Doze cães de estimação, filmados na própria casa em três dias diferentes, ficaram sozinhos por meia hora, duas horas e quatro horas. Quando o dono voltou das ausências mais longas, eles abanaram mais o rabo, lamberam mais o focinho, sacudiram mais o corpo e buscaram mais contato do que depois da ausência curta. O experimento é de Therese Rehn e Linda Keeling, da Universidade Sueca de Ciências Agrárias, e saiu em 2011 na Applied Animal Behaviour Science.
O estudo virou munição para uma orientação que circula em escolas de adestramento: cumprimentar o cachorro com festa ao chegar em casa alimentaria a ansiedade de separação, e o tutor deveria entrar em silêncio e só dar atenção quando o animal se acalmasse. A pesquisa sueca não testou nada disso. Ela mediu o efeito do tempo de espera sobre a saudação do cão, não o efeito da saudação do humano sobre a ansiedade do cão. Um segundo trabalho do mesmo grupo, este com dosagem de cortisol e ocitocina, aponta para o lado oposto do conselho de ignorar o bicho.
Por que cumprimentar o cachorro com festa ganhou fama de erro?
A lógica é a do reforço: se o cão pula, late e gira e recebe carinho e voz aguda nesse instante, aprende que a agitação funciona.
O problema é o salto seguinte, que transforma “a festa reforça a agitação” em “a festa causa ansiedade de separação”. Ansiedade de separação é um quadro clínico: destruição de objetos, vocalização prolongada, eliminação em local errado e, em casos graves, automutilação, tudo enquanto o tutor está fora. O cão que faz festa na porta e depois deita tranquilo não está doente; está feliz de ver alguém.
O que o estudo sueco de 2011 mediu quando o dono voltou?

Rehn e Keeling colocaram câmeras e monitores cardíacos em 12 cães adultos sem histórico de problemas de separação, de raças variadas e com idades de 1 a 12 anos.
Durante a espera, o comportamento foi praticamente igual nas três durações: os cães passaram a maior parte do tempo deitados. A diferença apareceu na volta. Depois de 2 e de 4 horas, a frequência de atividade física e de atenção ao dono mais que dobrou em relação à meia hora, e o abanar de rabo e as tentativas de contato quase triplicaram, segundo a tabela do artigo original da universidade sueca. A frequência cardíaca nos dois primeiros minutos do reencontro ficou mais alta após 2 horas (média de 127 batimentos por minuto) do que após meia hora (106), embora como tendência estatística. As autoras concluíram que os cães percebem a duração da ausência, ao menos depois que ela termina, e que a saudação mais intensa é a expressão disso. Não houve evidência de bem-estar reduzido nem nas 4 horas.
Onde entra o cortisol: o que mudou no reencontro com 12 beagles?
O cortisol do título vem de um segundo experimento do mesmo laboratório, publicado em 2014 na Physiology & Behavior, com 12 fêmeas beagle e coleta de sangue antes, durante e depois do retorno de uma pessoa conhecida.
Cada cadela passou por três tipos de reencontro: a pessoa entrava e fazia contato físico e verbal calmo; entrava e só falava; ou entrava e a ignorava. Em todos os casos a ocitocina subiu no instante em que a pessoa apareceu. Mas só no grupo que recebeu carinho calmo o hormônio continuou alto depois do fim da interação, e foi nesse grupo que o cortisol caiu de forma mais nítida, conforme o resumo no registro do estudo na base PubMed. Os cães ignorados tentaram se aproximar de um assistente que estava na sala. Ou seja: o toque tranquilo foi a condição que mais reduziu o hormônio do estresse, e a indiferença não produziu cão mais calmo, produziu cão procurando outra pessoa. Ignorar um cão por dez minutos para provar um ponto é castigo com nome de método.
Quando a festa na porta vira ansiedade de separação?
Quando o problema não está na porta, e sim nas horas em que ninguém está em casa. O que separa um cão eufórico de um cão ansioso é o que acontece na ausência. Sinais que veterinários comportamentalistas observam:
- Destruição junto a portas e janelas: arranhões no batente, tapete roído perto da saída.
- Vocalização contínua: latidos ou uivos que o vizinho relata e que começam minutos depois da saída.
- Xixi e cocô fora do lugar só nos dias em que o cão fica sozinho, mesmo com passeio antes.
- Agitação antes da saída: o cão reconhece chave e mochila e começa a ofegar ou a seguir o tutor.
Sem esses marcadores, o cão que pula na chegada não é ansioso, mas comunicativo. Com eles, entrar mudo e de costas não resolve o quadro, que exige dessensibilização gradual e, às vezes, medicação prescrita.
Quantos cães vivem no Brasil e o que diz o CFMV sobre deixá-los sozinhos?
O Brasil tinha cerca de 62,2 milhões de cães em 2024, segundo estimativa da Abinpet e do Instituto Pet Brasil divulgada em julho daquele ano, contra 60,5 milhões no levantamento anterior.
A rotina de trabalho fora de casa é o pano de fundo do estudo sueco, que abre citando uma pesquisa de 2010 segundo a qual 73% dos tutores da Suécia deixavam o cão em casa no expediente. Aqui, o Conselho Federal de Medicina Veterinária tratou do tema em orientação pública: a médica-veterinária Liziè Buss, da Comissão de Bem-Estar Animal do CFMV, recomenda que cães não fiquem sozinhos por longos períodos e sejam treinados, com adestradores positivos, para tolerar a ausência com conforto. A nota do conselho federal sobre pets deixados sozinhos lista a ansiedade de separação entre os danos do isolamento e lembra que negligenciar a necessidade de vínculo pode ser enquadrado como maus-tratos, a depender de perícia. Um levantamento sobre cães que se adaptam bem a apartamentos ajuda quem mora em espaço pequeno a escolher.
Como chegar em casa sem ignorar o animal?
Os dois estudos apontam a mesma direção: o cão quer contato, e o contato calmo é o que baixa o cortisol. O que se controla é o tom, não a existência da saudação.
Na prática: entrar com voz baixa, agachar em vez de deixar o cão pular para alcançar o rosto, e fazer o carinho quando as quatro patas estão no chão, ainda que por dois segundos. Não é preciso silêncio nem cronômetro. E a intensidade da festa cresce com o tempo de ausência, como a pesquisa de 2011 mostrou: um cão que ficou oito horas trancado precisa gastar essa energia em passeio, não apenas ser contido na porta. Cães pequenos costumam surpreender nesse ponto, como mostra a lista de o que muda nos cuidados com o cão depois dos 10 anos.
O que convém lembrar sobre cumprimentar o cachorro ao chegar em casa?
Cumprimente, em tom baixo e com o cão no chão; o carinho vem quando as patas descem e para quando elas subem. Observe a casa, não a porta: destruição perto da saída, uivo relatado pelo vizinho e xixi fora do lugar só nos dias de ausência são os sinais que importam. Compense a ausência longa com passeio na volta. Se houver os marcadores de ansiedade, procure um médico-veterinário com atuação em comportamento antes de aplicar regra de adestramento vista na internet. E desconfie de quem promete curar ansiedade de separação com indiferença na entrada: o dado disponível diz o contrário.
Este artigo tem finalidade informativa e resume dois experimentos publicados em periódicos científicos, ambos com 12 animais, além de uma orientação pública do CFMV e de uma estimativa de mercado; ele não avalia o cão de ninguém em particular, e sinais persistentes de estresse na ausência do tutor pedem exame por médico-veterinário.




