Grandes festas populares costumam durar poucos dias e depois desaparecer do calendário até o ano seguinte. Em Parintins, na Ilha Tupinambarana, no Amazonas, o boi-bumbá funciona de outro jeito: é patrimônio cultural do país, tem uma escola pública de arte dentro do próprio palco da festa e ocupa currais, igrejas e ruas muito além de junho. Por trás da disputa entre vermelho e azul, existe uma história que começou com a construção de uma catedral.
Por que o boi-bumbá de Parintins é Patrimônio Cultural do Brasil?
Pelo conjunto de saberes que a comunidade mantém há mais de um século. Segundo a Prefeitura de Parintins, o registro foi aprovado por unanimidade na 91ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, em Belém, em novembro de 2018. Representantes da cidade lembraram na ocasião que os bois Garantido e Caprichoso somam mais de 100 anos de história.
O bem registrado tem nome longo: Complexo Cultural do Boi Bumbá do Médio Amazonas e Parintins, inscrito no Livro das Celebrações. De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o folguedo acontece geralmente nas celebrações juninas dedicadas a Santo Antônio, São João e São Pedro, e depende de muitos saberes populares para ganhar forma.

Quais são as três formas de brincar de boi?
Terreiro, rua e arena. Segundo o catálogo de bens culturais do Iphan, o Boi de Terreiro acontece em espaços abertos das comunidades e segue um roteiro em quatro partes: a chegada, a dança, a despedida e a morte simbólica do boi. O Boi de Rua tem características parecidas, mas percorre as ruas e interage diretamente com o público.
A terceira forma, o Boi de Arena, é a que o país conhece pela televisão, com alegorias gigantes e torcidas organizadas. A tradição, porém, é maior que a rivalidade entre os dois bois mais famosos: em 2024, o conselho que cuida da preservação da festa passou a contar também com o boi Rasgadinho, ao lado de Caprichoso e Garantido, segundo o Iphan.
Qual é a ligação entre o festival e a catedral?
O festival nasceu para ajudar a pagar a obra. De acordo com a Empresa Estadual de Turismo do Amazonas (Amazonastur), o Festival Folclórico de Parintins foi criado para angariar recursos para a conclusão da Catedral de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade, inaugurada em 1981. O templo atrai multidões de romeiros entre 6 e 16 de julho, nos festejos da santa, logo depois da temporada dos bois.
A antiga igreja matriz ganhou outro nome depois da inauguração. Segundo a Amazonastur, o espaço religioso que antes era a catedral da cidade passou a se chamar Sagrado Coração de Jesus. A fé e a festa, que parecem mundos separados, dividem a mesma origem em Parintins.

O que visitar em Parintins fora da época do festival?
A cidade guarda boa parte da atmosfera dos bois mesmo longe de junho. A Agência Amazonas de Notícias e a Amazonastur destacam alguns programas.
Como a arte do boi-bumbá se mantém viva o ano inteiro?
Com escola, planejamento e muita gente envolvida. Segundo a Agência Amazonas, o Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro funciona dentro do próprio Bumbódromo, na cidade que fica a 369 km de Manaus. Em 2024, a unidade abriu 1.174 vagas gratuitas, distribuídas entre artes visuais, audiovisual, dança, música e teatro, e as matrículas aconteceram no chamado Térreo Vermelho da arena.
A preservação também ganhou um roteiro oficial. O Iphan informa que o Plano de Salvaguarda do boi-bumbá foi aprovado em maio de 2024, com um conselho deliberativo formado por representantes das agremiações. O documento prevê gestão compartilhada entre os detentores da tradição, o poder público e a sociedade, para que a festa continue sendo feita por quem a mantém viva.

Como é o clima de Parintins ao longo do ano?
O clima é quente e úmido o ano todo. Um trabalho do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) de 1961 a 1990, aponta que Parintins teve a maior temperatura média entre as cidades amazonenses analisadas, com máximas médias de 31,7°C e mínimas de 24,2°C. As chuvas são mais abundantes de dezembro a junho, segundo o IBGE.
Temperaturas médias aproximadas com base nas normais do Inmet analisadas pelo INPA. Condições podem variar.
Uma ilha que transforma devoção em espetáculo
Parintins mostra que uma festa pode ser muito mais do que três noites de disputa. O boi-bumbá que ajudou a erguer a catedral da padroeira virou patrimônio do Brasil, ganhou uma escola pública de arte dentro do próprio palco e um plano oficial para ser preservado. Entre currais, triciclos e a orla do Rio Amazonas, a ilha segue criando, ensaiando e ensinando, mesmo quando as arquibancadas estão vazias.
Você precisa desembarcar em Parintins fora da época da festa, visitar os currais dos bois e percorrer a cidade de triciclo para entender como uma tradição centenária se reinventa todos os dias na ilha.
