Paredões de rocha vulcânica avançam sobre o Atlântico, dividindo praias que não se repetem em nenhum outro ponto da costa brasileira. Torres, no extremo norte do Rio Grande do Sul, é a praia mais diferente do estado e uma das poucas no país onde se caminha sobre basalto de 150 milhões de anos com os pés na areia.
Por que as falésias de Torres são tão raras no litoral brasileiro?
O litoral gaúcho é plano. São mais de 600 km de faixa costeira sem um único morro, até que a Serra Geral lança fragmentos de rocha direto na praia, bem na divisa com Santa Catarina. Essas formações são o resultado de dois eventos geológicos sobrepostos: camadas de arenito do antigo deserto Botucatu, com mais de 200 milhões de anos, cobertas por basalto derramado durante a separação dos continentes africano e sul-americano.
Esse empilhamento de rochas diferentes, visível a olho nu nas paredes do Parque Estadual da Guarita, deu nome à cidade. As “torres” são os morros que se erguem entre as praias: o Morro do Farol, o Morro das Furnas (48 metros de altura) e a Torre Sul. Torres integra o Geoparque Mundial da UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul, reconhecido em 2022.

O que visitar no Parque da Guarita e arredores?
O parque concentra os melhores cenários da cidade em cerca de 40 hectares. Projetado inicialmente pela equipe de Roberto Burle Marx e implantado pelo ambientalista José Lutzenberger a partir de 1971, abriga mais de 100 espécies de aves e três das sete torres naturais do município. A entrada para pedestres é livre.
- Praia da Guarita: apenas 200 metros de faixa de areia entre duas falésias. Águas mais protegidas pelas rochas, boas para banho com atenção às ondas. Cenário raro no litoral sul.
- Torre Sul: escadaria de 124 degraus até o topo, com vista para a praia, as dunas do Parque Estadual de Itapeva e a cidade inteira.
- Morro das Furnas: a mais imponente das torres, com paredões esculpidos pelo vento e pelo mar formando cavernas. No topo, a Lagoinha dos Suspiros, uma lagoa natural entre as rochas.
- Morro do Farol: acesso de carro até o topo, mirante com vista de 360 graus, ponto de parapente e o farol em funcionamento desde 1912. Fica fora do parque, junto ao centro.
- Ilha dos Lobos: a única ilha marítima do Rio Grande do Sul, a 1,8 km da costa. Refúgio de Vida Silvestre gerido pelo ICMBio, abriga leões-marinhos e lobos-marinhos (registros desde 1797). A visitação por caiaque e stand up paddle foi inaugurada em outubro de 2025. Desembarque na ilha é proibido.
Torres reserva paisagens únicas que misturam o urbano e a natureza bruta. O vídeo é do canal Arthur e Lika na Viagem, que conta com mais de 71 mil inscritos, e detalha as falésias da Guarita, o Morro do Farol e o surf na Praia da Cal:
Qual praia escolher em Torres?
Cada trecho da costa tem personalidade própria. A Praia Grande, com mais de 4 km de extensão, é a mais movimentada e tem dunas para sandboard. A Praia do Cal fica entre o Morro do Farol e o Morro das Furnas e atrai surfistas. A Prainha, menor e mais protegida, é a opção para quem busca sossego com estrutura por perto.
Na divisa com Passo de Torres, em Santa Catarina, os Molhes do Rio Mampituba funcionam como passarela sobre o rio e reúnem pescadores, bares e uma vista curiosa: dois estados separados por poucos metros de água.

Quando o céu de Torres enche de balões?
Todo ano, entre o fim de abril e o início de maio, a cidade sedia o Festival Internacional de Balonismo, o maior da América Latina. A 35ª edição, em maio de 2025, reuniu 100 balões e pilotos de pelo menos sete países. Torres carrega o título de Capital Nacional do Balonismo desde 1989, quando a primeira edição nasceu dentro de uma feira agrícola da banana.
O Night Glow, espetáculo noturno em que dezenas de balões se iluminam com chamas de maçarico ao mesmo tempo, é o momento mais fotografado do festival. A 36ª edição está marcada para 30 de abril a 3 de maio de 2026.
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Baleias, leões-marinhos e pinguins passam por aqui?
Sim. Entre julho e novembro, a baleia-franca-austral aparece na costa de Torres com seus filhotes, visível do Morro do Farol a olho nu. Leões-marinhos e lobos-marinhos ocupam a Ilha dos Lobos principalmente no inverno, vindos de colônias no Uruguai e na Argentina. Já os pinguins-de-magalhães passam pela região durante a migração do extremo sul do continente. O Parque Estadual de Itapeva, com quase mil hectares de restinga e Mata Atlântica, protege espécies ameaçadas como o macaco-prego-preto e o gato-do-mato-pequeno.

Quando ir e o que esperar do clima na costa gaúcha
O verão é a alta temporada, com calor e chuvas passageiras. O inverno, mais frio e seco, é a melhor época para avistar baleias e aproveitar a cidade sem multidão.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Torres saindo de Porto Alegre?
Torres fica a 197 km de Porto Alegre pela Estrada do Mar (RS-389) e pela BR-101, cerca de 2h30 de carro. Ônibus partem da rodoviária da capital em diversos horários. O Aeroporto Salgado Filho (POA) é o mais próximo. Quem vem de Florianópolis percorre 290 km pela BR-101.
Onde o basalto encontra o mar
Poucas praias no Brasil conseguem reunir geologia de relevância internacional, fauna migratória visível da areia e um festival que colore o céu com 100 balões ao mesmo tempo. Torres entrega tudo isso em uma cidade de 40 mil habitantes, sem fila e sem frescura.
Você precisa subir na Torre Sul, olhar o Atlântico batendo no basalto e entender por que essa é a praia mais diferente do litoral brasileiro.










