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Nessa ilha amazônica, uma festa virou patrimônio do Brasil e nasceu para ajudar a erguer uma catedral, hoje a arte segue viva o ano inteiro

Por Maura Pereira
30/09/2026
Em Cidades, Turismo
Nessa ilha amazônica, uma festa virou patrimônio do Brasil e nasceu para ajudar a erguer uma catedral, hoje a arte segue viva o ano inteiro

A cidade guarda boa parte da atmosfera dos bois mesmo longe de junho. / Imagem ilustrativa

Grandes festas populares costumam durar poucos dias e depois desaparecer do calendário até o ano seguinte. Em Parintins, na Ilha Tupinambarana, no Amazonas, o boi-bumbá funciona de outro jeito: é patrimônio cultural do país, tem uma escola pública de arte dentro do próprio palco da festa e ocupa currais, igrejas e ruas muito além de junho. Por trás da disputa entre vermelho e azul, existe uma história que começou com a construção de uma catedral.

Por que o boi-bumbá de Parintins é Patrimônio Cultural do Brasil?

Pelo conjunto de saberes que a comunidade mantém há mais de um século. Segundo a Prefeitura de Parintins, o registro foi aprovado por unanimidade na 91ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, em Belém, em novembro de 2018. Representantes da cidade lembraram na ocasião que os bois Garantido e Caprichoso somam mais de 100 anos de história.

O bem registrado tem nome longo: Complexo Cultural do Boi Bumbá do Médio Amazonas e Parintins, inscrito no Livro das Celebrações. De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o folguedo acontece geralmente nas celebrações juninas dedicadas a Santo Antônio, São João e São Pedro, e depende de muitos saberes populares para ganhar forma.

O Boi de Rua tem características parecidas, mas percorre as ruas e interage diretamente com o público. / Créditos: Wikipédia

Quais são as três formas de brincar de boi?

Terreiro, rua e arena. Segundo o catálogo de bens culturais do Iphan, o Boi de Terreiro acontece em espaços abertos das comunidades e segue um roteiro em quatro partes: a chegada, a dança, a despedida e a morte simbólica do boi. O Boi de Rua tem características parecidas, mas percorre as ruas e interage diretamente com o público.

A terceira forma, o Boi de Arena, é a que o país conhece pela televisão, com alegorias gigantes e torcidas organizadas. A tradição, porém, é maior que a rivalidade entre os dois bois mais famosos: em 2024, o conselho que cuida da preservação da festa passou a contar também com o boi Rasgadinho, ao lado de Caprichoso e Garantido, segundo o Iphan.

Qual é a ligação entre o festival e a catedral?

O festival nasceu para ajudar a pagar a obra. De acordo com a Empresa Estadual de Turismo do Amazonas (Amazonastur), o Festival Folclórico de Parintins foi criado para angariar recursos para a conclusão da Catedral de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade, inaugurada em 1981. O templo atrai multidões de romeiros entre 6 e 16 de julho, nos festejos da santa, logo depois da temporada dos bois.

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A antiga igreja matriz ganhou outro nome depois da inauguração. Segundo a Amazonastur, o espaço religioso que antes era a catedral da cidade passou a se chamar Sagrado Coração de Jesus. A fé e a festa, que parecem mundos separados, dividem a mesma origem em Parintins.

Parintins mostra que uma festa pode ser muito mais do que três noites de disputa. / Créditos: Wikipédia

O que visitar em Parintins fora da época do festival?

A cidade guarda boa parte da atmosfera dos bois mesmo longe de junho. A Agência Amazonas de Notícias e a Amazonastur destacam alguns programas.

1
Currais dos bois O Curral Zeca Xibelão, do Caprichoso, no bairro Francesa, e o Curral Lindolfo Monteverde, do Garantido, no Santa Clara, abrem as portas em vários momentos do ano.
2
Passeio de triciclo Criado nos anos 1980, o triciclo virou patrimônio cultural imaterial do Amazonas e leva visitantes pelos cartões-postais da cidade.
3
Orla de Parintins Cerca de 5 km de extensão com vista para o Rio Amazonas, com paradas perto da Igreja de São Benedito.
4
Bumbódromo Apontado pela Amazonastur como o ponto alto da visita, é o palco das três noites de apresentações dos bois.
5
Mercado Municipal Inaugurado em 1937, foi ampliado e reinaugurado em 2019 e integra a lista de atrativos da Amazonastur.

Como a arte do boi-bumbá se mantém viva o ano inteiro?

Com escola, planejamento e muita gente envolvida. Segundo a Agência Amazonas, o Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro funciona dentro do próprio Bumbódromo, na cidade que fica a 369 km de Manaus. Em 2024, a unidade abriu 1.174 vagas gratuitas, distribuídas entre artes visuais, audiovisual, dança, música e teatro, e as matrículas aconteceram no chamado Térreo Vermelho da arena.

A preservação também ganhou um roteiro oficial. O Iphan informa que o Plano de Salvaguarda do boi-bumbá foi aprovado em maio de 2024, com um conselho deliberativo formado por representantes das agremiações. O documento prevê gestão compartilhada entre os detentores da tradição, o poder público e a sociedade, para que a festa continue sendo feita por quem a mantém viva.

O clima é quente e úmido o ano todo. / Créditos: Wikipédia

Como é o clima de Parintins ao longo do ano?

O clima é quente e úmido o ano todo. Um trabalho do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) de 1961 a 1990, aponta que Parintins teve a maior temperatura média entre as cidades amazonenses analisadas, com máximas médias de 31,7°C e mínimas de 24,2°C. As chuvas são mais abundantes de dezembro a junho, segundo o IBGE.

☀️ Verão Dez-Fev
Média: 24-32°C
Chuva: Alta
Visita à Catedral de Nossa Senhora do Carmo.
🍂 Outono Mar-Mai
Média: 24-32°C
Chuva: Alta
Visita aos currais dos bois.
❄️ Inverno Jun-Ago
Média: 24-32°C
Chuva: Média
Festival em junho e festejos de Nossa Senhora do Carmo em julho.
🌸 Primavera Set-Nov
Média: 24-32°C
Chuva: Média
Passeio de triciclo e fim de tarde na orla.
💡 Dica do especialista: o calor é constante, então o melhor momento depende do que se quer ver. Junho reúne o festival e julho, os festejos da padroeira, enquanto o segundo semestre, com menos chuva, favorece passeios pela orla e pelos currais com a cidade mais tranquila.

Temperaturas médias aproximadas com base nas normais do Inmet analisadas pelo INPA. Condições podem variar.

Leia também: A praia onde o mar vira espelho na maré baixa, com piscinas naturais entre recifes, falésias vermelhas e Mata Atlântica protegida.

Uma ilha que transforma devoção em espetáculo

Parintins mostra que uma festa pode ser muito mais do que três noites de disputa. O boi-bumbá que ajudou a erguer a catedral da padroeira virou patrimônio do Brasil, ganhou uma escola pública de arte dentro do próprio palco e um plano oficial para ser preservado. Entre currais, triciclos e a orla do Rio Amazonas, a ilha segue criando, ensaiando e ensinando, mesmo quando as arquibancadas estão vazias.

Você precisa desembarcar em Parintins fora da época da festa, visitar os currais dos bois e percorrer a cidade de triciclo para entender como uma tradição centenária se reinventa todos os dias na ilha.

Tags: Parintins
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