
A Chapada dos Guimarães é o tipo de destino que muda a escala com que se olha o tempo. Os paredões guardam a memória de um oceano extinto, as trilhas passam por pinturas rupestres de milhares de anos e o pôr do sol no mirante pinta o cerrado de laranja como se fosse a primeira vez. Tudo isso a uma hora de uma capital brasileira.
Você precisa subir a serra, pisar no arenito vermelho e sentir o vento que cruza os cânions da Chapada para entender por que tanta gente acredita que esse é o coração do continente.










