Um conjunto de recifes de coral fossilizados preservado em Almería, no sudeste da Espanha, revelou como era uma parte do Mediterrâneo pouco antes de uma de suas maiores transformações geológicas. As estruturas têm cerca de 6,5 milhões de anos e constituem o primeiro registro conhecido de recifes mesofóticos azuis do Mioceno Superior.
Os recifes cresceram onde hoje existe terra firme em Almería
O achado foi estudado por Fernando Sola, da Universidade de Almería, e Juan Carlos Braga, da Universidade de Granada. O trabalho, publicado em 2026 na revista Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, analisa afloramentos na margem oeste da Bacia de Almería-Níjar, região que milhões de anos atrás estava coberta pelo Mediterrâneo.
O estudo científico descreve estruturas formadas principalmente por corais do gênero Porites, com participação menor de Tarbellastraea. Sobre eles também aparecem foraminíferos, algas coralinas e microbialitos, formando um registro preservado das condições ambientais daquele mar antigo.

O formato dos corais revelou que havia pouca luz
Os pesquisadores encontraram colônias de Porites predominantemente finas, laminares e contorcidas, com poucas projeções semelhantes a pequenos dedos. Esse padrão é relevante porque aumenta a superfície disponível para receber luz, uma adaptação compatível com corais que viviam abaixo da faixa mais iluminada do oceano.
As próprias rochas permitiram estimar que esses recifes começaram a crescer a dezenas de metros de profundidade. Diferentemente de ambientes rasos com água turva, havia pouco sedimento vindo do continente: o material siliciclástico encontrado ficou abaixo de 8%, indicando que a redução de luminosidade estava ligada principalmente à profundidade da água.
É o primeiro registro conhecido desse tipo no Mioceno Superior
Os autores classificaram os recifes como mesofóticos azuis, nome dado a ecossistemas desenvolvidos em águas relativamente profundas e claras, onde apenas uma pequena parcela da luz disponível na superfície consegue chegar. Até o estudo de Almería, esse tipo específico de recife não havia sido registrado no mundo em depósitos do Mioceno Superior.
As estruturas possuem dimensões variadas: algumas têm menos de um metro de espessura, enquanto o maior bioerma identificado chega a aproximadamente 20 metros. O artigo científico destaca que a geometria dos afloramentos, o formato das colônias e os sedimentos encontrados ao redor apontam conjuntamente para um ambiente marinho mais profundo do que os recifes fósseis normalmente conhecidos na região.
Almería preserva diferentes capítulos dos antigos recifes mediterrâneos
O sudeste da Espanha já é conhecido por conservar recifes do período Messiniano. Um estudo sobre o Geoparque Mundial da Unesco Cabo de Gata-Níjar descreve outras unidades coralinas da mesma época, muitas delas desenvolvidas em águas mais rasas e dominadas também por Porites e Tarbellastraea.
É justamente essa diferença que torna o novo registro importante. Enquanto vários recifes conhecidos mostram ambientes costeiros pouco profundos, os exemplares estudados por Sola e Braga registram corais vivendo em águas claras e consideravelmente mais profundas, ampliando a reconstrução de como funcionavam os ecossistemas do Mediterrâneo antes de uma mudança ambiental extrema.

Os fósseis antecedem a crise de salinidade do Messiniano
Esses corais cresceram antes da chamada Crise de Salinidade do Messiniano, ocorrida aproximadamente entre 5,97 e 5,33 milhões de anos atrás. Nesse período, a troca de água entre o Atlântico e o Mediterrâneo foi fortemente reduzida, provocando mudanças profundas no nível do mar, na salinidade e na deposição de enormes volumes de evaporitos, como sais e gesso.
Um estudo sobre a Bacia de Almería-Níjar classifica a crise como uma das mudanças paleoambientais mais dramáticas da história recente da Terra. Os novos recifes não “explicam” sozinhos todo esse evento, mas fornecem uma fotografia geológica anterior à crise, permitindo comparar as condições marinhas antes e depois da transformação.
O achado ajuda a reconstruir um Mediterrâneo muito diferente do atual
A principal contribuição dos fósseis é revelar que o Mediterrâneo do fim do Mioceno abrigava uma variedade maior de ambientes coralinos do que se reconhecia anteriormente. Os recifes profundos de Almería mostram que corais adaptados à pouca luz conseguiram ocupar águas claras a dezenas de metros de profundidade pouco antes de as conexões oceânicas e as condições ambientais mudarem drasticamente.
O trabalho também abre espaço para novas comparações com afloramentos de outras partes do Mediterrâneo e para uma reconstrução mais detalhada da evolução desses ecossistemas. O que já está demonstrado é que as rochas hoje expostas em Almería preservam um registro raro de um mar desaparecido há milhões de anos, imediatamente anterior a uma crise que modificaria profundamente a história geológica da região.




