Uma fenda de 90 metros de profundidade rasga a montanha ao meio e revela, nas paredes expostas, a mesma rocha porosa que alimenta o Aquífero Guarani. A Serra do Corvo Branco, na divisa entre Urubici e Grão-Pará, no sul de Santa Catarina, guarda o maior corte em rocha arenítica do país e uma das estradas mais perigosas do Brasil.
Por que a serra se chama Corvo Branco?
O nome nasceu de um engano. Moradores antigos avistavam uma ave de plumagem branca e detalhes coloridos fazendo ninhos nos paredões e a chamavam de corvo. Na verdade, trata-se do Urubu-rei, espécie rara e de beleza singular. O apelido pegou, batizou a serra e hoje identifica um dos cartões-postais mais fotografados de Santa Catarina, conforme o Portal de Turismo de Grão-Pará. A ave, porém, tornou-se cada vez mais difícil de avistar por conta da baixa reprodutividade da espécie e da degradação do habitat.

Uma aula de geologia a céu aberto
As rochas que formam a serra datam do período em que a América do Sul ainda estava grudada na África, no supercontinente Pangeia. O arenito Botucatu, depositado por ventos em um deserto que cobria a região, foi depois selado por derrames de lava basáltica que compõem a Formação Serra Geral.
Quem desce a serra percebe uma faixa escura rasgando o paredão de baixo para cima: é o dique de basalto, resultado do resfriamento de lava que subiu do núcleo da Terra há 160 milhões de anos. Outro detalhe visível: o paredão esquerdo (de quem desce) é úmido e o direito é seco. A diferença acontece pela inclinação do arenito Botucatu, a mesma rocha sedimentar que forma o Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do planeta.

O que fazer entre paredões e mirantes?
A SC-370, que liga Grão-Pará a Urubici ao longo de 57 km, foi a primeira estrada a conectar o litoral à Serra Catarinense. A construção começou no final da década de 1950 e foi inaugurada nos anos 1980. O trecho mais emblemático tem 600 metros, com curvas de 180 graus e precipícios que exigem atenção redobrada.
- Fenda da Serra do Corvo Branco: o maior corte em rocha arenítica do Brasil, com paredões de 90 metros. A garganta por onde passa a estrada é o ponto mais fotografado da Serra Catarinense.
- Parque Altos do Corvo Branco: a 1.380 m de altitude, conta com seis mirantes, dois deles com plataformas de vidro suspensas sobre o abismo. Em dias claros, a vista alcança o litoral de Laguna e o Morro da Igreja. Inaugurado em 2022, conforme a Prefeitura de Urubici.
- Morro da Igreja: com 1.822 m, é o ponto habitado mais alto do Sul do Brasil. Abriga a icônica Pedra Furada, que exige agendamento prévio no ICMBio para visitação.
- Cânion Espraiado: formação rochosa vizinha acessível por trilha a partir do topo da serra, com visual bruto e preservado.
- Gruta Nossa Senhora de Lourdes: formação natural encravada na rocha a caminho da serra, a 10 km do centro de Urubici.
Aventure-se pela estrada mais surpreendente da Serra Catarinense. O vídeo é do canal Algum Lugar na Terra, que conta com mais de 35 mil inscritos, e apresenta a travessia da Serra do Corvo Branco, destacando o impressionante corte vertical de 90 metros na rocha:
Quando subir a serra?
A cidade-base é Urubici, a 915 m de altitude, onde as temperaturas são bem mais baixas que no litoral. O inverno é seco e gelado, com neve ocasional. O melhor horário para fotografar a fenda é por volta do meio-dia, quando o sol ilumina os paredões por inteiro.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo para Urubici. Condições podem variar.

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Como chegar à fenda na montanha?
Urubici fica a 270 km de Florianópolis pela BR-282 e SC-370, cerca de 3h30 de carro. A fenda da serra fica a 27 km do centro de Urubici por estrada parcialmente asfaltada. Pelo lado de Grão-Pará, o acesso é pela SC-438 a partir da BR-101, passando por Gravatal e Braço do Norte. A estrada passa por obras de pavimentação com mais de 60% de execução, mas trechos de terra e curvas fechadas ainda exigem atenção. Evite descer em dias de chuva ou neblina forte.
Uma estrada que conta a história da Terra
A Serra do Corvo Branco é mais do que uma estrada entre duas cidades. É uma fenda aberta no tempo, onde paredões de 160 milhões de anos exibem a rocha que alimenta um dos maiores aquíferos do planeta e guardam o nome de uma ave que poucos tiveram a sorte de ver.
Você precisa parar o carro no meio da garganta, olhar para cima e sentir o tamanho do que a Terra construiu enquanto os continentes ainda estavam colados.









