A cultura da alta performance se espalhou pelo trabalho, pelo esporte e pela vida pessoal, criando a sensação de que estar ocupado o tempo todo é obrigatório. Nesse cenário, até o descanso passou a ser tratado como tarefa, com metas e métricas, e em vez de recuperar o corpo e a mente, a pausa muitas vezes vira motivo de culpa, como se desacelerar significasse perder espaço ou atrapalhar resultados.
O que é descondicionamento e por que a pausa planejada é essencial
No contexto do esporte e da atividade física, o termo descondicionamento descreve um período em que a carga de esforço é reduzida de forma proposital. Não se trata de abandonar o movimento, mas de aliviar a intensidade, o volume ou a frequência dos treinos por um tempo determinado para que o corpo assimile o que foi feito, como trouxe a pesquisa “The Recovery Experience Questionnaire: development and validation of a measure for assessing recuperation and unwinding from work”.
Pesquisas em fisiologia do exercício indicam que fases breves de descondicionamento, entre uma e quatro semanas, preservam grande parte das adaptações. Ao mesmo tempo, reduzem inflamação e fadiga acumulada, permitindo que o organismo faça uma espécie de “revisão geral”, reorganizando estoques de energia, reparando microlesões e equilibrando hormônios ligados ao estresse, como o cortisol.

Como o descondicionamento fortalece o bem-estar físico e mental
Do ponto de vista psicológico, a pausa planejada funciona como um respiro em meio à rotina de cobrança e metas constantes. Estudos em psicologia do esporte mostram melhora na percepção de bem-estar, queda em sinais de esgotamento e recuperação da motivação interna após períodos controlados de redução da carga.
A ciência do treinamento reforça que o progresso ocorre durante a recuperação, e isso vale para corpo e mente. O descondicionamento planejado reduz risco de overtraining, lesões por uso excessivo, queda de rendimento e abandono da atividade física por cansaço mental ou sensação de fracasso, favorecendo também melhor qualidade do sono e da concentração.
Quais são as formas de descanso e como planejar o descondicionamento
Dois conceitos ajudam a entender o descondicionamento: o descanso passivo e o repouso ativo. No primeiro, a pessoa praticamente não realiza esforço físico; no segundo, mantém movimentos leves, como caminhadas tranquilas, pedalar em ritmo suave, alongamentos ou práticas como yoga e natação leve, preservando a mobilidade.
Para organizar essa pausa de maneira prática e torná-la parte da estratégia de rendimento, alguns pontos são frequentemente recomendados por profissionais de saúde, treinamento e fisioterapia esportiva. Essas orientações visam a prevenção de lesões, a manutenção da mobilidade e uma relação mais sustentável com a atividade física:
- Reduzir a intensidade dos treinos, evitando esforços máximos e competições seguidas.
- Diminuir o número de sessões semanais de atividade estruturada.
- Priorizar modalidades mais leves e de baixo impacto, como caminhadas e natação leve.
- Alongar o tempo de sono e ajustar horários para favorecer o descanso profundo.
- Observar sinais do corpo, como dores persistentes, irritabilidade ou queda de rendimento.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo da Vanessa Rodler (@vanessarodler):
@vanessarodler 1. entenda que tipo de descanso você está precisando e respeite isso; 2. relembre o porquê/motivo de estar vivendo um momento para você; #reflexão #mentalhealth #saudemental ♬ som original – Vanessa Rodler
Descondicionamento em férias ajuda ou atrapalha o condicionamento físico
O verão costuma oferecer um cenário favorável ao descondicionamento em férias, com dias mais longos e maior flexibilidade de horários. Longe de representar um retrocesso, esse período pode fortalecer o condicionamento, proteger a saúde para os meses seguintes e renovar o vínculo com o movimento de forma mais leve e prazerosa.
Em regiões de clima quente, o calor também entra na equação, pois em temperaturas elevadas o organismo trabalha mais para manter a regulação térmica. Diminuir a intensidade dos treinos protege o coração, reduz o risco de exaustão pelo calor, evita sobrecarga desnecessária e abre espaço para atividades mais livres, frequentemente incluídas como parte oficial do macroplanejamento anual de treinos.
Como planejar um período de descondicionamento em férias
O planejamento do descondicionamento depende do nível de atividade anterior, do estado de saúde e dos objetivos de cada pessoa. Em geral, recomenda-se que o descanso estruturado seja pensado como parte do calendário anual, não apenas como resposta a lesões, cansaço extremo ou sinais de burnout físico e mental.
Um roteiro simples para organizar essa pausa pode ajudar a reduzir a culpa, dar previsibilidade ao processo e facilitar a retomada gradual após as férias de verão. Relatos de atletas amadores e profissionais indicam que, com um descondicionamento bem planejado, a disposição costuma ser maior, o sono melhora e as dores crônicas diminuem na volta às rotinas de treino:
- Avaliar o ciclo anterior: observar quantos meses de treino intenso foram feitos, como estão o sono, o humor e a presença de dores frequentes.
- Definir a duração: escolher um intervalo, normalmente entre duas e quatro semanas, para reduzir a carga durante o verão e as férias.
- Escolher atividades leves: priorizar caminhada, natação tranquila, alongamentos, jogos recreativos ou exercícios de baixa exigência.
- Ajustar o descanso: programar horários mais regulares para dormir, reservar momentos do dia sem telas e sem estímulos excessivos.
- Retomar aos poucos: ao fim do período, aumentar a carga de forma gradual, evitando saltos bruscos de intensidade.










