Arthur Schopenhauer costuma ser lembrado como um pensador severo, ligado ao pessimismo e à ideia de que o mundo é marcado pelo sofrimento. No entanto, parte de sua obra oferece uma leitura mais serena da experiência humana, especialmente quando trata do tempo, da maturidade e do envelhecimento. Em pleno século XXI, em um contexto depressa, metas e autocobrança permanentes, algumas de suas reflexões ganham novo fôlego e seguem sendo citadas em debates sobre vida adulta, trabalho e projetos pessoais.
O que significa a frase os primeiros quarenta anos de vida nos dão o texto
A expressão mais citada de Schopenhauer sobre a vida adulta afirma que “os primeiros quarenta anos de vida nos dão o texto; os trinta seguintes, o comentário”. A frase indica que a juventude e a primeira fase da maturidade seriam o momento em que se escrevem os principais acontecimentos: estudos, mudança de cidades, escolha de profissão, relacionamentos amorosos, decisões impulsivas e transições frequentes.
Na segunda parte da vida, o foco mudaria gradualmente da ação para a interpretação. Em vez de apenas acumular fatos, a pessoa começaria a perguntar o que fez com sua própria história e o que pode aprender a partir dela. O “comentário” seria a tentativa de compreender a narrativa já escrita, identificando conexões e significados que não eram nítidos no momento em que tudo acontecia.

Como Schopenhauer enxerga a vida adulta e a velhice
Schopenhauer nasceu em 1788, atravessou a era da Revolução Industrial, conviveu com o auge do idealismo alemão e morreu em 1860. Em sua obra central, O mundo como vontade e representação, descreveu a realidade como expressão de uma vontade cega, irracional e incontrolável, associada ao sofrimento e à frustração, afastando-se do discurso otimista de progresso típico do século XIX.
Já em escritos mais tardios, o filósofo se dedica a temas como caráter, envelhecimento e diferenças entre as fases da vida. Nesses textos, mantém o diagnóstico rigoroso sobre dor e limitação, mas introduz imagens como a do baile de máscaras em que, com o tempo, as fantasias caem e os verdadeiros traços das pessoas, bem como as consequências de seus atos, tornam-se mais evidentes.
Por que a ideia de texto e comentário ainda chama atenção em 2025
Na sociedade contemporânea, marcada por redes sociais, cobrança por resultados rápidos e valorização da juventude, a frase de Schopenhauer é usada para discutir crises de meia-idade, reorientação de carreira e mudanças de projeto de vida. Ela lembra que não é necessário ter tudo definido aos 25 ou 30 anos e que o entendimento mais profundo de certas decisões só surge muitos anos depois.
Profissionais de saúde mental e de orientação de carreira recorrem a essa imagem para explicar por que, em torno dos quarenta anos, é comum ocorrer uma revisão da trajetória afetiva, profissional e familiar. Pesquisas em psicologia do desenvolvimento e do envelhecimento também reforçam que fases avançadas da vida podem significar ganho de perspectiva e não apenas perdas.
- A noção de texto ajuda a pensar nos fatos concretos: estudos, empregos, separações, mudanças de país ou cidade.
- O comentário remete à capacidade de interpretar esses fatos, reorganizar prioridades e eventualmente redirecionar o caminho.
- Essa imagem relativiza a ideia de que a meia-idade é apenas crise, sugerindo que ela também pode representar reavaliação e profundidade.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo do professor Thiago Hot que explica Schopenhauer:
@professorthiagohot Schopenhauer em 1 minuto e meio. #enem #enem2024 #filosofia ♬ som original – Professor Thiago Hot
De que forma o pensamento de Schopenhauer dialoga com a vida cotidiana hoje
Embora tenha sido rotulado como pessimista, o filósofo oferece uma espécie de consolo ao lembrar que a vida inclui erros, coragem, resistência e capacidade de mudança. A perspectiva de que a própria biografia precisa de tempo para se revelar aproxima-se de relatos de pessoas que, décadas depois de uma escolha difícil, enxergam naquele episódio um ponto de virada ou de aprendizado.
Do ponto de vista prático, a metáfora do texto e do comentário aparece na revisão de carreira, nas relações afetivas e na redefinição de projeto de vida. Esses movimentos mostram como a segunda metade da vida pode funcionar como leitura crítica da primeira, sem apagar o que passou, mas reinterpretando experiências e buscando mais sentido em meio ao envelhecimento ativo e à busca por qualidade de vida.









