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Início Economia

Fazendeira de 75 anos cedeu menos de 1,2 hectare para três turbinas eólicas, passou a ganhar US$ 35 mil por ano e viu a dívida cair de US$ 350 mil para US$ 67 mil

Por João Victor
28/09/2026
Em Economia
Agricultora idosa num milharal com três turbinas eólicas ao fundo

Agricultora idosa num milharal com três turbinas eólicas ao fundo. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Em junho de 2024, quando a equipe da CBS News chegou à sua propriedade no centro de Iowa, Evie Haupt tinha 75 anos, 160 acres de terra (cerca de 64,7 hectares) e três turbinas eólicas girando o ano inteiro no meio da lavoura. A reportagem de Janet Shamlian e Alicia Hastey, publicada em 5 de junho daquele ano, mostrava como aquelas torres tinham virado a renda mais estável da fazenda. A história voltou a circular em 2026, mas os números são os daquela entrevista: hoje Evie teria por volta de 77 anos.

O acordo dela é um arrendamento para turbina eólica em que a dona da terra cede o espaço do pé da torre e continua plantando em volta. Segundo a CBS, cada turbina ocupa menos de 1 acre, o que deixa quase toda a área livre para a agricultura. Somadas, as três ficam abaixo de 3 acres, ou menos de 1,2 hectare. A própria Evie, com as palavras dela, fala em abrir mão de “um ou dois acres”.

A dívida que ficou depois do marido

O dinheiro chegou quando fazia falta. Evie contou à CBS que, com a morte do marido, cerca de uma década antes da entrevista, ficaram US$ 350 mil em dívidas da fazenda. Com a ajuda da renda das turbinas, que ela estima em cerca de US$ 35 mil por ano, reajustados anualmente pela inflação, o saldo tinha descido para US$ 67 mil quando a reportagem apareceu.

O verbo importa. Na versão dela, as torres ajudaram a baixar a dívida. A reportagem não detalha quanto veio da colheita, de venda de bens ou de outras fontes, e também não informa o nome da empresa que opera as turbinas nem o prazo do contrato. O que existe é o relato de uma produtora sobre o próprio caixa, e ele já diz bastante.

Esse caixa estava sob pressão. A mesma reportagem da CBS lembrava que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projetava queda de 25% nos lucros das fazendas em 2024 e tratava a renda do vento como aquilo que, para produtores em dificuldade, separava manter a propriedade da família de perdê-la. Iowa não é caso isolado no cinturão agrícola americano: no Kansas, um pecuarista que abriga dezenas de torres no rancho conta uma trajetória parecida.

Uma paisagem nova, e ela gosta

Base de uma turbina eólica cercada por plantação de milho
Base de uma turbina eólica cercada por plantação de milho. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Evie não tem o perfil de quem corre atrás de novidade. A CBS a descreve como alguém à moda antiga em vários aspectos, mas aberta quando o assunto é energia. A vista da fazenda mudou muito em relação a décadas atrás, e ela diz que gosta assim. “Encaro isso como progresso. Acho que não podemos ficar no caminho do progresso”, afirmou.

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Nem todo mundo pensa igual. A reportagem registra que tanto Evie quanto a advogada Kathy Law, filha e esposa de agricultores e responsável por ajudar a instalar quase metade das turbinas de Iowa, já ouviram as queixas de sempre: barulho, ameaça à fauna, horizonte estragado. A resposta de Law vai direto ao ponto da liberdade: ninguém obriga produtor algum a aceitar torre na própria terra, e quem aceita quer receber o benefício.

Evie descreve a troca quase como uma contribuição pública: ceder um pedaço pequeno do terreno para gerar algo que todo mundo usa todos os dias e quer usar cada vez mais. Poucas culturas pagam em dia faça sol ou faça chuva. No caso dela, o vento pagou.

Arrendamento para turbina eólica no Nordeste: quanto se paga

No Brasil, a geração eólica também depende de terra alheia. O estudo Impactos socioeconômicos e ambientais da geração de energia eólica no Brasil, feito pela GO Associados para a associação do setor, a ABEEólica, e publicado em julho de 2020, calculou que as empresas pagaram R$ 169,7 milhões em arrendamentos de terras para aerogeradores em 2018. A conta usa dados de companhias que respondiam por 56,01% dos projetos em operação. Entre 16 delas, praticamente todos os 3.475 aerogeradores estavam em áreas arrendadas, não compradas.

O que chega a cada dono de terra é outra história. Um relatório técnico do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) sobre contratos eólicos em comunidades nordestinas, feito com o Plano Nordeste Potência e lançado em outubro de 2023, analisou 50 contratos na Bahia, no Ceará, na Paraíba, em Pernambuco e no Rio Grande do Norte. Na fase de operação, o Inesc encontrou três formas de pagamento, com estas faixas nos contratos de referência:

  • percentual da receita bruta da energia gerada na área, de 0,85% a 1,5%;
  • valor fixo por aerogerador, de R$ 70,00 a R$ 458,33 por mês;
  • valor por megawatt gerado, caso de um contrato que paga R$ 416,67 por MW ao mês.

Os prazos, ainda segundo o Inesc, vão de 27 a 49 anos, a maioria com prorrogação automática. O levantamento também achou pagamentos de R$ 1,00 ou R$ 2,00 por hectare na etapa anterior à operação, cláusulas de sigilo e, em um dos contratos, multa que pode chegar a R$ 5 milhões. Nenhuma das duas pesquisas publica um valor médio por torre para o país: o Inesc mostra faixas de contratos específicos, e a ABEEólica, o total agregado.

A torre ocupa pouco chão, o contrato ocupa décadas

Pôr a renda de Evie lado a lado com esses valores em reais seria forçar a comparação. São moedas, épocas e modelos de contrato diferentes, e a CBS não descreve as cláusulas do acordo dela. O paralelo que se sustenta é outro: nos dois países, a base da turbina tira pouco da lavoura, enquanto o papel assinado prende a terra por uma geração inteira.

Para quem recebe proposta no Nordeste, os pontos que o estudo do Inesc aponta como sensíveis funcionam como lista de conferência:

  • como o pagamento é calculado e se há reajuste;
  • quanto se recebe antes de a usina começar a gerar;
  • por quantos anos a área fica comprometida e se a renovação é automática;
  • o que a cláusula de sigilo impede de conversar com vizinhos;
  • qual é a multa em caso de rescisão.

Levar o documento a um advogado ou ao sindicato rural antes de assinar custa bem menos do que descobrir as respostas depois. Quem já viu um arrendamento de lavoura terminar com a terra devolvida em pior estado sabe que o problema raramente está na assinatura e quase sempre está no que ficou sem escrever.

Tags: arrendamento ruralenergia eólicaIowaNordeste
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