A ideia de que a sociedade atual vive em ritmo acelerado e exaustivo passou a ser tema recorrente em debates sobre saúde mental e organização do trabalho. A busca incessante por produtividade, desempenho e resultados mede o valor das pessoas por aquilo que elas entregam, não pelo que são. Nesse cenário, cresce o interesse por análises críticas que tentam explicar por que tanta gente se sente cansada, pressionada e, ao mesmo tempo, incapaz de simplesmente parar.
O que é a sociedade do cansaço e como ela funciona?
A expressão sociedade do cansaço é usada para descrever um tipo de organização social em que o incentivo principal deixa de ser a obediência e passa a ser a autoexploração. A pessoa não é mais vista como alguém que deve apenas cumprir ordens, e sim como um projeto permanente de otimização, voltado a ser produtiva, flexível, criativa e sempre disponível.
Nesse contexto, o indivíduo acaba atuando ao mesmo tempo como “patrão” e “empregado” de si próprio. Redes sociais, aplicativos de monitoramento e rotinas de alta performance reforçam esse movimento, sugerindo que sempre há espaço para fazer mais, render mais e mostrar mais resultados, criando um cotidiano em que o descanso genuíno se torna raro.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo da @carolhallal:
@carolhallal A sociedade do cansaço de Byung Chul Han #filosofia #burnout #ansiedade #depressao #psicologia ♬ som original – Carol Hallal
Por que a pressão por felicidade e produtividade gera tanto cansaço?
Uma das características marcantes da sociedade do cansaço é a combinação entre produtividade elevada e a obrigação de parecer feliz o tempo todo. A ideia de que toda experiência precisa ser positiva, motivadora e inspiradora dificulta a expressão de emoções como tristeza, frustração ou desânimo, que passam a ser vistas como erro ou fraqueza.
Esse ambiente favorece a chamada positividade tóxica, na qual o desconforto é silenciado com frases prontas e discursos de superação. Para organizar melhor essas pressões, é possível destacar alguns aspectos que intensificam o desgaste emocional e tornam o sujeito mais vulnerável aos efeitos da exaustão.
- Pressão por performance: necessidade constante de resultados, metas e métricas, inclusive na vida pessoal.
- Obrigação de bem-estar: exigência de manter uma imagem de felicidade, motivação e gratidão permanentes.
- Ocultação do sofrimento: dificuldade de admitir cansaço, tristeza ou limites, com medo de julgamento ou fracasso.
Como a sociedade do cansaço afeta o corpo e as relações pessoais?
Os efeitos da sociedade do cansaço não se limitam ao campo psicológico: o corpo também reage ao excesso de estímulos, prazos e conexões permanentes. Insônia, dores musculares, dificuldades de concentração e sensação de esgotamento constante surgem como sinais de alerta, muitas vezes decorrentes de uma soma de pequenas pressões diárias.
As relações pessoais também sofrem impacto quando o tempo é medido apenas pela lógica da produtividade. Encontros, conversas e momentos de ócio passam a ser vistos como perda de tempo, reduzindo espaços de escuta e cuidado. Com isso, multiplicam-se contatos rápidos e superficiais, o que pode ampliar a sensação de isolamento emocional, mesmo em ambientes cheios.
- Menos tempo para descanso real, sem notificações ou cobranças.
- Dificuldade em distinguir trabalho, estudo e lazer no dia a dia.
- Substituição de encontros presenciais por interações superficiais.

É possível desacelerar e resistir à sociedade do cansaço?
Embora o ritmo predominante seja acelerado, algumas práticas têm sido discutidas como formas de resistência a esse padrão de exaustão. Uma delas é a recuperação do ócio como experiência legítima, e não como sinônimo de preguiça, permitindo que a mente se reorganize, que o corpo descanse e que a pessoa identifique seus próprios limites.
Outra frente importante é o resgate de espaços de convivência que não estejam subordinados a metas, likes ou desempenho. Encontros sem relógio rígido, caminhadas, leitura sem pressa e atividades criativas sem obrigação de resultados comerciais aparecem como formas discretas de questionar a lógica da sociedade do cansaço e construir uma relação mais respeitosa com o próprio tempo.
Ao recolocar o descanso, o afeto e o tempo livre como dimensões legítimas da vida, abre-se margem para uma relação menos violenta com o próprio corpo e com a própria mente. Em vez de buscar um ideal permanente de felicidade e rendimento máximo, ganha força a ideia de uma existência em que haja espaço tanto para o entusiasmo quanto para o abatimento, sem que nenhum desses estados seja tratado como falha pessoal.








