Em junho de 2024, quando a equipe da CBS News chegou à sua propriedade no centro de Iowa, Evie Haupt tinha 75 anos, 160 acres de terra (cerca de 64,7 hectares) e três turbinas eólicas girando o ano inteiro no meio da lavoura. A reportagem de Janet Shamlian e Alicia Hastey, publicada em 5 de junho daquele ano, mostrava como aquelas torres tinham virado a renda mais estável da fazenda. A história voltou a circular em 2026, mas os números são os daquela entrevista: hoje Evie teria por volta de 77 anos.
O acordo dela é um arrendamento para turbina eólica em que a dona da terra cede o espaço do pé da torre e continua plantando em volta. Segundo a CBS, cada turbina ocupa menos de 1 acre, o que deixa quase toda a área livre para a agricultura. Somadas, as três ficam abaixo de 3 acres, ou menos de 1,2 hectare. A própria Evie, com as palavras dela, fala em abrir mão de “um ou dois acres”.
A dívida que ficou depois do marido
O dinheiro chegou quando fazia falta. Evie contou à CBS que, com a morte do marido, cerca de uma década antes da entrevista, ficaram US$ 350 mil em dívidas da fazenda. Com a ajuda da renda das turbinas, que ela estima em cerca de US$ 35 mil por ano, reajustados anualmente pela inflação, o saldo tinha descido para US$ 67 mil quando a reportagem apareceu.
O verbo importa. Na versão dela, as torres ajudaram a baixar a dívida. A reportagem não detalha quanto veio da colheita, de venda de bens ou de outras fontes, e também não informa o nome da empresa que opera as turbinas nem o prazo do contrato. O que existe é o relato de uma produtora sobre o próprio caixa, e ele já diz bastante.
Esse caixa estava sob pressão. A mesma reportagem da CBS lembrava que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projetava queda de 25% nos lucros das fazendas em 2024 e tratava a renda do vento como aquilo que, para produtores em dificuldade, separava manter a propriedade da família de perdê-la. Iowa não é caso isolado no cinturão agrícola americano: no Kansas, um pecuarista que abriga dezenas de torres no rancho conta uma trajetória parecida.
Uma paisagem nova, e ela gosta

Evie não tem o perfil de quem corre atrás de novidade. A CBS a descreve como alguém à moda antiga em vários aspectos, mas aberta quando o assunto é energia. A vista da fazenda mudou muito em relação a décadas atrás, e ela diz que gosta assim. “Encaro isso como progresso. Acho que não podemos ficar no caminho do progresso”, afirmou.
Nem todo mundo pensa igual. A reportagem registra que tanto Evie quanto a advogada Kathy Law, filha e esposa de agricultores e responsável por ajudar a instalar quase metade das turbinas de Iowa, já ouviram as queixas de sempre: barulho, ameaça à fauna, horizonte estragado. A resposta de Law vai direto ao ponto da liberdade: ninguém obriga produtor algum a aceitar torre na própria terra, e quem aceita quer receber o benefício.
Evie descreve a troca quase como uma contribuição pública: ceder um pedaço pequeno do terreno para gerar algo que todo mundo usa todos os dias e quer usar cada vez mais. Poucas culturas pagam em dia faça sol ou faça chuva. No caso dela, o vento pagou.
Arrendamento para turbina eólica no Nordeste: quanto se paga
No Brasil, a geração eólica também depende de terra alheia. O estudo Impactos socioeconômicos e ambientais da geração de energia eólica no Brasil, feito pela GO Associados para a associação do setor, a ABEEólica, e publicado em julho de 2020, calculou que as empresas pagaram R$ 169,7 milhões em arrendamentos de terras para aerogeradores em 2018. A conta usa dados de companhias que respondiam por 56,01% dos projetos em operação. Entre 16 delas, praticamente todos os 3.475 aerogeradores estavam em áreas arrendadas, não compradas.
O que chega a cada dono de terra é outra história. Um relatório técnico do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) sobre contratos eólicos em comunidades nordestinas, feito com o Plano Nordeste Potência e lançado em outubro de 2023, analisou 50 contratos na Bahia, no Ceará, na Paraíba, em Pernambuco e no Rio Grande do Norte. Na fase de operação, o Inesc encontrou três formas de pagamento, com estas faixas nos contratos de referência:
- percentual da receita bruta da energia gerada na área, de 0,85% a 1,5%;
- valor fixo por aerogerador, de R$ 70,00 a R$ 458,33 por mês;
- valor por megawatt gerado, caso de um contrato que paga R$ 416,67 por MW ao mês.
Os prazos, ainda segundo o Inesc, vão de 27 a 49 anos, a maioria com prorrogação automática. O levantamento também achou pagamentos de R$ 1,00 ou R$ 2,00 por hectare na etapa anterior à operação, cláusulas de sigilo e, em um dos contratos, multa que pode chegar a R$ 5 milhões. Nenhuma das duas pesquisas publica um valor médio por torre para o país: o Inesc mostra faixas de contratos específicos, e a ABEEólica, o total agregado.
A torre ocupa pouco chão, o contrato ocupa décadas
Pôr a renda de Evie lado a lado com esses valores em reais seria forçar a comparação. São moedas, épocas e modelos de contrato diferentes, e a CBS não descreve as cláusulas do acordo dela. O paralelo que se sustenta é outro: nos dois países, a base da turbina tira pouco da lavoura, enquanto o papel assinado prende a terra por uma geração inteira.
Para quem recebe proposta no Nordeste, os pontos que o estudo do Inesc aponta como sensíveis funcionam como lista de conferência:
- como o pagamento é calculado e se há reajuste;
- quanto se recebe antes de a usina começar a gerar;
- por quantos anos a área fica comprometida e se a renovação é automática;
- o que a cláusula de sigilo impede de conversar com vizinhos;
- qual é a multa em caso de rescisão.
Levar o documento a um advogado ou ao sindicato rural antes de assinar custa bem menos do que descobrir as respostas depois. Quem já viu um arrendamento de lavoura terminar com a terra devolvida em pior estado sabe que o problema raramente está na assinatura e quase sempre está no que ficou sem escrever.



