Você já se perguntou por que irmãos criados na mesma casa, com as mesmas regras, podem ter temperamentos tão opostos? Enquanto a genética e a criação levam a maior parte do crédito (ou da culpa), a ciência vem observando um fator inesperado que molda a forma como as crianças reagem ao mundo: o mês em que nasceram.
Longe de ser uma previsão astrológica, essa relação tem bases puramente biológicas e sociológicas. Pesquisadores descobriram que a época do ano em que um bebê nasce pode influenciar desde a química do seu cérebro até a forma como ele é percebido e avaliado nos primeiros anos de escola.
A química das estações e o temperamento infantil
Durante a gestação e nos primeiros meses de vida, o ambiente externo exerce uma forte influência no desenvolvimento do sistema nervoso central. Fatores como a quantidade de luz solar, a temperatura e a nutrição materna variam ao longo do ano e afetam a produção de neurotransmissores cruciais para o humor, como a dopamina e a serotonina.
Um estudo de destaque da Universidade Semmelweis, na Hungria, mapeou como essas variações sazonais se traduzem em traços de personalidade. Crianças nascidas na primavera e no verão, por exemplo, tendem a apresentar um temperamento mais “hipertímico” — são naturalmente mais enérgicas, otimistas e aceleradas. No entanto, os nascidos no pico do verão também podem apresentar mais oscilações de humor, mudando da alegria para a frustração com mais rapidez.
Já as crianças nascidas no outono e no inverno costumam registrar níveis menores de irritabilidade. Elas tendem a ser mais calmas e plácidas por natureza. Contudo, a ciência alerta que, no longo prazo, os nascidos nos meses mais escuros e frios podem ter uma predisposição ligeiramente maior à melancolia, exigindo que os pais incentivem atividades ao ar livre e exposição à luz natural desde muito cedo.
O “Efeito da Idade Relativa” e os falsos diagnósticos
Além da biologia, existe um fenômeno social crítico atrelado ao mês de nascimento que os pais precisam monitorar rigorosamente: o chamado “Efeito da Idade Relativa” no ambiente escolar.
Dependendo do mês de corte para a matrícula escolar no país ou estado em que você vive, o seu filho pode ser o mais velho ou o mais novo da turma. Uma criança nascida um mês antes da data de corte pode ter quase um ano a menos que seus colegas de classe nascidos logo após o corte anterior. Na infância, essa diferença de 11 meses é um abismo em termos de desenvolvimento neurológico, controle de impulsos e maturidade emocional.
O perigo reside nas expectativas dos adultos. Muitas vezes, crianças mais novas são taxadas como “imaturas”, “desatentas” ou “hiperativas” simplesmente porque estão sendo comparadas a colegas com um cérebro muito mais maduro. Estudos sobre educação e saúde mental mostram que crianças que são as caçulas da turma têm uma probabilidade significativamente maior de receberem diagnósticos equivocados de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), quando, na verdade, estão apenas agindo exatamente de acordo com a sua idade biológica real.
O que os pais devem observar na prática passo a passo
Saber como o período do ano impacta a criança não é uma sentença sobre o futuro dela, mas sim uma excelente ferramenta de observação e defesa. Aqui estão os passos para apoiar seu filho:
- Analise a energia versus a idade: Se o seu filho nasceu nos meses mais quentes e apresenta muita energia e picos de humor, ajude-o a nomear as emoções e ofereça válvulas de escape físicas (esportes, brincadeiras intensas ao ar livre) para regular esse temperamento naturalmente acelerado.
- Observe a posição na sala de aula: Descubra se o seu filho é um dos mais novos ou mais velhos da turma. Se ele for o caçula e os professores relatarem problemas de foco ou de comportamento, exija que o fator “idade relativa” seja levado em consideração antes de buscar avaliações clínicas precipitadas.
- Ajuste as expectativas em casa: Não compare o foco, a caligrafia ou a coordenação motora de um filho que é o mais novo da classe com a de um primo ou vizinho que é o mais velho do mesmo ano escolar. Cada mês de desenvolvimento conta muito nos primeiros anos de vida.
- Garanta luz natural: Para as crianças nascidas nos meses de inverno, que a biologia aponta como mais propensas à introspecção, crie uma rotina inegociável de exposição à luz solar matinal. Isso ajuda a regular o ciclo circadiano e estimula a produção de serotonina.
Visão geral: Mês de nascimento e impactos no comportamento
Para resumir as descobertas científicas sobre como o período de nascimento afeta o desenvolvimento infantil, consulte a tabela abaixo:
| Fator Analisado | Impacto Observado pela Ciência | O que os pais devem fazer |
| Nascidos na Primavera/Verão | Tendência a maior energia, otimismo e rapidez mental, mas com possíveis mudanças rápidas de humor. | Ensinar regulação emocional desde cedo e canalizar a energia extra de forma estruturada. |
| Nascidos no Outono/Inverno | Tendência a serem mais calmos e menos irritáveis, com possível inclinação à introspecção ou melancolia. | Estimular o engajamento social e garantir rotinas de exposição à luz solar para manter o humor equilibrado. |
| Os “Caçulas” da Turma Escolar | Risco elevado de serem considerados imaturos ou desatentos em comparação aos colegas quase um ano mais velhos. | Proteger a criança de diagnósticos apressados de déficit de atenção, avaliando o comportamento com base na sua idade exata em meses. |
| Os “Mais Velhos” da Turma | Tendem a apresentar mais confiança, liderança e melhor desempenho acadêmico e esportivo inicial. | Oferecer desafios adequados para que não fiquem entediados com o ritmo da sala de aula e percam o interesse. |
A ciência nos mostra que o calendário influencia muito mais do que a data em que você canta parabéns. Compreender essas nuances biológicas e estruturais permite que você refine o seu olhar parental, oferecendo exatamente o suporte que a criança precisa para florescer no seu próprio tempo, livre de rótulos injustos.








